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Projeto de Pesquisa ABNT: Estrutura e Normas Essenciais

Estrutura um projeto de pesquisa conforme a NBR 15287 da ABNT: elementos obrigatórios, como redigir objetivos, metodologia e referencial com coerência.

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O projeto de pesquisa não é burocracia

Muitas pesquisadoras encaram o projeto de pesquisa como uma formalidade para passar na seleção. Escreve, entrega, espera. Mas o projeto bem feito cumpre uma função que vai além da seleção: ele força você a pensar a pesquisa antes de fazê-la.

Um projeto de pesquisa é um documento que descreve o que você pretende investigar, por que isso importa, como vai fazer a investigação e em quanto tempo. Quando esse documento é coerente, as decisões ao longo da pesquisa ficam mais claras. Quando é inconsistente, os problemas aparecem depois, no meio da coleta de dados ou na qualificação.

A ABNT normatizou a estrutura do projeto de pesquisa na NBR 15287. Não é a única forma de estruturar um projeto, mas é a que a maioria das instituições de ensino superior brasileiras adota como referência.

A estrutura segundo a NBR 15287

A norma divide o projeto em três grupos de elementos.

Elementos pré-textuais são os que antecedem o texto principal: capa, folha de rosto, lista de abreviaturas e siglas (quando necessário) e sumário. Nem todos são obrigatórios em todo contexto. Para seleções de pós-graduação, capa e folha de rosto costumam ser solicitadas. Para projetos internos ou sem exigência formal, o sumário pode não ser necessário.

Elementos textuais formam o corpo do projeto. São eles: introdução, objetivos, referencial teórico (ou revisão de literatura), metodologia, cronograma e, quando solicitado, orçamento.

Elementos pós-textuais vêm depois do texto: referências (obrigatório), glossário (opcional), apêndices (opcional) e anexos (opcional).

O que a norma não resolve é a qualidade do conteúdo de cada seção. Ela define o que deve estar presente, não o que deve ser dito.

Introdução: problema, justificativa e contexto

A introdução do projeto apresenta o problema de pesquisa, justifica por que ele merece ser investigado e situa o estudo no campo do conhecimento.

O problema de pesquisa é uma pergunta que a investigação vai responder. Ele precisa ser: específico (não pode ser respondido com “sim” ou “não”), empírico (pode ser investigado com dados ou análise de material concreto), e relevante para o campo.

A justificativa explica por que esse problema importa. Há dois ângulos: a relevância teórica (o que a pesquisa contribui para o conhecimento na área) e a relevância prática (o que a pesquisa pode implicar em termos de aplicação ou política). Em pós-graduação acadêmica, a relevância teórica pesa mais. Em mestrado profissional, a relevância prática costuma ser o eixo central.

A contextualização apresenta o estado do campo. O que já se sabe sobre o tema? O que ainda não foi investigado? Onde a sua pergunta se insere nessa lacuna?

Atenção: contextualização não é introdução genérica ao tema. “A educação é fundamental para o desenvolvimento” não contextualiza um projeto de pesquisa. “Os estudos sobre evasão no ensino superior concentram-se em fatores socioeconômicos, com pouca atenção aos aspectos institucionais de permanência” contextualiza.

Objetivos: geral e específicos

Os objetivos descrevem o que a pesquisa vai fazer, não o que o pesquisador espera encontrar.

O objetivo geral corresponde à pergunta central da pesquisa traduzida em ação. Começa com verbo no infinitivo: analisar, investigar, compreender, avaliar, identificar, descrever. Cada projeto tem um objetivo geral.

Os objetivos específicos são os desdobramentos operacionais do objetivo geral. Cada um representa uma tarefa concreta da pesquisa que, somada às demais, permite alcançar o objetivo geral. Geralmente são três a cinco objetivos específicos.

Erro frequente: objetivos específicos que não derivam do geral. Isso indica que o pesquisador adicionou tópicos de interesse sem verificar se estão dentro do escopo da pergunta central. Se o objetivo geral é “analisar as estratégias de coping de estudantes de pós-graduação durante a pandemia”, um objetivo específico sobre “descrever as políticas institucionais de saúde mental” está fora do escopo, a menos que as políticas sejam uma variável da análise.

