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TCC pode usar primeira pessoa? Entenda de vez

TCC pode usar primeira pessoa? Entenda quando é permitido, o que diz a ABNT e como escrever com clareza sem parecer informal demais.

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A dúvida que paralisa antes de começar a escrever

Vamos lá. Você abre o documento do TCC, escreve a primeira frase, e trava: “Posso dizer ‘analisei’? Ou precisa ser ‘foi analisado’? Ou ‘analisamos’?”

Essa paralisia é real. E a resposta honesta é: depende — mas tem como entender o que depende de quê.

A questão da pessoa gramatical no TCC é uma daquelas que muita gente trata como lei inquestionável, quando na verdade é uma convenção que varia entre instituições, áreas do conhecimento e até entre orientadores. A ABNT não proíbe a primeira pessoa. O que existe é uma tradição de escrita impessoal que ainda domina boa parte das ciências exatas e da saúde, mas que vem sendo contestada nas ciências humanas e sociais há décadas.

O que a ABNT diz (e o que não diz)

A norma NBR 14724, que regula a apresentação de trabalhos acadêmicos no Brasil, menciona que o texto deve ser redigido em terceira pessoa. Mas esse ponto tem sido interpretado de formas diferentes, e a própria norma não detalha os casos em que exceções são aplicáveis.

Na prática, o que isso significa: se você citar literalmente a NBR 14724 para justificar o uso exclusivo da terceira pessoa, está se apoiando em uma recomendação, não em uma proibição absoluta.

Muitas universidades têm manuais próprios que interpretam as normas ABNT e definem o padrão local. Antes de qualquer coisa, consulte o manual da sua instituição. Se ele não especificar, pergunte ao seu orientador. Essa conversa pode salvar horas de reescrita.

Por que a impessoalidade virou padrão

A escrita impessoal surgiu como tentativa de conferir neutralidade ao discurso científico. A ideia era que “observou-se” ou “verificou-se” eliminaria o viés do pesquisador do texto, como se a pesquisa fosse um resultado neutro, separado de quem a conduziu.

Esse argumento foi bastante contestado nas últimas décadas, especialmente nas ciências humanas, sociais e da saúde. A pesquisa qualitativa, por definição, reconhece que o pesquisador faz parte do campo investigado — seja nas entrevistas que conduz, nas escolhas interpretativas que faz, nas categorias que cria. Esconder o pesquisador atrás de construções impessoais pode, paradoxalmente, desonrar o rigor metodológico.

Por isso, áreas como psicologia, pedagogia, antropologia e serviço social há muito tempo usam a primeira pessoa sem que isso comprometa o caráter científico do trabalho.

Quando usar cada opção

Primeira pessoa do singular (“eu”): mais comum em pesquisas qualitativas, etnografias, estudos de caso, trabalhos com abordagem autobiográfica ou narrativa. Também aparece em seções onde o pesquisador precisa explicitar suas escolhas metodológicas ou epistemológicas. Exemplo: “Optei pela entrevista semiestruturada porque…”

Primeira pessoa do plural (“nós”): a opção mais neutra e amplamente aceita. O “nós” pode indicar a equipe de pesquisa, o pesquisador e o orientador, ou simplesmente funcionar como um “nós inclusivo” que aproxima o leitor. Exemplo: “Neste estudo, analisamos…”

Terceira pessoa / construção impessoal: ainda é o padrão em muitas instituições e em áreas como engenharia, ciências exatas, medicina e direito. Exemplos: “Esta pesquisa analisou…”, “Verificou-se que…”, “Os dados indicam…”

Qualquer uma dessas opções é tecnicamente aceitável. O que você não pode fazer é misturar sem critério — usar “eu” em um parágrafo, “nós” no seguinte e “o pesquisador” no terceiro, sem que haja uma razão para a variação.

O que o orientador espera, na prática

Aqui vai um dado real: a maioria das reprovações relacionadas à pessoa gramatical no TCC não acontece por usar primeira pessoa, mas por usar de forma inconsistente. O revisor ou membro da banca nota a inconsistência e interpreta como falta de cuidado com a escrita.

Defina no início da escrita qual convenção você vai adotar e mantenha até o fim. Se der para alinhar com o orientador antes de começar, melhor ainda. Essa conversa leva 5 minutos e evita revisões desnecessárias.

