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Pesquisa em Saúde: tipos, exemplos e como escolher o seu

Tipos de pesquisa em saúde com exemplos práticos: qual a diferença entre estudo observacional e experimental, e como definir o design certo para o seu projeto.

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Os tipos de pesquisa em saúde e por que o design importa

Vamos lá. Uma das confusões mais frequentes na pós-graduação em saúde é entre o tema da pesquisa e o design da pesquisa. O tema é o quê você vai investigar. O design é como você vai investigar.

Você pode estudar hipertensão arterial com um estudo transversal, com um ensaio clínico randomizado, com uma coorte prospectiva ou com uma revisão sistemática. O tema é o mesmo. A pergunta de pesquisa, o que você consegue responder e a robustez das conclusões são completamente diferentes.

Escolher o design errado não significa que a pesquisa é inútil. Significa que ela vai responder uma pergunta diferente da que você pensou que estava fazendo, e que a interpretação dos resultados precisa ser compatível com as limitações do design escolhido.

Estudos observacionais: quando você observa sem intervir

Estudo transversal: Você seleciona uma amostra da população e coleta dados sobre exposição e desfecho no mesmo momento. É um retrato. Responde perguntas de prevalência: “Quantas pessoas nessa população têm X?”, “Qual a associação entre A e B nessa amostra?”

Exemplo: uma pesquisa que avalia a prevalência de ansiedade entre estudantes de pós-graduação em uma universidade, aplicando um instrumento padronizado em um único período de coleta.

A limitação central é a temporalidade: como tudo é coletado ao mesmo tempo, você não sabe se a exposição veio antes ou depois do desfecho. Por isso, transversais estabelecem associação, não causalidade.

Estudo de caso-controle: Você parte de quem já tem o desfecho (casos) e compara com quem não tem (controles), olhando para trás para identificar diferenças na exposição prévia.

Exemplo: você identifica pacientes com determinada condição clínica (casos) e pacientes sem essa condição atendidos no mesmo serviço (controles) e compara a exposição a um determinado fator de risco nos dois grupos.

É especialmente útil para doenças raras, porque você não precisa acompanhar milhares de pessoas esperando o desfecho aparecer. A limitação é o risco de viés de memória (participantes podem recordar melhor exposições passadas se estão doentes) e a dificuldade de selecionar controles adequados.

Estudo de coorte: Você seleciona pessoas expostas e não expostas a um fator, e as acompanha ao longo do tempo para ver quem desenvolve o desfecho.

Exemplo: você acompanha por cinco anos um grupo de enfermeiros que trabalham em turnos noturnos (expostos) e um grupo que trabalha em turnos diurnos (não expostos), avaliando a incidência de síndrome metabólica nos dois grupos.

Coortes prospectivas são robustas porque você acompanha as pessoas para frente no tempo e controla as variáveis no momento da exposição. São longas e caras. Coortes retrospectivas usam dados já registrados, o que é mais rápido mas depende da qualidade dos registros existentes.

Estudos experimentais: quando você controla a exposição

Ensaio clínico randomizado (ECR): Os participantes são alocados aleatoriamente para receber a intervenção ou o controle. É o design com maior nível de evidência para avaliar eficácia de intervenções porque a randomização distribui igualmente as variáveis conhecidas e desconhecidas entre os grupos.

Exemplo: um estudo que aloca aleatoriamente pacientes hipertensos para receber orientação nutricional convencional (controle) ou orientação nutricional intensificada com apoio de aplicativo (intervenção), comparando a redução da pressão arterial após seis meses.

Nem todo estudo clínico consegue ser randomizado. Quando a randomização não é possível (porque seria antiético privar o grupo controle de um tratamento já estabelecido, por exemplo), usa-se um design quasi-experimental.

Pesquisa-ação e estudo de intervenção participativo: São comuns na saúde coletiva e na enfermagem. O pesquisador não só observa ou testa, mas participa ativamente da mudança do contexto estudado, geralmente junto com profissionais ou comunidades.

Revisões sistemáticas e integrativas

As revisões cresceram muito em relevância e em quantidade na área da saúde, e têm presença cada vez maior em dissertações, especialmente de mestrado profissional.

A revisão sistemática segue um protocolo rigoroso de busca, seleção e análise de estudos primários sobre uma pergunta específica. Quando inclui meta-análise (combinação estatística dos resultados), tem o maior nível de evidência disponível. O protocolo precisa ser registrado antes da realização da revisão, geralmente no PROSPERO.