Outro erro: objetivos que descrevem o que o pesquisador espera encontrar. “Demonstrar que a metodologia X é superior à Y” é hipótese, não objetivo. Objetivo é “comparar os resultados das metodologias X e Y nos contextos A e B”.

Referencial teórico

O referencial teórico apresenta as bases conceituais que fundamentam a pesquisa. Não é um resumo de tudo que você leu. É uma seleção comentada das obras e autores que definem os conceitos centrais do seu estudo e os colocam em diálogo.

Um referencial teórico bem construído faz três coisas: define os conceitos-chave que aparecem nos objetivos e no problema, mostra como autores diferentes se posicionam sobre esses conceitos, e deixa claro com qual perspectiva teórica a pesquisa se alinha.

Para o projeto de seleção, o referencial não precisa ser exaustivo. A banca avalia se você conhece os autores centrais da área e se consegue usá-los para fundamentar a pergunta de pesquisa. Cinco a dez referências bem escolhidas e discutidas valem mais do que trinta referências listadas sem conexão.

Metodologia

A metodologia descreve como a pesquisa vai ser feita. Inclui: abordagem (qualitativa, quantitativa, mista), tipo de pesquisa (exploratória, descritiva, explicativa), procedimentos (pesquisa documental, survey, entrevistas, experimento), população e amostra quando aplicável, instrumentos de coleta, e método de análise.

Cada escolha metodológica precisa ser justificada em relação ao problema de pesquisa. Não é suficiente dizer que a pesquisa é qualitativa. É necessário explicar por que a abordagem qualitativa é adequada para responder à pergunta que você formulou.

O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) aplica-se diretamente à escrita da metodologia. Na fase de Velocidade, você decide as escolhas metodológicas antes de escrever. Na fase de Organização, você estrutura a sequência das seções. Na fase de Execução Inteligente, você descreve as escolhas e suas justificativas. Pesquisadoras que escrevem a metodologia sem ter visualizado o processo inteiro tendem a deixar lacunas que a banca vai apontar.

Cronograma

O cronograma organiza as etapas da pesquisa no tempo disponível. Em projetos de mestrado, geralmente cobre 18 a 24 meses. Em doutorado, de 36 a 48 meses.

As etapas típicas incluem: revisão de literatura, elaboração e validação de instrumentos, coleta de dados, análise, escrita dos capítulos, qualificação e defesa.

Um cronograma realista deixa margem para imprevistos. Projetos que preenchem cada mês sem folga indicam que o pesquisador não considerou que revisões, ajustes metodológicos e dificuldades de coleta fazem parte do processo.

As referências e o formato ABNT

As referências no projeto de pesquisa seguem a NBR 6023 da ABNT. O erro mais comum é misturar formatos: autores abreviados em algumas referências e por extenso em outras, datas em posições diferentes, uso inconsistente de itálico ou negrito para o título da obra.

O título da obra vai em negrito na norma mais recente da ABNT (NBR 6023:2018, atualizada em 2024). Se o seu orientador ou a instituição seguem a versão anterior, verifique o padrão adotado.

Fechamento

Um projeto de pesquisa bem escrito não é aquele que impressiona pela quantidade de referências ou pelo vocabulário técnico. É aquele onde o leitor consegue entender exatamente o que vai ser investigado, por que, como e quando.

Coerência interna entre problema, objetivos, referencial e metodologia é o critério mais importante. A norma ABNT resolve a estrutura. A coerência é responsabilidade sua.

Faz sentido?

Para aprofundar a estrutura do pré-projeto de mestrado, veja os recursos disponíveis. E se você quer entender como organizar o processo de escrita antes de começar, o Método V.O.E. tem orientações sobre como visualizar o todo antes de escrever.

Capa e folha de rosto: o que vai em cada uma

Quando o projeto precisa de capa e folha de rosto, a confusão sobre o que vai em cada uma é comum.

A capa inclui: nome da instituição, nome do autor, título do projeto, local e ano. É o elemento externo, a primeira página que o leitor vê antes de abrir o documento.

