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Scoping review: o que é e como fazer passo a passo

A scoping review é uma metodologia de revisão da literatura que mapeia evidências em um campo. Veja como funciona e como executar a sua.

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O que é exatamente uma scoping review

Vamos lá. Se você chegou até esse termo, provavelmente está pensando em fazer uma revisão da literatura e quer entender qual tipo faz sentido para o seu objetivo. A scoping review, ou revisão de escopo, é uma das opções disponíveis, e vale entender bem o que ela é antes de decidir se ela se encaixa no que você precisa fazer.

A scoping review é uma metodologia de revisão da literatura que tem como objetivo mapear evidências disponíveis sobre um determinado tema ou campo de pesquisa. Ela não responde a uma pergunta clínica estreita com critérios de qualidade metodológica rígidos como a revisão sistemática. Ela pergunta: o que existe? O que foi publicado? Que tipos de estudos tratam esse tema? Quais são as lacunas?

O termo “scoping” se refere exatamente a isso: varrer o horizonte, ter uma visão panorâmica de um campo.

Para que a scoping review serve

A scoping review é útil quando o objetivo é entender o estado da arte de um tema emergente ou pouco explorado, identificar os principais conceitos e definições usados num campo, mapear os tipos de evidência disponíveis antes de planejar uma revisão sistemática, ou compreender a amplitude e a diversidade de uma literatura sem ainda querer sintetizá-la.

Por isso ela é especialmente usada em campos novos, em temas interdisciplinares, ou quando a pesquisadora quer justificar a necessidade de um estudo primário mostrando o que ainda não foi investigado.

Não serve para tirar conclusões sobre a eficácia de uma intervenção, determinar qual tratamento é melhor ou fazer síntese quantitativa de efeitos. Para isso, a revisão sistemática com metanálise é mais adequada.

Scoping review vs. revisão sistemática: a diferença real

Essa é a dúvida mais comum, e a distinção importa porque os métodos têm objetivos diferentes e não são intercambiáveis.

A revisão sistemática nasce de uma pergunta específica, geralmente no formato PICO (População, Intervenção, Comparação, Desfecho), e segue critérios rigorosos de qualidade metodológica. Ela inclui avaliação do risco de viés dos estudos, síntese dos resultados e, quando possível, metanálise. É o padrão-ouro para questões de eficácia e efetividade.

A scoping review parte de uma pergunta mais ampla, geralmente no formato PCC (População, Conceito, Contexto), e não avalia a qualidade metodológica dos estudos incluídos. Ela inclui todos os estudos relevantes para a pergunta de mapeamento, independentemente do desenho metodológico. O produto final é um mapa da literatura, não uma síntese de efeitos.

A confusão acontece porque os dois processos compartilham etapas: busca em bases de dados, triagem por títulos e resumos, leitura de texto completo, extração de dados. Mas a lógica que orienta cada passo é diferente.

As principais diretrizes para fazer uma scoping review

O guia mais usado atualmente é o do Joanna Briggs Institute (JBI), publicado em 2020, que descreve os passos e os elementos obrigatórios de uma scoping review com rigor metodológico. A publicação do protocolo no OSF antes da execução da busca é fortemente recomendada pelo JBI como forma de garantir a transparência do processo.

Outro guia influente é o framework de Arksey e O’Malley, de 2005, que foi um dos primeiros a sistematizar a metodologia, e a posterior atualização de Levac, Colquhoun e O’Brien. Esses textos são as referências clássicas e valem ser lidos antes de começar.

Como fazer uma scoping review: passo a passo

Passo 1: Defina a pergunta de pesquisa. Uma pergunta de scoping review bem formulada segue o framework PCC: qual população está sendo considerada, qual conceito ou fenômeno está sendo mapeado, e em qual contexto. Exemplo: “Quais são as abordagens metodológicas usadas para avaliar letramento em saúde em adultos no Brasil (2010-2024)?”

Passo 2: Escreva o protocolo. Antes de executar qualquer busca, documente sua estratégia: pergunta de pesquisa, bases de dados a serem consultadas, termos de busca, critérios de inclusão e exclusão, processo de triagem e extração de dados. Registre o protocolo no OSF para garantir transparência e evitar questionamentos futuros sobre modificações durante o processo.

Passo 3: Execute a busca. A busca precisa ser abrangente e realizada em múltiplas bases de dados relevantes para a sua área. Na saúde, bases como PubMed, LILACS, Embase e Cochrane são comuns. Em outras áreas, Scopus, Web of Science, PsycINFO ou bases regionais podem ser mais adequadas. Use os descritores controlados (MeSH, DeCS) combinados com termos livres e conectores booleanos. Documente cada busca com data e resultado.

Passo 4: Triem e selecione os estudos. A triagem acontece em etapas. Primeiro, leitura de títulos e resumos para eliminar estudos claramente fora dos critérios. Depois, leitura do texto completo dos estudos pré-selecionados para confirmação da inclusão. O processo de triagem deve ser feito por pelo menos dois pesquisadores de forma independente, com resolução de divergências por consenso ou terceiro pesquisador. Ferramentas como Rayyan, Covidence ou Abstrackr ajudam nessa etapa.

Passo 5: Extraia os dados. Para cada estudo incluído, extraia as informações relevantes para responder à pergunta de mapeamento. Os dados extraídos variam conforme o objetivo da revisão: tipo de estudo, população, intervenção, abordagem metodológica, resultados reportados. Use um formulário padronizado.

