Como usar o Overleaf: guia completo para pesquisadoras
O que é Overleaf, como criar seu primeiro documento LaTeX e os erros que toda iniciante comete nas primeiras semanas de uso.
Overleaf resolve um problema que o Word cria
Você está escrevendo sua dissertação no Word. Capítulo 3 pronto, formatação ok, sumário ajustado. Aí você muda um título no capítulo 2 e o sumário desanda. Você arruma o sumário e as margens ficam erradas. Você arruma as margens e o espaçamento entre parágrafos muda.
Se isso soa familiar, o Overleaf vai fazer sentido imediato.
Overleaf é um editor LaTeX online que permite escrever, compilar e compartilhar documentos acadêmicos sem instalar nada. Funciona no navegador, salva automaticamente e gera um PDF formatado a partir de um arquivo de texto com marcações simples. A formatação não é visual como no Word: você escreve o conteúdo e declara como quer que ele apareça, e o sistema cuida do resto.
Isso muda a relação com o documento. Em vez de ajustar formatação manualmente toda vez que o conteúdo muda, você define as regras uma vez e elas se aplicam automaticamente. Sumário se atualiza sozinho. Numeração de figuras e tabelas também.
Por que pesquisadoras migram para o Overleaf
A migração acontece por caminhos diferentes. Tem pesquisadora que vai porque a orientadora exige ou porque a área toda usa LaTeX (em exatas, engenharia e computação isso é muito comum). Tem pesquisadora que vai porque o Word a desgastou o suficiente.
A consistência é o que mais aparece quando alguém explica por que ficou. Um documento LaTeX longo se comporta igual ao longo de toda a escrita: o capítulo 8 fica com a mesma aparência do capítulo 1, sem que você precise ajustar nada. Gerenciar referências com BibTeX é mais robusto do que o gerenciamento manual no Word, especialmente quando o documento tem 80 referências e você muda o estilo de citação no capítulo 4.
A curva de aprendizado inicial é real. Você precisa aprender sintaxe básica, os erros de compilação às vezes têm mensagens crípticas, e se precisar de um pacote que não conhece vai ter que procurar. Com dois a três dias de prática, você consegue criar e editar documentos sem travar toda hora. Não é zero trabalho, mas é menos do que parece de fora.
Criando seu primeiro projeto no Overleaf
O Overleaf está em overleaf.com. Você cria uma conta gratuita e já pode começar.
Na tela inicial, clique em “New Project”. As opções são: Blank Project (começa do zero), Example Project (documento de exemplo com várias funcionalidades), e templates. Para começar a aprender, o Example Project é útil porque já mostra como ficam as coisas em prática.
Um documento LaTeX básico tem esta estrutura:
\documentclass[12pt,a4paper]{article}
\usepackage[utf8]{inputenc}
\usepackage[portuguese]{babel}
\title{Título do Trabalho}
\author{Seu Nome}
\date{2026}
\begin{document}
\maketitle
\section{Introdução}
Texto da introdução aqui.
\section{Metodologia}
Texto da metodologia aqui.
\end{document}
\documentclass define o tipo de documento (article, report, book). \usepackage carrega pacotes com funcionalidades extras. \begin{document} e \end{document} delimitam o conteúdo. \section{} cria seções automaticamente numeradas.
Quando você clica em Compile (ou Ctrl+Enter), o Overleaf processa esse código e gera o PDF do lado direito da tela. Se houver erro de sintaxe, aparece um log com a linha onde aconteceu.
Os comandos que você vai usar toda semana
Você não precisa memorizar toda a sintaxe LaTeX de uma vez. Estes são os comandos que aparecem com mais frequência em trabalhos acadêmicos:
| Comando | O que faz |
|---|---|
\textbf{texto} | Negrito |
\textit{texto} | Itálico |
\cite{chave} | Citação bibliográfica |
\ref{label} | Referência a figura, tabela ou seção |
\footnote{texto} | Nota de rodapé |
\begin{figure}...\end{figure} | Bloco de figura |
\begin{table}...\end{table} | Bloco de tabela |
\begin{itemize}...\end{itemize} | Lista com marcadores |
\begin{enumerate}...\end{enumerate} | Lista numerada |
\newpage | Quebra de página forçada |
Para equações: $equação$ para inline, \[ equação \] para equação centralizada em linha própria.