A folha de rosto é a primeira página interna. Inclui: nome do autor, título do projeto, natureza do trabalho e objetivo (por exemplo, “Projeto de pesquisa para processo seletivo de mestrado”), nome do orientador quando já definido, local e ano.

Nem todos os editais de seleção exigem os dois. Leia o edital antes de formatar. Quando há conflito entre o edital e a NBR 15287, o edital prevalece.

Sumário e paginação

O sumário lista as seções do projeto com os respectivos números de página. Em projetos curtos (menos de 10 páginas), o sumário pode ser dispensado se o edital não o exigir.

A paginação conta a partir da folha de rosto, mas a numeração é exibida a partir da primeira página dos elementos textuais. As páginas pré-textuais são contadas mas não numeradas.

Esse detalhe técnico causa dúvida com frequência. Se você tiver capa e folha de rosto (2 páginas), e o sumário (1 página), e a introdução começa na página 4, a numeração exibida na introdução vai ser 4, não 1.

Erros de formatação que bancas apontam com frequência

Margens. A ABNT define: margem superior e esquerda de 3 cm, margem inferior e direita de 2 cm. Texto justificado. Espaçamento 1,5 no corpo do texto, espaço simples nas citações longas e referências.

Fonte. Arial ou Times New Roman, tamanho 12 para o texto, tamanho 10 para citações longas e notas de rodapé.

Títulos de seções. As seções primárias (introdução, metodologia, etc.) são numeradas e escritas em letras maiúsculas e negrito. As seções secundárias usam letras maiúsculas sem negrito. As terciárias usam apenas a inicial maiúscula com negrito.

Citações longas. Citações com mais de três linhas são separadas do texto com recuo de 4 cm da margem esquerda, fonte tamanho 10 e espaçamento simples. Não usar aspas nessas citações.

Esses detalhes não fazem o projeto melhor em conteúdo, mas indicam atenção às normas, o que a banca interpreta como cuidado metodológico.

Quando o projeto ainda está em construção e o prazo chegou

É comum que o edital de seleção exija o projeto de pesquisa antes que você tenha certeza do tema ou do referencial teórico. Isso é normal. O projeto de seleção não é o projeto final da pesquisa. Ele pode (e costuma) ser modificado depois de aprovado, ao longo das disciplinas e da orientação.

O que a banca avalia no projeto de seleção é a capacidade do candidato de formular uma pergunta relevante, situá-la num campo teórico e propor uma abordagem metodológica razoável. Não é esperado que o projeto seja perfeito ou definitivo.

Isso não significa que pode ser superficial. Significa que a clareza da pergunta e a coerência interna são mais importantes do que a exaustividade das referências ou a certeza sobre cada detalhe metodológico.

Perguntas frequentes

Quais são os elementos obrigatórios de um projeto de pesquisa segundo a ABNT?
A NBR 15287 da ABNT define os elementos do projeto de pesquisa em três grupos: pré-textuais (capa, folha de rosto, lista de abreviaturas quando necessário e sumário), textuais (introdução com problema e justificativa, objetivos, referencial teórico, metodologia e cronograma) e pós-textuais (referências e apêndices quando houver). O orçamento pode ser incluído quando exigido pela instituição.
O projeto de pesquisa para seleção de mestrado precisa seguir a ABNT?
Cada programa de pós-graduação define os requisitos do seu edital de seleção, e muitos não exigem ABNT explicitamente. Mas seguir as normas técnicas demonstra rigor metodológico e facilita a leitura pela banca. Verifique sempre o edital do programa específico. Quando não houver orientação, adotar a NBR 15287 é a escolha mais segura.
Qual a diferença entre objetivos gerais e específicos no projeto de pesquisa?
O objetivo geral define o que a pesquisa pretende alcançar de forma ampla. Os objetivos específicos são os passos operacionais para chegar lá, cada um representando uma ação concreta da pesquisa. Um objetivo específico bem formulado começa com um verbo de ação no infinitivo (analisar, comparar, descrever, identificar) e é realizável dentro do escopo do projeto.

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