Pesquisa exploratória: quando usar e o que ela permite
Entenda o que é pesquisa exploratória, quando ela é a abordagem certa para sua pergunta e quais são seus limites e possibilidades na ciência.
A pesquisa exploratória não é pesquisa preliminar de segunda categoria
Vamos lá. Existe um preconceito silencioso na academia sobre a pesquisa exploratória: a ideia de que ela é menos rigorosa, menos séria, quase um rascunho de pesquisa real. Um passo que você faz porque ainda não sabe o suficiente para fazer uma pesquisa de verdade.
Esse preconceito é equivocado, e ele faz mal porque leva pesquisadoras a se envergonhar de uma escolha metodológica perfeitamente válida, ou a disfarçá-la com rótulos mais pomposos que não correspondem ao que o estudo realmente faz.
Pesquisa exploratória tem limites. Mas esses limites não a tornam inferior. Eles definem o que ela pode afirmar, e afirmar com rigor dentro dos seus limites é o que importa.
O que torna um estudo genuinamente exploratório
A definição mais simples: pesquisa exploratória é aquela realizada quando o pesquisador tem pouco conhecimento prévio sobre o fenômeno que quer estudar. O objetivo não é testar uma hipótese, não é medir a frequência de um fenômeno, não é estabelecer relações causais. É ganhar familiaridade com o campo, identificar as variáveis que parecem relevantes e formular perguntas mais precisas para estudos futuros.
Isso acontece em duas situações principais.
A primeira é quando o próprio fenômeno é novo. Campos emergentes, tecnologias recentes, práticas sociais que mudaram rapidamente, grupos populacionais pouco estudados. Nessas situações, não existe literatura suficiente para sustentar hipóteses específicas. Você precisa explorar antes de poder testar.
A segunda é quando o fenômeno existe mas está sendo estudado de um ângulo novo. A depressão, por exemplo, é extensamente pesquisada. Mas a depressão em pesquisadoras de doutorado como um fenômeno específico com dinâmicas próprias pode exigir estudo exploratório antes que qualquer hipótese precisa possa ser formulada sobre suas causas, manifestações e respostas a intervenção.
Em ambos os casos, a escolha exploratória não é preguiça intelectual. É reconhecimento honesto do estado do conhecimento disponível.
O que a pesquisa exploratória não pode afirmar
Aqui está o ponto que mais gente ignora ao usar o rótulo de exploratória, e que cria problemas na banca e na revisão de periódico.
Pesquisa exploratória não permite generalização. Se você estudou 15 pesquisadoras de pós-graduação de uma universidade pública do Sudeste e identificou padrões nas suas dificuldades de escrita, você não pode afirmar que esses padrões se aplicam a pesquisadoras brasileiras em geral. Você pode dizer que esses padrões merecem investigação mais ampla.
Pesquisa exploratória não estabelece causalidade. Identificar que dois fenômenos coexistem num estudo exploratório não diz nada sobre qual causa o quê, ou se a relação é real ou coincidência.
Pesquisa exploratória não testa hipóteses. Se você formulou hipóteses específicas com base em teoria, seu estudo não é exploratório, é um estudo de teste de hipótese, e precisa ser desenhado para isso.
O problema que aparece na prática: pesquisadoras chamam um estudo de exploratório para se livrar dessas obrigações metodológicas, mas depois fazem afirmações que só um estudo confirmatório poderia sustentar. A banca identifica isso. O revisor identifica isso. E a correção na qualificação ou a rejeição no periódico vêm com razão.
Métodos que costumam compor uma pesquisa exploratória
Pesquisa exploratória não é um método em si. É um objetivo, uma intenção de pesquisa. Para atingir esse objetivo, a pesquisadora pode usar uma variedade de métodos.
Revisão de literatura é frequentemente o ponto de partida. Antes de ir a campo, você mapeia o que já existe sobre o fenômeno e identifica lacunas. Às vezes a revisão já é suficiente para o objetivo exploratório de mapear o campo.
Entrevistas em profundidade são amplamente usadas em exploratória qualitativa. Permitem que os participantes descrevam o fenômeno nos seus próprios termos, o que é valioso precisamente quando o pesquisador ainda não sabe quais categorias analíticas serão relevantes.