A questão na prática: seção por seção

Algumas seções têm convenções mais rígidas do que outras:

Resumo e abstract: normalmente escrito de forma impessoal, independente da escolha feita no corpo do texto. “Este trabalho investigou…”, “Os resultados indicam…”

Introdução: boa parte das instituições aceita a primeira pessoa aqui, especialmente para apresentar o percurso do pesquisador ou a motivação do estudo.

Referencial teórico / revisão de literatura: tendência mais impessoal, já que você está descrevendo o que outros autores disseram.

Metodologia: talvez a seção onde a primeira pessoa aparece mais naturalmente, porque você está descrevendo o que você fez. “Realizamos entrevistas com…”, “Utilizamos questionário estruturado…”

Resultados e discussão: aqui depende muito da área. Em ciências exatas, impessoal. Em pesquisa qualitativa, é comum encontrar “observei que”, “os dados me permitiram concluir que…”

Conclusão: normalmente aceita a primeira pessoa para retomar a contribuição pessoal da pesquisa.

Quando a impessoalidade vira problema

A escrita impessoal mal executada pode tornar o texto confuso e menos legível. Construções como “procedeu-se à análise dos dados a partir da coleta realizada pela pesquisadora” são tecnicamente impessoais, mas deixam o leitor confuso sobre quem fez o quê.

Clareza sempre tem prioridade sobre convenção. Se a construção impessoal tornar o parágrafo incompreensível ou ambíguo, reescreva — mesmo que isso signifique usar a primeira pessoa pontualmente.

O objetivo do TCC não é parecer acadêmico. É comunicar com rigor. Esses dois objetivos são compatíveis, mas quando há conflito, o rigor da comunicação vem antes da aparência de formalidade.

O V.O.E. e a questão da voz no texto acadêmico

No Método V.O.E., a “voz” não é apenas um elemento estético — é parte do rigor. Quando o pesquisador reconhece sua posição no campo, quando explicita suas escolhas, quando não esconde atrás de construções impessoais algo que foi, de fato, uma decisão sua, o texto ganha em transparência e, portanto, em credibilidade científica.

Isso não significa que todo TCC precisa ser escrito em primeira pessoa. Significa que a escolha gramatical deve ser coerente com a epistemologia do trabalho. Pesquisa positivista, com neutralidade como pressuposto, combina com terceira pessoa. Pesquisa interpretativa, que reconhece o pesquisador como instrumento, combina com primeira pessoa.

Faz sentido? A forma como você escreve deveria refletir o que você pensa sobre como o conhecimento é produzido.

O que decidir antes de digitar a primeira linha

Antes de começar a escrever o TCC, decida:

  1. Sua instituição tem diretriz sobre pessoa gramatical? (consulte o manual ou pergunte)
  2. Qual a orientação do seu orientador?
  3. Sua pesquisa tem abordagem qualitativa ou quantitativa? (isso influencia a convenção mais adequada)
  4. Qual opção vai te permitir escrever de forma mais clara e consistente?

Com isso definido, você escreve com segurança. E segurança na escrita aparece no texto — a banca percebe.

Perguntas frequentes

TCC pode usar primeira pessoa do singular?
A ABNT não proíbe explicitamente o uso da primeira pessoa. O que varia é a orientação de cada instituição e o posicionamento do orientador. Em geral, a primeira pessoa do plural (nós) ou construções impessoais são preferidas, mas muitos programas já aceitam 'eu' quando bem aplicado, especialmente em pesquisas qualitativas.
Qual a diferença entre usar 'eu' e 'nós' no TCC?
O 'nós' indica autoria coletiva (pesquisadora e orientador, ou a equipe de pesquisa) e é mais aceito academicamente. O 'eu' evidencia a voz individual e é mais comum em metodologias qualitativas, etnográficas ou autobiográficas. Qualquer um dos dois pode ser usado — o que importa é consistência ao longo do texto.
O que a ABNT diz sobre impessoalidade no TCC?
A NBR 14724 recomenda que trabalhos acadêmicos sejam escritos em terceira pessoa ou com construções impessoais (como 'verificou-se', 'observou-se'). Mas essa não é uma regra absoluta, e a própria norma reconhece que diferentes áreas têm convenções distintas.

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