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Pós-graduação em saúde: os erros mais comuns na escrita

Pesquisadoras da área da saúde cometem erros específicos na escrita acadêmica. Conheça os mais frequentes e como evitá-los na dissertação ou tese.

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A escrita clínica e a escrita acadêmica são registros diferentes

A pesquisadora da área da saúde que chega ao mestrado geralmente já escreve bem. Escreve prontuário, laudo, relatório de caso, protocolo assistencial. O problema é que esses são gêneros com lógica própria que diverge, em pontos específicos, da lógica da escrita acadêmica.

Erro mais frequente na pós-graduação em saúde é quando a pesquisadora escreve uma dissertação com estrutura de laudo. Objetiva, precisa, sem argumento sustentado. A banca pede “mais discussão” e ela não entende o que falta, porque em clínica o formato que usou seria adequado.

A escrita acadêmica em saúde exige o que a escrita clínica não exige: situar o problema em contexto teórico, articular os achados com a literatura existente, e construir um argumento que justifique por que a pesquisa importa além do caso imediato.

Vou nomear os erros mais comuns. Não pra constranger quem os comete, mas pra tornar visível o que muitas vezes passa despercebido até a banca apontar.


Os erros mais frequentes por seção

Introdução: apresentar o tema sem construir o problema

A introdução de dissertações em saúde tende a começar com dados epidemiológicos. “A doença X afeta N% da população brasileira.” Isso é dado, não problema de pesquisa.

Problema de pesquisa é a lacuna ou contradição que a pesquisa se propõe a resolver. A introdução precisa construir esse argumento: o que já se sabe, o que ainda não se sabe, e por que isso importa suficientemente para gerar um estudo.

Pesquisadoras da saúde costumam pular da epidemiologia diretamente para os objetivos, sem construir o “porquê” da pesquisa. A banca vai perguntar: “e daí? outros estudos já mostraram isso, por que você fez mais um?”

Referencial teórico: ausente ou confundido com revisão de literatura

Algumas dissertações em saúde chegam à banca sem referencial teórico identificável. Existe revisão de literatura, existe protocolo metodológico, mas não existe arcabouço conceitual que sustente as escolhas feitas.

Referencial teórico é o conjunto de conceitos, teorias e perspectivas que informam como você entende o fenômeno que está estudando. Em saúde, por exemplo: você está estudando adesão ao tratamento com perspectiva biomédica, comportamentalista, ou social? Essa escolha muda tudo na interpretação dos dados.

A confusão mais comum é tratar revisão de literatura como referencial teórico. São coisas distintas: revisão mapeia o que foi produzido sobre o tema; referencial teórico estabelece a lente com que você vai analisar.

Metodologia: descrever sem justificar

Metodologia em dissertações da saúde frequentemente lista o que foi feito sem explicar por que aquele desenho é adequado para a pergunta de pesquisa.

“Estudo transversal, descritivo, com amostra de 200 pacientes…” é descrição. O que a banca quer é saber por que transversal e não longitudinal, por que 200 e qual é o poder estatístico, por que aquele instrumento de coleta e não outro disponível na literatura.

Cada escolha metodológica é uma decisão que precisa de justificativa. A metodologia não é protocolo de procedimento, é argumento sobre por que o caminho escolhido é o mais adequado para a pergunta feita.

Resultados: discussão infiltrada nos dados

Outro padrão que aparece bastante: misturar apresentação de resultados com interpretação. “Os pacientes que usavam medicação apresentaram melhora, o que demonstra a eficácia do tratamento.” Isso é interpretação, não resultado.

Resultados descrevem o que foi encontrado. Discussão interpreta o que os achados significam. Quando as duas seções se mesclam, a dissertação perde clareza e a banca tem dificuldade de avaliar o que é dado e o que é análise da pesquisadora.

Discussão: resumo dos resultados com citações

A seção de discussão é onde mais aparecem problemas em dissertações de saúde. Com frequência, ela se parece com uma repetição dos resultados com referências bibliográficas adicionadas.

Discussão de qualidade faz quatro coisas: compara os achados com estudos similares, interpreta convergências e divergências, reconhece limitações com honestidade, e extrai as implicações clínicas e científicas do que foi encontrado. Não é onde os resultados aparecem de novo com citações de apoio.


