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Tradução Acadêmica: Erros Mais Comuns e Como Evitá-los

Os erros de tradução acadêmica que comprometem artigos científicos em inglês, por que acontecem e o que fazer para evitá-los antes de submeter.

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Os erros que aparecem quando você não sabe que está errando

Olha só: os erros de tradução acadêmica mais problemáticos não são os óbvios. Não são os erros de gramática básica que o corretor automático pega. São os erros sutis, os que tornam o texto estranhável, que fazem o revisor pausar em uma frase sem saber exatamente por quê.

Esses erros costumam vir de três fontes: tradução muito literal do português, uso de expressões que existem em inglês mas não são o registro científico adequado, e terminologia técnica traduzida de forma imprecisa ou inconsistente.

Vou passar pelos tipos de erro mais comuns e mostrar como identificar e corrigir.

Falsos cognatos: o clássico que ainda pega pesquisadores experientes

Falsos cognatos são palavras que parecem equivalentes nas duas línguas mas têm significados diferentes. Em textos científicos, esses erros são graves porque podem mudar o sentido técnico de uma afirmação.

Alguns que aparecem com frequência em textos acadêmicos:

Eventually não é “eventualmente”. Em inglês, “eventually” significa “por fim”, “com o tempo”, “finalmente”. “Eventualmente” em português (significando “talvez”, “às vezes”) seria “possibly”, “perhaps” ou “occasionally”. Se você escreve “The intervention will eventually improve outcomes”, está dizendo que os resultados vão melhorar com o tempo, não que talvez melhorem.

Actually não é “atualmente”. “Actually” significa “na verdade”, “de fato”. “Atualmente” seria “currently” ou “at present”. Escrever “Actually, the data shows…” quando você quer dizer “atualmente” vai confundir completamente o leitor inglês.

Pretend não é “pretender”. Em inglês, “to pretend” é “fingir”. “Pretender fazer algo” seria “to intend to do something”. Uma frase como “The researchers pretended to evaluate the intervention” é um desastre semântico.

Sensible não é “sensível”. Em inglês, “sensible” significa “razoável”, “prudente”. “Sensível” (com significado de “que consegue sentir” ou “emotivo”) seria “sensitive” em inglês.

Assist não é idêntico a “assistir”. “To assist” significa “ajudar”. “Assistir” (no sentido de observar) seria “to watch”, “to attend”, “to observe”.

Tradução literal de estruturas do português

O português acadêmico tem construções sintáticas que não existem em inglês ou que soam muito estranhas quando transpostas diretamente.

Sujeito oculto. Em português, “Verificou-se que os resultados foram significativos” é perfeitamente correto. Em inglês, frases sem sujeito explícito soam mal: “Was verified that the results were significant” está errado. O sujeito precisa aparecer: “Results showed significance” ou “We verified that the results were significant”.

Inversão sujeito-verbo em subordinadas. Em português, é comum dizer “Os dados que analisamos mostraram…”. Em inglês, a ordem é mais rígida: “The data that we analyzed showed…” (ou simplesmente “The analyzed data showed…”).

Gerúndio onde o inglês usa infinitivo ou outra estrutura. “É importante ressaltando que…” não existe em inglês. Seria “It is important to note that…” ou “Notably, …”.

Preposições que não correspondem. “Depende de” não é sempre “depends of”, é “depends on”. “Diferente de” pode ser “different from” (mais comum) ou “different than”, dependendo do contexto. Preposições são um dos pontos de maior variação entre as línguas.

Terminologia técnica imprecisa

Em ciências da saúde, ciências biológicas e outras áreas com vocabulário especializado, a tradução de termos técnicos exige consulta a fontes da área, não a dicionários gerais.

Alguns exemplos de termos que geram confusão:

“Desfecho” em estudos clínicos é “outcome” em inglês, não “result” ou “consequence”. “Primary endpoint” e “primary outcome” têm usos específicos dependendo do tipo de estudo.

“Viés” em metodologia de pesquisa é “bias”, não “prejudice” (que se refere a preconceito social). “Selection bias”, “information bias”, “confounding bias” são terminologias fixas.

“Significância estatística” é “statistical significance” e “statistically significant”. Dizer “significant results” sem o advérbio “statistically” pode ser interpretado como relevância substantiva, não resultado de teste estatístico.

“Comitê de ética” é “ethics committee” ou “institutional review board” (IRB) nos contextos norte-americanos. “Informed consent” é o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Usar os termos técnicos corretos do sistema de cada país é importante quando o estudo foi aprovado internacionalmente.

Inconsistência terminológica ao longo do texto

Um problema frequente em traduções mais longas: o mesmo conceito aparece com termos diferentes em partes diferentes do texto.

“Participantes” aparece como “participants” em um parágrafo, “subjects” em outro e “individuals” em um terceiro. “Intervenção” aparece como “intervention”, “treatment” e “procedure” de forma não deliberada.

Em inglês científico, a consistência terminológica é um sinal de rigor. Escolha um termo para cada conceito central do artigo e mantenha-o ao longo de todo o texto. A variação pode parecer elegante em português, em inglês científico, parece imprecisão.

