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Resenha acadêmica: como fazer e erros mais comuns

Aprenda o que é uma resenha acadêmica, como estruturá-la corretamente e quais são os erros mais comuns que comprometem esse tipo de texto.

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Resenha acadêmica: mais do que resumir

Olha só: a resenha é um dos gêneros acadêmicos mais pedidos em cursos de graduação e pós-graduação, e também um dos mais mal compreendidos. Muita gente entrega resumo achando que entregou resenha. O problema não é falta de esforço. É que ninguém explica direito o que diferencia uma coisa da outra.

Vamos ao ponto.

A resenha é um texto que apresenta, contextualiza e avalia uma obra. Pode ser um livro, um artigo, um filme, uma exposição. Em contextos acadêmicos, geralmente é sobre livros ou artigos científicos.

O que diferencia a resenha de um resumo é a avaliação. Sem opinião fundamentada sobre a obra, sem análise crítica de seus argumentos, sem contextualização no campo de conhecimento em que ela se insere, você tem um resumo, não uma resenha.

Estrutura de uma resenha acadêmica

Uma resenha completa costuma ter quatro partes, que não precisam ser seções com títulos separados, mas precisam estar todas presentes.

Identificação da obra. No início ou em nota de rodapé, apresentam-se os dados bibliográficos: autor, título completo, editora, ano, número de páginas. Algumas resenhas publicadas em periódicos colocam isso num cabeçalho separado antes do texto.

Apresentação do conteúdo. Aqui você descreve o que a obra trata: tema central, principais argumentos, estrutura, abordagem adotada pelo autor. É a parte mais próxima do resumo, mas ela é apenas uma das partes, não a obra toda.

Contextualização. A obra se insere em algum debate, campo teórico, momento histórico ou discussão em curso? Quem é o autor e qual seu posicionamento no campo? Quais obras dialogam com essa? Essa parte exige que você conheça minimamente a literatura da área.

Avaliação crítica. O que a obra contribui? Quais são seus pontos fortes? Quais são suas limitações? Os argumentos são consistentes? A metodologia é adequada? Você concorda com as conclusões? Por quê?

É essa última parte que faz a resenha ser resenha. E é exatamente ela que muita gente deixa de fora.

Os erros mais comuns na resenha acadêmica

Primeiro erro: fazer um resumo e chamar de resenha.

O sinal é claro: o texto descreve o que a obra fala, capítulo por capítulo ou seção por seção, sem nenhum posicionamento do resenhista. Sem análise, sem contextualização, sem avaliação. Isso é resumo.

Segundo erro: avaliação sem fundamentação.

“O livro é muito bom e contribui bastante para o campo” não é avaliação crítica. É elogio vago. Avaliação crítica diz o quê o livro contribui, como isso se relaciona com o que já existe, e quais os limites dessa contribuição. Pode ser positivo, pode ser crítico, mas precisa ser específico e justificado.

Terceiro erro: personalizar demais a avaliação.

“Eu gostei muito do livro porque o autor escreve de forma envolvente” é avaliação pessoal, não acadêmica. Avaliação acadêmica foca nos argumentos, na metodologia, na coerência interna, na relevância para o campo. O gosto pessoal pode estar presente, mas não pode ser o critério principal.

Quarto erro: não apresentar o autor.

Quem escreveu a obra? Qual é sua formação, sua filiação institucional, sua área de atuação? Isso importa porque contextualiza a perspectiva de onde o texto foi escrito. Um livro sobre educação escrito por um pedagogo e um escrito por um economista podem ter ênfases muito diferentes, e isso é dado relevante para quem vai ler a resenha.

Quinto erro: ignorar o público-alvo da obra.

Para quem o livro foi escrito? Especialistas da área? Iniciantes? Professores? Pesquisadores? Essa informação ajuda o leitor da resenha a avaliar se a obra é adequada para o que precisa.

Como escrever a avaliação crítica sem inventar críticas

Essa é a dúvida mais comum entre quem está aprendendo: “mas eu concordo com tudo que o autor fala. O que vou criticar?”

Avaliação crítica não é necessariamente crítica negativa. É exame cuidadoso. Você pode avaliar positivamente uma obra de forma fundamentada e isso ainda é análise crítica.

Algumas perguntas que ajudam a estruturar a avaliação:

A pergunta que a obra se propõe a responder foi respondida? Os argumentos são coerentes e bem sustentados? Quais são as fontes usadas, são reconhecidas no campo? Há lacunas ou aspectos que ficaram sem tratamento adequado? Quais contribuições essa obra traz que não estavam disponíveis antes? Em que ela avança em relação ao que já existia?

