Método

Quando Usar Apud ABNT e Quando Não Usar

Entenda o que é apud, quando a ABNT permite seu uso e por que recorrer a ele com frequência pode enfraquecer seu texto acadêmico.

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O que é apud e por que tanta confusão ao redor dele

Vamos lá. Se você já leu algum texto acadêmico, provavelmente já encontrou algo como “Freire (1970 apud SOUZA, 2015)” e ficou se perguntando o que aquilo significa exatamente, e se você pode (ou deveria) fazer o mesmo no seu trabalho.

A resposta curta: apud é uma solução de emergência, não uma forma habitual de citar. A resposta longa é o que vamos explorar aqui.


O que a NBR 10520 diz sobre apud

A NBR 10520 é a norma da ABNT que regula citações em documentos. Ela estabelece que apud é usado quando você cita uma obra que não acessou diretamente, mas que encontrou referenciada dentro de outro texto.

Então: você leu o livro de Souza (2015) e lá dentro ele cita Freire (1970). Você não tem acesso ao texto original de Freire. Mas quer usar aquilo que Souza reportou. Aí você usa: Freire (1970 apud SOUZA, 2015, p. X).

A norma não proíbe essa prática. Mas ela deixa claro que deve ser usada apenas quando o original não está disponível. A recomendação implícita é que, se você conseguir acessar o original, acesse.


Quando o uso de apud é razoável

Existem situações em que o apud faz sentido e não compromete o trabalho:

Documentos históricos raros ou de difícil acesso. Se você está citando um manuscrito do século XVIII que existe em arquivo físico em outro país, é completamente aceitável usar uma fonte secundária confiável que o reproduziu.

Documentos em língua de difícil acesso. Se o original está em russo ou japonês e você não domina o idioma, e não há tradução disponível, citar via fonte secundária é tolerável.

Dados ou citações pontuais em contexto de ampla revisão. Se você faz uma revisão que inclui centenas de fontes e uma delas só aparece citada em outro texto, pode ser razoável usar o apud em vez de deixar a informação de fora, desde que isso seja uma exceção, não a regra.


Quando o uso de apud é problemático

Aqui está o que vai chamar a atenção de orientadores e bancas:

Usar apud por comodidade. O texto original existe, está em português, está disponível online ou em biblioteca, mas você optou por não buscar. Isso é preguiça de revisão, e bancas identificam facilmente quando o apud está sendo usado como atalho.

Usar apud em larga escala. Se metade das suas citações são “alguém apud outra pessoa”, o avaliador vai questionar a profundidade da sua revisão de literatura. Uma boa revisão acessa as fontes primárias.

Usar apud sem saber o que está citando. Esse é o risco mais sério. Quando você cita via fonte secundária, confia no julgamento de quem está no meio. Se Souza (2015) deturpou o que Freire disse, você está perpetuando o erro sem perceber.

Usar apud para citar textos clássicos facilmente acessíveis. Piaget, Vygotsky, Freire, Bourdieu: esses autores têm obras disponíveis em português, muitas vezes gratuitamente. Usar apud para citar textos amplamente acessíveis é uma escolha que vai custar credibilidade.


Como formatar a citação com apud na prática

A estrutura é:

No corpo do texto:

Conforme Vygotsky (1934 apud OLIVEIRA, 2010, p. 45), o desenvolvimento cognitivo ocorre primeiramente no plano social.

Ou na citação direta longa (mais de 3 linhas), recuada 4 cm:

“Texto citado literalmente…” (VYGOTSKY, 1934 apud OLIVEIRA, 2010, p. 45).

Nas referências bibliográficas: Você lista apenas a obra que leu de fato, no caso Oliveira (2010). Vygotsky NÃO entra nas referências porque você não acessou o texto dele diretamente.

Esse ponto gera bastante confusão: muita gente coloca os dois nas referências, ou só coloca o autor original, mas a norma é clara: nas referências vai apenas a fonte que você efetivamente consultou.


Por que é melhor evitar e como fazer isso na prática

O conselho que eu daria: antes de usar apud, gaste 10 minutos tentando encontrar o original. Você vai se surpreender com o quanto está disponível.

Estratégias para encontrar a fonte primária:

No Google Acadêmico, pesquise o título exato ou o nome do autor com aspas. Muitos textos clássicos foram digitalizados e estão acessíveis.

Na Biblioteca Virtual da Capes (periodicos.capes.gov.br), você acessa, como estudante ou pesquisador de instituição vinculada, uma vastidão de artigos e livros.

No Z-Library ou em repositórios institucionais, muitos textos que seriam difíceis de encontrar estão disponíveis.

Se o texto realmente não está disponível: aí sim, o apud é justificado, e você pode usá-lo sem culpa.


Uma nota sobre confiança intelectual

Há uma dimensão que vai além da formatação técnica: quando você cita via apud, você está delegando a responsabilidade de interpretar a fonte para outra pessoa. Esse é um risco intelectual real.

É diferente de você ler Vygotsky e formular sua própria leitura do que ele disse, e de você usar o Vygotsky que Oliveira leu e interpretou. Não estou dizendo que Oliveira errou. Estou dizendo que você não sabe.

Parte do que o Método V.O.E. defende é exatamente isso: antes de escrever sobre uma ideia, entrar em contato com ela diretamente, sempre que possível. Não para ser exaustivo a ponto de paralisar, mas para ter uma relação honesta com as fontes que você usa.

Apud, quando necessário, é legítimo. Quando evitável, é uma escolha de qualidade.


Resumo para aplicar agora

Use apud quando o original genuinamente não está disponível. Formate no texto como “Autor Original (ano apud AUTOR CONSULTADO, ano, p. X)” e nas referências coloque apenas a obra que você leu. Evite quando o original está acessível. E lembre: cada vez que você vai à fonte primária, seu texto fica mais sólido.

Perguntas frequentes

O que significa apud nas normas ABNT?
Apud é uma expressão latina que significa 'citado por' ou 'apud' (em). Nas normas ABNT (NBR 10520), indica que você está citando um autor que foi citado por outro, ou seja, você não teve acesso ao documento original e acessou o conteúdo por meio de uma fonte secundária.
Como fazer a citação com apud no texto ABNT?
No texto, indica-se o autor original seguido de apud e o autor da obra consultada. Por exemplo: Vygotsky (1934 apud OLIVEIRA, 2010, p. 45). Nas referências, lista-se apenas a obra que você efetivamente leu, no caso Oliveira (2010).
A ABNT proíbe o uso de apud?
Não proíbe, mas a NBR 10520 recomenda que o uso seja evitado. O ideal é sempre acessar a fonte primária. O apud é tolerado quando o documento original não está disponível, mas seu uso excessivo pode indicar falta de rigor na revisão de literatura.

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