A revisão integrativa é metodologicamente mais flexível, permite incluir tanto estudos quantitativos quanto qualitativos e documentos não primários. É mais utilizada quando a pergunta é ampla ou quando a literatura ainda não tem estudos suficientes para uma revisão sistemática estrita.

Ambas exigem estratégia de busca documentada, critérios de inclusão e exclusão explícitos, avaliação da qualidade dos estudos incluídos e síntese narrativa ou quantitativa dos resultados.

Como escolher o design certo para o seu projeto

A pergunta que guia a escolha do design é a sua pergunta de pesquisa.

“Qual é a prevalência de X em Y?” pede um estudo transversal.

“A intervenção A é mais eficaz que a intervenção B para o desfecho Z?” pede um ensaio clínico randomizado ou, se a randomização não for possível, um quasi-experimental.

“O que é X segundo a experiência de quem vive com Y?” pede uma abordagem qualitativa.

“Quais fatores estão associados ao desenvolvimento de X ao longo do tempo?” pede um estudo de coorte (ou caso-controle para doenças raras).

“O que a literatura diz sobre a eficácia de X para Y?” pede uma revisão sistemática ou integrativa.

Quando a pergunta ainda não está clara, o design também não vai estar. Por isso, dedicar tempo para formular bem a pergunta de pesquisa antes de escolher a metodologia não é procrastinação. É o trabalho que define se o projeto vai ter coerência metodológica ou não.

Pesquisa qualitativa em saúde

Ainda há resistência em algumas áreas da saúde quanto à pesquisa qualitativa, como se ela fosse “menos científica” por não produzir dados numéricos. Isso é um equívoco que vem da confusão entre rigor científico e método quantitativo.

Pesquisa qualitativa tem seus próprios critérios de rigor: credibilidade (equivalente à validade interna), transferibilidade (equivalente à validade externa), confiabilidade (consistência do processo) e confirmabilidade (auditabilidade do processo analítico). Esses critérios são diferentes dos critérios quantitativos, mas são critérios igualmente rigorosos.

Fenomenologia hermenêutica é usada para compreender a experiência vivida de pessoas que convivem com determinadas condições. Grounded theory é usada para construir teorias a partir de dados empíricos quando ainda não há teoria adequada para o fenômeno estudado. Análise de conteúdo de Bardin é utilizada para analisar material textual ou visual em busca de categorias e significados.

A escolha entre qualitativo e quantitativo não é filosófica. É metodológica. Depende do que a sua pergunta pede.

O papel do comitê de ética

Qualquer pesquisa envolvendo seres humanos no Brasil precisa passar por aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) antes do início da coleta de dados. Isso vale para questionários online, entrevistas, coleta de dados em prontuários, uso de amostras biológicas e qualquer outra forma de envolvimento de participantes humanos.

A submissão ao CEP é feita pela Plataforma Brasil (plataformabrasil.saude.gov.br). O processo pode levar de semanas a meses, dependendo da complexidade do projeto e do fluxo de trabalho do comitê. Não deixe para submeter depois que começar a coleta. Isso invalida a pesquisa do ponto de vista ético e inviabiliza a publicação.

Para pesquisas multicêntricas (realizadas em mais de um serviço), o projeto passa primeiro por um CEP central e depois pode precisar de aprovação nos comitês locais de cada instituição participante.

Entender a estrutura metodológica da pesquisa em saúde não é detalhe técnico. É o fundamento de qualquer projeto sólido. Quando você sabe por que escolheu o design que escolheu e quais perguntas ele consegue e não consegue responder, você defende seu projeto com segurança na seleção do programa e na qualificação do mestrado.

Perguntas frequentes

Quais são os principais tipos de pesquisa em saúde?
Os principais tipos são: estudos observacionais (transversal, caso-controle, coorte) e estudos experimentais (ensaio clínico randomizado, ensaio quasi-experimental). Pesquisas qualitativas (fenomenologia, grounded theory, análise de conteúdo) e revisões sistemáticas também têm presença consolidada na área da saúde.
O que é um estudo transversal em saúde?
Um estudo transversal avalia uma população em um único momento no tempo. Ele mede a prevalência de um desfecho ou a presença de fatores de risco em um grupo específico. É rápido e relativamente barato, mas não permite estabelecer relação causal porque exposição e desfecho são medidos ao mesmo tempo.
Qual a diferença entre estudo de coorte e caso-controle?
No estudo de coorte, você parte da exposição e acompanha os participantes para ver quem desenvolve o desfecho. No caso-controle, você parte do desfecho (casos que têm a doença e controles que não têm) e olha para trás para identificar diferenças na exposição. Coorte é mais robusto mas mais longo e caro. Caso-controle é mais eficiente para doenças raras.

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