Tabela: erros frequentes e como corrigi-los

SeçãoErro frequenteComo corrigir
IntroduçãoDados epidemiológicos sem problema de pesquisaConstruir a lacuna: o que já existe, o que falta, por que importa
Referencial teóricoAusente ou confundido com revisãoIdentificar a perspectiva teórica que orienta a pesquisa e nomeá-la
MetodologiaDescrição sem justificativaJustificar cada escolha metodológica em relação à pergunta
ResultadosInterpretação misturada com dadosSeparar descrição de achados de qualquer análise interpretativa
DiscussãoRepetição de resultados com citaçõesComparar, interpretar, reconhecer limites, extrair implicações

O problema da voz passiva excessiva

Pesquisadoras da saúde tendem a escrever na voz passiva com mais frequência do que pesquisadoras de outras áreas. Isso vem da formação clínica e científica, onde a objetividade é valorizada e o sujeito da ação costuma ser apagado.

“Os dados foram coletados” é mais claro reescrito como “coletamos os dados” ou “a equipe coletou os dados entre março e junho de 2025.” Voz ativa não é menos científica, é mais direta e mais fácil de ler.

A voz passiva excessiva cria outro problema: quando tudo está no impessoal, fica difícil distinguir o que é procedimento padrão do que é escolha da pesquisadora. E escolhas precisam aparecer com autoria.


Como o Método V.O.E. se aplica à revisão final

Antes de entregar a dissertação, o Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) tem uma aplicação específica na revisão crítica do texto.

Na fase de Organização, vale fazer uma leitura focada em cada tipo de erro listado acima, um por vez. Ler uma vez procurando só por problemas na introdução. Ler de novo procurando só pela distinção resultados/discussão. Revisar cada dimensão separadamente é mais eficaz do que uma leitura geral que tenta pegar tudo ao mesmo tempo.

Na fase de Execução Inteligente, isso significa usar checklists explícitos, não intuição. “Esta seção tem referencial teórico identificável? Cada escolha metodológica tem justificativa? A discussão vai além de repetir resultados?”


O que fazer quando a banca já apontou o problema

Se você está lendo isso depois da qualificação e a banca apontou problemas em algumas dessas seções, a situação é mais gerenciável do que parece no momento.

Feedback de banca em qualificação é exatamente isso: indicação de onde a dissertação precisa ser desenvolvida antes da defesa final. Não é reprovação, é orientação.

O caminho é pegar o parecer da banca, listar os problemas apontados por seção, e trabalhar com a orientadora na priorização. Nem todo ponto precisa de revisão completa. Alguns precisam de expansão, outros de reorganização, outros de uma única clarificação conceitual.

A dissertação que sai da qualificação com feedback detalhado e chega à defesa corrigida costuma ter uma defesa mais tranquila do que a que passou pela qualificação sem questionamentos. Banca que questiona antes está ajudando.


Fechamento

A área da saúde forma pesquisadoras competentes para o trabalho clínico e científico. O que o mestrado exige a mais é uma camada de explicitação: dos pressupostos teóricos, das justificativas metodológicas, da articulação entre achados e literatura.

Não é recomeçar do zero. É aprender que a escrita acadêmica tem convenções próprias que divergem em pontos específicos da escrita clínica, e que essas diferenças importam mais do que parecem à primeira vista.

Quem identifica os padrões cedo ajusta antes de chegar na banca. É mais rápido assim.

Perguntas frequentes

Por que pesquisadoras da saúde têm dificuldade específica na escrita acadêmica?
A formação clínica prioriza comunicação objetiva e prescritiva: prontuário, laudo, protocolo. A escrita acadêmica exige argumentação, contextualização teórica e análise crítica. São registros diferentes. Quem não percebe a diferença tende a escrever uma dissertação que parece relatório técnico.
É errado usar linguagem técnica da área da saúde na dissertação?
Não, desde que a linguagem técnica sirva ao argumento e não substitua a argumentação. O erro é usar jargão clínico como atalho para não explicar raciocínio. Um leitor especializado entende o termo; precisa entender também por que aquele dado ou conceito importa para a pesquisa.
Como estruturar a discussão de uma dissertação na área da saúde?
A discussão conecta seus achados com a literatura existente e com o problema de pesquisa. Começa pelos achados principais, compara com estudos similares, interpreta convergências e divergências, aponta limitações com honestidade, e termina com as implicações do que você encontrou. Não é onde você lista resultados de novo.

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