Passo 6: Sintetize e apresente os resultados. A síntese numa scoping review é descritiva e narrativa. Você vai apresentar as características dos estudos incluídos, mapear os conceitos usados, identificar lacunas e tendências na literatura. Tabelas e figuras ajudam a organizar a apresentação. Um fluxograma PRISMA adaptado para scoping review é esperado pela maioria dos periódicos.

O que é o fluxograma PRISMA-ScR

O PRISMA-ScR (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews) é o padrão de reporte para scoping reviews. Ele exige que você documente e apresente o número de registros identificados em cada base de dados, os registros excluídos após remoção de duplicatas, os excluídos na triagem de títulos e resumos, os avaliados em texto completo e os incluídos na síntese final, com os motivos de exclusão.

Seguir o PRISMA-ScR não é opcional se você quer publicar em periódicos com revisão por pares. É o padrão de transparência esperado pelos revisores.

Scoping review como produto de dissertação

Para pós-graduandos, a scoping review tem se tornado uma opção atraente como produto de dissertação, especialmente na saúde, educação e ciências sociais aplicadas. Ela exige rigor metodológico, capacidade de síntese e escrita acadêmica clara, e entrega um produto com valor real para o campo: um mapa do que existe e do que falta.

Antes de escolher esse caminho, certifique-se de que seu orientador tem familiaridade com a metodologia, que o programa aceita esse formato de dissertação, e que você tem acesso às bases de dados necessárias para uma busca abrangente.

O prazo é outro ponto a considerar: uma scoping review bem-feita leva tempo. A triagem de centenas de resumos, a leitura de textos completos e a extração de dados são processos trabalhosos. Com planejamento e as ferramentas certas, é plenamente viável dentro do prazo de um mestrado, mas exige que você comece cedo.

Onde publicar uma scoping review

Scoping reviews têm espaço crescente em periódicos das mais diferentes áreas. Na saúde, periódicos como JBI Evidence Synthesis e Systematic Reviews são voltados especificamente para revisões da literatura. Em educação, administração e ciências sociais, periódicos da área geralmente aceitam artigos de revisão de escopo desde que sigam o protocolo JBI ou o framework Arksey-O’Malley.

Antes de submeter, verifique se o periódico-alvo tem instruções específicas para artigos de revisão de escopo, se exige registro prévio do protocolo, e se tem algum limite de palavras para esse tipo de artigo. Periódicos diferentes têm políticas diferentes, e adequar o manuscrito ao escopo do periódico antes de submeter economiza tempo.

Ferramentas que facilitam o processo

Além do Rayyan e do Covidence para triagem, algumas ferramentas facilitam etapas específicas:

Para gerenciar referências e remover duplicatas, o Zotero ou o Mendeley são opções gratuitas e funcionais. O Endnote é amplamente usado em ambientes institucionais e tem recursos avançados para grandes volumes de referências.

Para a busca em bases de dados, a plataforma MEDLINE via PubMed é gratuita e tem recursos avançados de busca. A Scopus e a Web of Science têm custos de acesso, mas muitas universidades brasileiras têm acesso pelo Portal de Periódicos da Capes.

Para a extração de dados, uma planilha estruturada no Excel ou no Google Sheets resolve bem na maior parte dos casos. O que importa é ter um formulário padronizado, preenchido da mesma forma por todos os pesquisadores envolvidos.

O que torna uma scoping review de qualidade

Uma scoping review de qualidade tem pergunta de pesquisa clara e bem delimitada, protocolo registrado antes da execução, estratégia de busca abrangente e replicável, processo de triagem transparente com pelo menos dois revisores, extração de dados padronizada e síntese que responde à pergunta original com clareza.

O que não torna uma scoping review de qualidade: busca feita em uma única base de dados, triagem feita por uma só pessoa, critérios de inclusão/exclusão aplicados de forma inconsistente, ou síntese que apresenta apenas uma lista de artigos sem análise do que eles revelam em conjunto.

A distinção entre fazer uma scoping review adequada e fazer uma revisão narrativa disfarçada de scoping review está exatamente no rigor do método. O rigor não está na pergunta respondida, mas na transparência e reprodutibilidade do processo.

Se você quer aprofundar o planejamento da sua escrita acadêmica, incluindo como organizar um projeto de revisão da literatura, o Método V.O.E. oferece estratégias práticas para estruturar o processo de produção.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre scoping review e revisão sistemática?
A revisão sistemática responde a uma pergunta clínica ou científica específica com critérios rígidos de qualidade metodológica e, frequentemente, inclui metanálise. A scoping review tem objetivo mais amplo: mapear o que existe na literatura sobre um tema, identificar lacunas, descrever conceitos e tipos de evidência disponíveis. Não avalia a qualidade metodológica dos estudos primários e não tem como objetivo sintetizar efeitos ou resultados específicos.
A scoping review é aceita como produto de dissertação ou tese?
Sim, cada vez mais programas de pós-graduação aceitam a scoping review como produto final de dissertações e teses, especialmente na área da saúde. É importante verificar com o programa e o orientador se esse formato é aceito e quais são as exigências específicas. A publicação do protocolo em plataformas como o Open Science Framework (OSF) antes da execução é recomendada pela maioria dos guias metodológicos atuais.
Quantos artigos precisa ter uma scoping review?
Não há um número mínimo ou máximo definido. O que importa é que a busca seja abrangente, registrada e reproduzível. Uma scoping review pode incluir dezenas ou centenas de estudos, dependendo do campo e da pergunta. O processo de triagem por título, resumo e texto completo é que vai definir a amostra final incluída na revisão.

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