Pesquisa em Enfermagem: Exemplos e Como Estruturar
Veja exemplos de pesquisa em enfermagem e entenda como estruturar problema, objetivos e metodologia em dissertações e TCCs na área da saúde.
Por que a pesquisa em enfermagem tem desafios específicos
Vamos lá. A enfermagem é uma área que vive numa tensão interessante: ela é ao mesmo tempo profissão de cuidado direto e campo de produção científica rigorosa. E essa tensão aparece na pesquisa.
Quem entra no mestrado ou doutorado em enfermagem frequentemente vem de uma formação centrada na prática clínica. O raciocínio é: “Eu observo o que acontece com meus pacientes. Eu sei o que funciona. Agora preciso transformar isso em pesquisa.”
Esse impulso é bom. O problema começa quando a transformação de observação clínica em pergunta de pesquisa não é feita com rigor metodológico. E é esse problema que vamos desmontar aqui.
O que torna uma pesquisa em enfermagem academicamente sólida
Antes de falar em exemplos, vale entender o que diferencia uma pesquisa sólida de uma pesquisa frágil nessa área.
Uma pesquisa sólida em enfermagem tem uma pergunta clara que não pode ser respondida só com a experiência clínica do pesquisador. Ela tem delimitação de população, contexto e fenômeno. Ela tem método coerente com a pergunta. E ela produz um resultado que altera alguma coisa: a prática, o conhecimento sobre um fenômeno, a evidência disponível sobre uma intervenção.
Uma pesquisa frágil é aquela que descreve o que o pesquisador já sabia antes de começar, usando dados coletados sem protocolo claro, analisados de forma impressionista. O texto final soa como um relato de experiência profissional com referências bibliográficas.
A diferença não está na intenção. Está na estrutura.
Exemplos de problemas de pesquisa em enfermagem
A estrutura do problema de pesquisa em enfermagem segue o mesmo princípio de qualquer área: é uma pergunta com resposta não óbvia, que depende de investigação empírica ou revisão sistemática da literatura.
Um exemplo de problema qualitativo: “Como enfermeiros de unidades de terapia intensiva percebem e manejam a comunicação de más notícias a familiares de pacientes graves?”
Esse é um bom problema porque: (a) identifica a população de interesse, enfermeiros de UTI; (b) delimita o fenômeno, comunicação de más notícias; (c) especifica o contexto, pacientes graves; (d) faz uma pergunta sobre percepção e manejo, que não tem resposta deduzível sem ouvir esses profissionais.
Um exemplo de problema quantitativo: “Qual é a prevalência de síndrome de burnout entre enfermeiros da atenção primária em municípios de pequeno porte no Brasil e quais fatores sociodemográficos e laborais estão associados?”
Esse problema delimita população, fenômeno, contexto geográfico, e pergunta sobre prevalência e associação. Essas são perguntas respondíveis com instrumento validado e análise estatística adequada.
Um exemplo de problema de revisão sistemática: “Quais estratégias de educação em saúde mostram evidência de efetividade na adesão ao tratamento de hipertensão em adultos de baixa renda segundo a literatura dos últimos dez anos?”
Esse é um problema de síntese de evidências. A pesquisa não vai coletar dados primários. Vai sistematizar o que já existe.
Os erros mais comuns na estruturação da metodologia
Olha só, o erro mais frequente que aparece em trabalhos de enfermagem é a desconexão entre o problema de pesquisa e o método escolhido.
Você tem uma pergunta sobre a experiência subjetiva de pacientes com doenças crônicas. Essa é uma pergunta qualitativa. E aí você coloca no capítulo metodológico “método quantitativo, descritivo, transversal” porque é o que você conhece melhor ou porque seu orientador trabalha mais com esse tipo de pesquisa.
O resultado é um trabalho que não responde à pergunta que foi feita. Dados quantitativos sobre frequência e prevalência não dizem nada sobre a experiência vivida.
O segundo erro é usar instrumentos sem verificar sua validação para a população estudada. Aplicar um questionário desenvolvido e validado para populações de alta renda em comunidades periféricas, sem adaptar e revalidar, produz dados com validade questionável.
O terceiro erro é confundir revisão de literatura com revisão sistemática. A revisão de literatura é uma etapa de qualquer pesquisa: você apresenta o que se sabe sobre o tema para justificar seu estudo. A revisão sistemática é um tipo de estudo, com protocolo de busca explícito, critérios de inclusão e exclusão definidos, e síntese formal dos resultados. São coisas diferentes.
Metodologias qualitativas mais usadas em enfermagem
A pesquisa qualitativa tem espaço consolidado em enfermagem, especialmente para investigar experiências, significados e processos que não são capturáveis por números.
