Overleaf e LaTeX para Dissertação: Tutorial Básico
Introdução ao Overleaf e LaTeX para dissertações acadêmicas: o que é, quando compensa usar, como começar e o que esperar de um editor diferente do Word.
LaTeX e Overleaf: por que essa ferramenta existe
Vamos lá. Quando você escreve um livro de texto com muitas equações, fórmulas matemáticas complexas, tabelas com estruturas elaboradas e referências cruzadas em centenas de páginas, o Word começa a mostrar seus limites. Arquivos grandes ficam lentos, a numeração de figuras bagunça, as fórmulas ficam desalinhadas.
O LaTeX foi criado na década de 1980 exatamente para resolver isso. É uma linguagem de marcação (você escreve comandos no texto que descrevem a formatação, não clica em botões) que produz documentos com tipografia de qualidade profissional. Em Matemática e Física, é o padrão há décadas. Em outras áreas, está crescendo.
O Overleaf é um editor online que tornou o LaTeX muito mais acessível. Em vez de instalar software no computador, configurar compiladores e gerenciar pacotes, você acessa overleaf.com e começa a escrever.
Quando o LaTeX compensa
Seja honesta sobre isso antes de decidir aprender.
Compensa se:
- Sua dissertação tem muitas equações ou fórmulas matemáticas
- Você está em área onde LaTeX é padrão (Matemática, Física, Computação, Engenharia)
- Seu orientador usa LaTeX e vai colaborar no Overleaf
- Você tem tempo para a curva de aprendizagem (cerca de 2 a 4 semanas para produtividade básica)
- Seu trabalho é muito longo (mais de 150 páginas) e o Word está ficando lento
Não compensa se:
- Você está na fase final da dissertação sem experiência com LaTeX
- Sua área usa Word e sua instituição não tem template LaTeX
- Você tem prazo apertado e não pode absorver erros de compilação
- Seu orientador não conhece LaTeX e não vai conseguir te ajudar quando travar
Como funciona a escrita em LaTeX
A principal diferença em relação ao Word: você não vê a formatação enquanto escreve. Você escreve texto com marcações, e o compilador gera o PDF.
Um exemplo simples:
\section{Metodologia}
Este estudo utilizou abordagem qualitativa, com entrevistas
semiestruturadas com \textbf{12 participantes}.
A análise seguiu os princípios da teoria fundamentada
\cite{strauss1998}.
Esse código gera uma seção “Metodologia” com o número 12 em negrito e uma citação formatada automaticamente conforme as normas definidas no preâmbulo do documento.
As referências bibliográficas ficam num arquivo separado com extensão .bib, e o LaTeX as formata automaticamente na lista de referências. Quando você cita \cite{strauss1998}, o sistema busca no arquivo .bib e formata conforme o estilo configurado.
O template abntex2
Para dissertações e teses brasileiras, o template mais usado é o abntex2. Ele implementa a NBR 14724 e a NBR 6023 em LaTeX.
Para começar no Overleaf com abntex2:
- Acesse overleaf.com e crie uma conta gratuita
- Clique em “New Project” → “View All” e busque por “abntex2”
- Selecione o template “Template de Trabalhos Acadêmicos da ABNT”
- O Overleaf abre um projeto com a estrutura básica já configurada
O template vem com um arquivo principal .tex, um arquivo de referências .bib, e instruções nos comentários. Você substitui o conteúdo de exemplo pelo seu conteúdo.
Os primeiros comandos que você precisa conhecer
Não precisa aprender tudo de LaTeX para escrever a dissertação. Os comandos que você vai usar 90% do tempo:
Estrutura de seções:
\chapter{Introdução}
\section{Contextualização}
\subsection{Justificativa}
Negrito e itálico:
\textbf{texto em negrito}
\textit{texto em itálico}
Citações:
\cite{autor2020} % citação no texto
\textcite{autor2020} % "Autor (2020) afirma que..."
Figura:
\begin{figure}[H]
\centering
\includegraphics[width=0.8\textwidth]{nome-do-arquivo}
\caption{Legenda da figura}
\label{fig:nome}
\end{figure}
Tabela:
\begin{table}[H]
\centering
\caption{Título da tabela}
\begin{tabular}{|l|c|c|}
\hline
Coluna 1 & Coluna 2 & Coluna 3 \\
\hline
Dado A & 10 & 20 \\
\hline
\end{tabular}
\end{table}
O arquivo de referências (.bib)
O sistema de referências do LaTeX usa um arquivo no formato BibTeX. Cada referência tem um código que você usa nas citações.
Exemplo de entrada para um artigo:
@article{bardin2016,
author = {Bardin, Laurence},
title = {Análise de Conteúdo},
journal = {Edições 70},
year = {2016},
edition = {3}
}
Você pode gerar entradas BibTeX diretamente do Google Scholar (botão “Citar” → “BibTeX”), do Mendeley ou do Zotero. Isso economiza muito tempo de formatação manual.
Erros comuns de iniciantes
Não salvar antes de compilar. O Overleaf compila automaticamente quando você para de digitar, mas em alguns casos é preciso salvar manualmente. Desenvolva o hábito de salvar.
Caracteres especiais sem escape. Em LaTeX, caracteres como %, &, $, # têm função especial. Para escrever um percentual no texto, é preciso %. Um ampersand é &. Esquecer isso gera erros de compilação sem mensagem clara.