Tempo verbal inconsistente

O uso dos tempos verbais no artigo científico em inglês segue convenções que diferem do português.

Presente simples: para afirmações sobre fatos estabelecidos, para a literatura (“Smith (2020) argues that…”) e para conclusões e implicações (“These findings suggest that…”).

Passado simples: para descrever o que o estudo fez (“We recruited 120 participants”, “Data were collected between 2023 and 2024”) e os resultados encontrados (“The intervention group showed significantly lower rates”).

Presente perfeito: para conectar passado e presente (“Previous studies have shown that…”).

O erro mais comum é usar o presente para descrever o que foi feito no estudo: “We recruit participants from…” quando deveria ser “We recruited participants from…”. Isso soa como se a coleta ainda estivesse em curso.

Como revisar sistematicamente antes de submeter

Uma revisão eficaz não é simplesmente reler o texto uma vez. É um processo estruturado.

Primeiro: leia o texto em voz alta em inglês. O que soa estranho quando você ouve geralmente tem um problema de construção.

Segundo: abra o artigo de um pesquisador nativo ou fluente da sua área publicado no mesmo periódico. Compare a estrutura das frases, os termos técnicos usados, os conectivos. Se houver diferença significativa de estilo, investigue por quê.

Terceiro: faça uma busca por todos os termos técnicos centrais do seu artigo em bases como PubMed ou Scopus. Veja como esses termos aparecem nos títulos e abstracts de artigos publicados. Se o seu termo não aparece e outro aparece com frequência, você provavelmente está usando o termo errado.

Quarto: peça para alguém revisar. Um colega com inglês fluente, um professor que publica em inglês, ou um serviço de revisão de inglês científico. O olhar externo pega o que você, por familiaridade com o texto, vai deixar passar.

A tradução acadêmica competente exige atenção, e a atenção ao detalhe é, afinal, o que distingue um bom trabalho científico de um trabalho apenas razoável. Faz sentido aplicar o mesmo cuidado ao idioma que você aplica à metodologia.

O problema do registro: inglês formal vs. inglês coloquial

Um erro menos óbvio, mas que aparece com frequência em textos de pesquisadores que têm bom inglês conversacional mas pouca experiência com escrita científica: misturar registros.

Inglês coloquial fluente e inglês acadêmico são coisas distintas. Em conversa, você diz “a lot of”. Em inglês científico, você diz “a large number of”, “many”, “several” ou especifica o número. Em conversa, “shows” ou “proves” são intercambiáveis. Em inglês científico, “prove” tem implicações epistemológicas muito mais fortes do que “show”, “indicate”, “suggest” ou “demonstrate”, e escolher o termo errado é afirmar mais do que seus dados podem sustentar.

Contrações são outro marcador de registro. “Don’t”, “can’t”, “it’s” são contração, perfeitamente aceitáveis em inglês informal, mas raras ou ausentes no inglês científico formal. “Do not”, “cannot”, “it is” são as formas esperadas.

Dominar a diferença entre esses registros não acontece por osmose. Acontece pela leitura sistemática de artigos científicos em inglês da sua área, prestando atenção não só ao conteúdo, mas ao vocabulário e às estruturas de frase usados.

Quando o erro já foi cometido: o que fazer

Se você recebeu um artigo de volta com comentários do editor ou do revisor sobre problemas de idioma, o caminho é:

Não tente corrigir pontualmente apenas as frases marcadas. Aproveite para revisar o artigo inteiro, porque geralmente onde há um erro há outros do mesmo tipo.

Se o periódico der a opção de submeter uma nova versão, considere uma revisão profissional antes de reenviar. Uma segunda rejeição por problemas de idioma é um sinal de que revisão própria não é suficiente naquele caso.

Use o feedback como aprendizado. Os comentários do revisor sobre linguagem revelam padrões do seu inglês que você pode corrigir sistematicamente nos próximos artigos.

Erros na tradução acadêmica são corregieis. O problema é quando eles aparecem repetidamente porque nunca foram identificados como padrão. Identificar os seus erros típicos é o primeiro passo para eliminá-los.

Perguntas frequentes

Quais são os erros mais comuns na tradução acadêmica do português para o inglês?
Os erros mais frequentes incluem tradução literal de expressões idiomáticas, uso incorreto de falsos cognatos, manutenção da estrutura de frase do português (que não funciona em inglês), terminologia técnica traduzida de forma imprecisa e inconsistência no uso dos tempos verbais.
O que são falsos cognatos na tradução acadêmica?
Falsos cognatos são palavras que parecem iguais em português e inglês, mas têm significados diferentes. Um exemplo clássico: 'eventually' em inglês significa 'com o tempo' ou 'por fim', não 'eventualmente' (que em inglês seria 'possibly' ou 'perhaps'). Em textos científicos, esses erros podem mudar completamente o sentido de uma afirmação.
Como revisar uma tradução acadêmica antes de submeter?
Leia o texto em inglês em voz alta: o que soa estranho provavelmente está errado. Compare trechos com artigos similares publicados no mesmo periódico. Verifique todos os termos técnicos em bases especializadas. Peça para um colega com inglês fluente ler pelo menos o abstract e a introdução.

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