Templates prontos: como usar sem reinventar a roda
A maioria das universidades brasileiras tem templates LaTeX para dissertação e tese disponíveis no Overleaf ou para download. Antes de criar seu documento do zero, procure pelo nome da sua universidade na busca do Overleaf (Template Gallery) ou no site da biblioteca da instituição.
Se sua universidade não tem template oficial em LaTeX, o template da ABNT no Overleaf (busque por “abnTeX2”) cobre as normas brasileiras de formatação. Não é perfeito, mas é um ponto de partida muito melhor do que configurar tudo manualmente.
Para artigos submetidos a periódicos, a maioria das revistas científicas internacionais tem template LaTeX disponível no próprio site. O processo padrão é: baixar o template, subir para o Overleaf como novo projeto, substituir o conteúdo de exemplo pelo seu.
Gerenciamento de referências com BibTeX
Uma das maiores vantagens do LaTeX é o gerenciamento de referências. Em vez de inserir cada citação manualmente e formatar no final, você mantém um arquivo .bib com todas as referências e o LaTeX formata automaticamente conforme o estilo que você definir.
O arquivo .bib tem entradas assim:
@article{silva2020,
author = {Silva, Maria},
title = {Título do artigo},
journal = {Nome da Revista},
year = {2020},
volume = {10},
pages = {1--20}
}
No texto, você chama a referência com \cite{silva2020}. O LaTeX gera automaticamente a citação no formato correto (ABNT, APA, Vancouver, o que você configurou) e monta a lista de referências no final do documento incluindo apenas o que foi efetivamente citado.
O Zotero e o Mendeley exportam referências no formato .bib. Isso significa que você pode gerenciar sua biblioteca no Zotero e exportar para o Overleaf sem redigitar nada.
Os erros mais comuns de quem está começando
Caractere especial sem escape é o que mais aparece. No LaTeX, %, &, $, # e _ têm função especial na linguagem. Se você escrever um desses no texto corrido sem a barra de escape antes (\%, \& etc.), o compilador trava naquela linha com uma mensagem que não é sempre óbvia.
Fechar ambientes é o segundo ponto de atenção. \begin{itemize} sem o \end{itemize} correspondente gera erro, às vezes em uma linha bem diferente de onde você deixou o ambiente aberto. Quando o log apontar um erro em lugar estranho, vale checar se todos os begin/end estão pareados.
Para acentos em português: o pacote \usepackage[utf8]{inputenc} junto com \usepackage[T1]{fontenc} resolve a maioria dos problemas. Se você criou o projeto sem esses pacotes e os caracteres saem errados no PDF, é por isso.
Quando o log de erro parecer incompreensível: procure a primeira linha de erro (as seguintes costumam ser consequência dela), cole a mensagem no Google com “latex” como termo adicional. O tex.stackexchange.com tem resposta para praticamente todo erro que existe.
O que o Overleaf não resolve
O Overleaf resolve formatação. Não resolve escrita.
Muitas pesquisadoras trocam de ferramenta esperando que isso mude a relação com o processo de produção. Não muda. Se você trava no Word, vai travar no Overleaf. A tela em branco é a mesma.
O que muda é o tempo gasto com formatação depois que o conteúdo está pronto. Menos retrabalho no final, menos surpresas na hora de gerar o PDF para entrega, menos noites ajustando sumário. Esse é o ganho.
Se você está em área que usa LaTeX como padrão, aprender Overleaf vai aparecer cedo de qualquer forma, então vale fazer isso com calma antes de precisar correndo. Se não é da área, vale perguntar à orientadora antes de começar, porque não tem sentido aprender uma ferramenta que não vai usar.
Para entender como o Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) se aplica ao processo de escrita como um todo, a página /metodo-voe tem mais detalhes.
Perguntas frequentes
O Overleaf é gratuito?
Preciso aprender LaTeX para usar o Overleaf?
Overleaf ou Word para dissertação e tese?
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