Responder pelo menos duas ou três dessas perguntas já produz uma avaliação crítica consistente. Não precisa ser exaustivo, precisa ser específico.

Tom da resenha acadêmica

Resenha acadêmica é escrita em tom formal, mas não precisa ser árida. Você está dialogando com quem lê sobre uma obra: explicando o que ela faz, por que importa e o que pensa sobre ela.

O tom é analítico, não entusiasta nem destrutivo. Mesmo que você discorde profundamente do autor, a crítica precisa ser fundamentada. Mesmo que você admire muito a obra, o elogio precisa ser específico.

No Método V.O.E., trabalhamos bastante a construção de uma voz analítica que não seja nem excessivamente formal nem pessoal demais. Esse equilíbrio é o que faz uma boa resenha acadêmica.

Resenha descritiva vs. resenha crítica: duas categorias

Existe uma distinção que vale conhecer.

A resenha descritiva apenas apresenta o conteúdo da obra sem emitir julgamento. Ela é mais comum em contextos jornalísticos e em situações onde o objetivo é só informar o leitor sobre o que a obra contém.

A resenha crítica inclui avaliação. É a modalidade padrão em contextos acadêmicos.

Quando um professor pede resenha sem especificar, geralmente espera a crítica. Mas vale confirmar, porque alguns contextos aceitam a descritiva para determinados objetivos.

Resenha de artigo científico: particularidades

Resenhar um artigo científico tem algumas especificidades em relação a resenhar um livro.

O artigo já é um texto enxuto, com estrutura mais previsível: introdução, revisão de literatura, metodologia, resultados, discussão, conclusão. Isso facilita a apresentação do conteúdo, mas também exige que você seja preciso sobre o que cada seção contribui.

Na avaliação de um artigo, vale olhar especialmente para: a pergunta de pesquisa está clara? O método é adequado para responder essa pergunta? Os resultados foram apresentados de forma transparente? A discussão conecta os resultados com a literatura existente? As limitações foram reconhecidas pelos autores?

Outro ponto importante em artigos: verificar se os dados foram coletados e analisados de forma que outro pesquisador poderia replicar. Isso não é exigência de um leitor rigoroso demais, é critério básico de qualidade científica.

A contextualização no campo do conhecimento é especialmente relevante aqui. Em que debate o artigo se insere? Quais autores e correntes ele dialoga? Essa pergunta precisa de algum conhecimento da área, mas mesmo um conhecimento básico já permite posicionar o trabalho minimamente.

Como usar a resenha como exercício de leitura

Uma coisa que aprendi com o tempo: a resenha é um dos melhores exercícios de leitura ativa que existe.

Quando você lê sabendo que vai precisar resumir, contextualizar e avaliar, você lê diferente. Você anota o que o autor está argumentando, não só o que está descrevendo. Você presta atenção nas escolhas metodológicas. Você percebe quando um argumento ficou incompleto.

Isso treina o olhar crítico que qualquer pesquisador precisa. Não é coincidência que a resenha apareça tanto em cursos de pós-graduação: ela é pedagogicamente eficiente porque força um tipo de leitura que você não faz quando só quer absorver informação.

Você pode encontrar mais sobre gêneros acadêmicos e técnicas de escrita na seção de recursos aqui do blog.

Resenha: mais do que uma obrigação

A resenha pode parecer uma tarefa burocrática, especialmente quando cai no colo sem muita explicação. Mas quando você entende o que ela pede, ela vira um exercício real de pensamento crítico.

Resumir é descrever. Resenhar é pensar. E esse pensar inclui perguntar: o que esse autor está dizendo, por que está dizendo assim, o que isso contribui para o campo e o que fica em aberto.

Quando isso fica claro, escrever uma boa resenha deixa de ser difícil. Fica apenas exigente, que é diferente.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre resenha e resumo?
O resumo descreve o conteúdo de um texto sem emitir opinião. A resenha vai além: ela descreve, contextualiza e avalia. Toda resenha inclui análise crítica do autor, seja sobre a relevância, os argumentos, a metodologia ou a contribuição da obra. Sem avaliação, é resumo.
A resenha pode usar primeira pessoa?
Em resenha acadêmica, o mais comum é usar terceira pessoa ou construções impessoais. Mas algumas abordagens e alguns professores aceitam a primeira pessoa, especialmente para o posicionamento crítico. O mais seguro é verificar as normas da sua instituição ou perguntar ao professor.
Qual o tamanho de uma resenha acadêmica?
Não há uma norma universal, mas resenhas acadêmicas costumam ter entre 1 e 3 páginas, ou cerca de 500 a 1.500 palavras. O importante é que todas as partes estejam presentes: identificação da obra, apresentação do conteúdo, contextualização e avaliação crítica.

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