Acentuação em compilador antigo. O abntex2 moderno usa UTF-8 e os acentos funcionam normalmente. Se você encontrar problemas com caracteres especiais, verifique se o arquivo está codificado em UTF-8 (Overleaf usa por padrão).
Figuras que não aparecem. O LaTeX precisa que o arquivo de imagem esteja na pasta correta do projeto. No Overleaf, você sobe os arquivos de imagem pelo menu lateral.
Vale fazer a migração se você está no meio da dissertação?
Honestidade aqui: na maioria dos casos, não. Se você tem 100 páginas escritas no Word e está na fase de revisão, migrar para LaTeX vai exigir reescrever o documento inteiro em LaTeX (não há conversor perfeito) e passar por uma curva de aprendizagem justo quando você precisa de produtividade, não de problemas novos.
O melhor momento para começar com LaTeX é no início de um projeto novo, de preferência com um orientador que já use a ferramenta e possa ajudar quando você travar.
Se você tem curiosidade e quer experimentar, crie um projeto de teste no Overleaf, escreva alguns parágrafos, insira uma figura e uma tabela, e cite uma referência. Uma tarde de exploração sem pressão é suficiente para decidir se faz sentido para o seu contexto.
Para quem está organizando a dissertação no Word e quer garantir que a estrutura está bem feita, os posts sobre formatação de figuras, numeração de páginas e sumário automático cobrem os pontos principais.
Os erros mais comuns de quem começa com LaTeX
Para quem está começando, alguns erros são quase universais. Conhecê-los antecipadamente ajuda.
Esquecer de escapar caracteres especiais. Em LaTeX, alguns caracteres têm significado especial e precisam ser escapados para aparecer no texto. O símbolo & vira \&, o % vira \%, o $ vira \$. Usar esses caracteres diretamente causa erro de compilação.
Não entender as mensagens de erro. Os erros do LaTeX são informativos mas têm uma linguagem própria. “Undefined control sequence” significa que você usou um comando que o LaTeX não reconhece, geralmente por erro de digitação ou pacote não carregado. “Missing $ inserted” geralmente significa que você tentou usar um caractere matemático fora do ambiente de equação. Com o tempo, você aprende a ler essas mensagens.
Não incluir os pacotes necessários. LaTeX funciona com pacotes que adicionam funcionalidades. Quer inserir imagens? Inclua \usepackage{graphicx}. Quer fontes especiais? Precisa do pacote correto. No Overleaf, muitos pacotes já estão disponíveis, mas você precisa declarar o \usepackage{} correspondente no preâmbulo do documento.
Tentar formatar manualmente em vez de usar a estrutura do LaTeX. Assim como no Word, a tentação é formatar cada elemento individualmente. Em LaTeX, a abordagem correta é usar os comandos de estrutura (seção, subseção, título) e deixar o LaTeX cuidar da formatação. Isso garante consistência e facilita mudanças globais.
O Overleaf gratuito é suficiente?
O Overleaf tem um plano gratuito que é suficiente para a maioria dos casos de uso de pesquisadores individuais. As limitações do plano gratuito são: colaboração limitada (apenas um colaborador), sem histórico completo de versões e sem suporte prioritário.
Para uma dissertação individual, o plano gratuito funciona. Se você trabalha com coautores frequentemente ou precisa de funcionalidades avançadas, o plano pago pode fazer sentido.
Muitas universidades têm parcerias com o Overleaf que dão acesso ao plano premium para estudantes e pesquisadores. Vale verificar se sua instituição tem esse benefício antes de pagar.
Overleaf colaborativo: trabalhar com o orientador
Uma vantagem prática do Overleaf que muitos não conhecem: a versão gratuita permite compartilhar o projeto com outra pessoa para edição colaborativa (uma pessoa por vez). Se o seu orientador usa LaTeX, você pode compartilhar o projeto e ele pode fazer comentários ou edições diretamente no código.
A versão paga (Overleaf Premium) permite colaboração em tempo real com várias pessoas simultaneamente, funcionalidade similar ao Google Docs. Algumas universidades têm licença institucional do Overleaf Premium para estudantes e docentes, vale verificar com a biblioteca da sua instituição.
Para trabalhos colaborativos com coautores em diferentes cidades ou países, o Overleaf é frequentemente o editor de escolha em áreas técnicas, justamente pela facilidade de compartilhamento sem precisar mandar arquivos por e-mail.
Recursos para aprender LaTeX
Se você decidiu experimentar:
Overleaf Learn: o próprio Overleaf tem uma documentação muito boa em português e inglês, com tutoriais desde iniciante. É o ponto de partida mais prático.
Detexify: ferramenta online onde você desenha um símbolo matemático com o mouse e ela retorna o comando LaTeX correspondente. Muito útil quando você sabe o símbolo que quer mas não sabe o nome.
Comunidade abntex2: o projeto tem uma lista de discussão e documentação específica para normas brasileiras. Para dúvidas específicas sobre ABNT em LaTeX, é o melhor recurso.
O aprendizado de LaTeX tem uma curva inicial mais íngreme que o Word, mas depois que você domina o básico, o controle que você tem sobre o documento é muito maior. Para quem escreve muito ao longo da carreira acadêmica, esse investimento vale.