Grupos focais permitem captar perspectivas coletivas e identificar tensões e pontos de consenso dentro de um grupo que compartilha alguma característica relevante para o estudo.
Estudos de caso únicos ou de poucos casos podem ser exploratórios quando o objetivo é entender em profundidade um fenômeno específico antes de estudá-lo em escala mais ampla.
Análise documental, observação participante e etnografia também aparecem em estudos exploratórios, dependendo do campo e da pergunta.
A escolha do método precisa ser coerente com a pergunta, e a pergunta de um estudo exploratório é sempre alguma variação de “o que está acontecendo aqui?” ou “como as pessoas que vivem esse fenômeno o descrevem e explicam?”.
A relação entre exploratória e os estudos que vêm depois
Uma característica importante da pesquisa exploratória bem feita é que ela termina com perguntas mais precisas do que as que começou.
Você entra no campo com uma pergunta ampla. Ao longo do estudo, você identifica padrões, tensões, categorias que não estavam previstas, relações entre variáveis que parecem importantes. Ao final, você tem um mapa do fenômeno que permite formular hipóteses que poderão ser testadas em estudos posteriores.
Essa função geradora de hipóteses é o valor científico mais reconhecido da pesquisa exploratória. É por isso que ela aparece no início de linhas de pesquisa, não necessariamente no início de carreiras.
Uma pesquisadora experiente pode escolher fazer um estudo exploratório porque está entrando numa área nova para ela, ou porque sua área de expertise está sendo aplicada a um contexto onde as dinâmicas são desconhecidas. Isso não é falta de experiência. É reconhecimento de que o campo específico ainda não foi suficientemente mapeado.
Como descrever a pesquisa exploratória na seção de métodos
A seção de métodos precisa justificar a escolha exploratória com base nas características do fenômeno e no estado da literatura, não apenas declarar que o estudo é exploratório como se isso fosse autoexplicativo.
Uma justificativa adequada inclui: o que se sabe sobre o fenômeno (com referências), o que ainda não se sabe (identificado pela sua revisão de literatura), e por que essa lacuna torna a abordagem exploratória mais apropriada do que uma abordagem confirmatória.
Isso serve tanto para proteger o estudo de críticas metodológicas quanto para orientar o leitor sobre o tipo de conclusão que o trabalho pode oferecer.
Na discussão, é importante retomar explicitamente os limites da abordagem exploratória ao apresentar os achados. Não como desculpa ou minimização, mas como enquadramento honesto do que os dados permitem afirmar. Um estudo exploratório rigoroso que cumpre bem o que promete é mais valioso do que um estudo que promete mais do que pode entregar.
Exploratória, descritiva, explicativa: a classificação como ferramenta de pensamento
As classificações de pesquisa (exploratória, descritiva, explicativa, correlacional) existem para ajudar a organizar o pensamento sobre o objetivo do estudo, não para criar hierarquias de valor científico.
Toda área de conhecimento precisa de estudos exploratórios para abrir novos territórios. Precisa de estudos descritivos para mapear o que existe. Precisa de estudos explicativos para entender por que as coisas acontecem. Precisa de estudos de intervenção para testar o que funciona.
Cada um desses tipos tem perguntas que consegue responder e perguntas que não consegue. A escolha não é qual é mais sofisticada. É qual é a mais adequada para a pergunta que você quer responder agora.
Quando você entende isso, a pesquisa exploratória deixa de ser algo a ser justificado com desculpas e passa a ser uma escolha que você faz com clareza e defende com argumento. Essa diferença aparece na qualificação, na banca de defesa e no processo de revisão dos artigos que você vai publicar ao longo da carreira.
Se você está em dúvida sobre se seu estudo é exploratório ou não, uma pergunta simples ajuda: você tem hipóteses específicas que quer confirmar ou refutar, ou você quer entender melhor um fenômeno antes de formular essas hipóteses? Se é o segundo caso, exploratória é provavelmente a escolha certa. E isso é suficiente para ser defendido com segurança.
Perguntas frequentes
O que é pesquisa exploratória e qual seu objetivo?
Qual a diferença entre pesquisa exploratória e pesquisa descritiva?
Pesquisa exploratória pode ser usada em TCC, dissertação ou tese?
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