A fenomenologia é usada quando a pergunta é sobre a experiência vivida: como é, para o paciente, viver com determinada condição? Que significado o diagnóstico tem para essa pessoa? O método fenomenológico exige procedimentos específicos de análise que vão além de “categorizar as falas das entrevistas”.
A grounded theory é usada quando a pergunta é sobre como um processo acontece: como profissionais de saúde tomam decisões em situações de incerteza? Como família e equipe negociam cuidados paliativos? Ela busca construir teoria a partir dos dados, o que exige amostragem teórica e processo de análise iterativo.
A pesquisa-ação é usada quando o objetivo é transformar uma situação enquanto a estuda: implementar um protocolo, treinar uma equipe, reorganizar um fluxo, e ao mesmo tempo investigar como esse processo acontece e o que muda.
Cada uma dessas abordagens tem exigências epistemológicas e procedimentais específicas. Não é possível “misturar” fenomenologia e grounded theory no mesmo trabalho, a não ser com justificativa teórica muito sólida.
Como o Método V.O.E. se aplica à escrita em enfermagem
A escrita em enfermagem, especialmente de dissertações e teses, exige clareza na exposição de dados clínicos, contextuais e teóricos. No Método V.O.E., a fase de Velocidade é onde você define o mapa do trabalho antes de começar a escrever: quais são os capítulos, o que cada um precisa fazer, qual é a sequência lógica.
Pesquisadoras de enfermagem V.O.E.](/metodo-voe), a fase de Velocidade é onde você define o mapa do trabalho antes de começar a escrever: quais são os capítulos, o que cada um precisa fazer, qual é a sequência lógica.
Pesquisadoras de enfermagem que chegam na escrita sem esse mapa tendem a produzir capítulos de revisão de literatura muito longos, porque não sabem quando parar de revisar. Elas incluem tudo o que leram, ao invés de incluir o que é necessário para sustentar o argumento central do trabalho.
A fase de Organização é onde as fontes são distribuídas nos capítulos. Referencial teórico: quais conceitos você precisa apresentar? Metodologia: quais decisões metodológicas precisam ser explicadas e justificadas? Resultados: como os dados serão apresentados? Cada capítulo tem uma função. Quando a função está clara antes de escrever, a escrita é mais objetiva.
Evidências na enfermagem: o que muda com a EBE
A prática baseada em evidências, no Brasil frequentemente chamada de EBE, entrou de forma consistente nos currículos de pós-graduação em enfermagem. E ela trouxe com ela uma exigência maior de rigor metodológico na produção científica.
Isso significa que revisões sistemáticas, metanálises, estudos clínicos randomizados e estudos de coorte passaram a ter mais peso nos programas. Mas também significa que pesquisas qualitativas bem conduzidas são reconhecidas como evidência válida para questões que métodos quantitativos não conseguem responder.
A chave é a coerência: o tipo de evidência precisa ser adequado à pergunta. E a pergunta precisa ter importância para a prática clínica ou para o conhecimento do campo.
Pesquisas que ficam entre os dois mundos, que tentam ser ao mesmo tempo exploratórias e confirmatórias, qualitativas e quantitativas sem justificativa metodológica, acabam não sendo nem uma coisa nem outra.
Um ponto que poucos orientadores dizem cedo suficiente
Deixa eu ser direta: em enfermagem, como em qualquer área da saúde, há uma tendência a superestimar a relevância clínica de um trabalho como critério suficiente para a qualidade acadêmica.
Relevância clínica é necessária, mas não suficiente. Um trabalho pode ser clinicamente relevante e metodologicamente fraco. E trabalho metodologicamente fraco não deveria ser aprovado numa banca de pós-graduação, independentemente de quão importante é o tema.
O rigor metodológico não é oposição à relevância prática. Ele é o que garante que os resultados do trabalho possam ser usados com confiança na prática. Uma conclusão baseada em coleta inadequada ou análise imprecisa não ajuda nenhum paciente.
Faz sentido? O que sustenta a pesquisa em enfermagem é a mesma coisa que sustenta qualquer boa pesquisa científica: pergunta clara, método coerente, análise rigorosa.
Para entender como estruturar o processo de escrita da dissertação ou tese desde o início, o Método V.O.E. tem um caminho que funciona independentemente da área. Inclusive para enfermagem.
Perguntas frequentes
Quais são os tipos de pesquisa mais usados em enfermagem?
Como definir o problema de pesquisa em enfermagem?
O que é pesquisa baseada em evidências na enfermagem?
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