Método

Modelos e Exemplos por Elemento do Trabalho Científico

Veja modelos e exemplos práticos dos principais elementos de trabalhos científicos: título, objetivo, hipótese, metodologia, resultados e conclusão.

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Quando o modelo faz toda a diferença

Olha só: existe uma diferença grande entre saber o que é um objetivo de pesquisa e conseguir escrever um bom objetivo. O mesmo vale para hipóteses, métodos, resultados e conclusões. O conhecimento teórico sobre cada elemento é necessário, mas não suficiente.

É por isso que modelos e exemplos têm tanto valor na formação acadêmica. Não para copiar, para entender como a estrutura funciona na prática, antes de aplicar com o conteúdo da sua própria pesquisa.

Neste texto vou passar pelos elementos centrais de um trabalho científico e mostrar, para cada um, o modelo de referência e exemplos concretos do que funciona e do que não funciona.

Elemento 1: Título

O título é o primeiro e muitas vezes o único elemento que o leitor vai ver antes de decidir se lê ou não o trabalho. Nas buscas em bases de dados, é o título que faz o filtro inicial. Numa banca, é o que o avaliador vê antes de abrir o arquivo.

Modelo de referência: [Fenômeno/Objeto de estudo] + [Contexto/População quando relevante] + [Tipo de estudo ou abordagem quando diferencia] + [Período quando relevante]

Exemplos fracos:

  • “Um estudo sobre a motivação dos alunos” (muito genérico)
  • “Pesquisa sobre ansiedade” (não diz nada de específico)
  • “A influência de múltiplos fatores socioeconômicos, ambientais, psicológicos e históricos na formação da identidade profissional de jovens trabalhadores de diferentes regiões do Brasil ao longo das últimas décadas” (longo demais)

Exemplos fortes:

  • “Ansiedade em estudantes de medicina: prevalência e fatores associados em uma universidade pública”
  • “Práticas de leitura em famílias de baixa renda: estudo qualitativo em escola pública municipal”
  • “Revisão sistemática dos efeitos de intervenções baseadas em mindfulness em sintomas de burnout em professores”

O que diferencia os fortes dos fracos: especificidade, vocabulário da área como keyword, população e contexto delimitados quando relevante.

Elemento 2: Problema de pesquisa

O problema de pesquisa é a lacuna ou questão que justifica a existência do estudo. Ele pode ser formulado como pergunta ou como declaração de lacuna.

Modelo como pergunta: “Como/Qual/Por que [fenômeno] [ocorre/se manifesta/se relaciona] [em/entre/para] [população/contexto]?”

Modelo como declaração: “Pouco se sabe sobre [fenômeno específico] em [contexto/população], especialmente [aspecto específico não estudado].”

Exemplos fracos:

  • “O problema é que não se sabe nada sobre saúde mental no Brasil.”
  • “A pesquisa pretende investigar a educação.”

Exemplos fortes:

  • “Embora haja estudos sobre síndrome de burnout em profissionais de saúde, a literatura sobre fisioterapeutas que atuam em UTIs é escassa, especialmente no contexto brasileiro pós-pandemia.”
  • “Qual é a percepção de pais de crianças com autismo sobre o acesso aos serviços de reabilitação no Sistema Único de Saúde?”

Elemento 3: Objetivo geral

O objetivo geral diz o que a pesquisa quer alcançar. Deve ser escrito com um verbo de ação no infinitivo, seguido do objeto da pesquisa e, quando necessário, do contexto ou recorte.

Verbos adequados por nível de profundidade:

  • Descritivo/exploratório: descrever, identificar, caracterizar, mapear, levantar
  • Analítico: analisar, examinar, comparar, verificar, avaliar
  • Propositivo: propor, desenvolver, elaborar, construir, validar

Exemplos fracos:

  • “Fazer uma pesquisa sobre a depressão em adolescentes.” (verbo “fazer” é genérico demais)
  • “Tentar entender as dificuldades dos professores.” (verbo “tentar” não é objetivo, é incerteza)

Exemplos fortes:

  • “Analisar os fatores associados à evasão escolar em estudantes do ensino médio de escolas públicas urbanas no estado de São Paulo.”
  • “Desenvolver e validar um protocolo de triagem de risco de suicídio para uso em atenção primária à saúde.”

Elemento 4: Objetivos específicos

Os objetivos específicos são os passos operacionais para atingir o objetivo geral. Cada um deve ser verificável, deve ser possível dizer, no final da pesquisa, se foi ou não foi atingido.

Modelo: Verbo + objeto específico + [contexto ou população]

Critério de coerência: se todos os objetivos específicos forem atingidos, o objetivo geral deve ser automaticamente atingido.

Exemplos para o objetivo geral “Analisar os fatores associados à evasão escolar…”:

Específicos coerentes:

  • “Identificar o perfil socioeconômico dos estudantes que evadiram nos últimos três anos”
  • “Descrever os principais motivos declarados pelos estudantes para a interrupção dos estudos”
  • “Comparar as taxas de evasão entre escolas de diferentes regiões do estado”
  • “Verificar a associação entre participação em programas de assistência estudantil e permanência escolar”

Específico incoerente (não leva ao objetivo geral):

  • “Revisar a história da educação pública no Brasil desde a Proclamação da República” (extravasa o escopo)

Elemento 5: Hipótese

A hipótese é uma resposta provisória e testável para a pergunta de pesquisa. Nem toda pesquisa precisa de hipóteses, estudos exploratórios e qualitativos geralmente não as formulam. Mas em pesquisas quantitativas com delineamento experimental ou correlacional, a hipótese é parte essencial.

Modelo básico: “[Variável independente] está positivamente/negativamente/não associada a [variável dependente] em [população/contexto].”

Hipótese nula e alternativa: A hipótese nula (H₀) afirma que não há relação ou diferença. A hipótese alternativa (H₁) afirma que há. O teste estatístico decide se você rejeita ou não a H₀.

Exemplos:

  • H₁: “Estudantes que praticam exercício físico regular apresentam menores níveis de ansiedade-traço do que estudantes sedentários.”
  • H₀: “Não há diferença estatisticamente significativa nos níveis de ansiedade entre estudantes praticantes e não praticantes de exercício físico.”

Elemento 6: Metodologia

A metodologia é a seção que explica como a pesquisa foi conduzida. Deve ser detalhada o suficiente para que outro pesquisador possa replicar o estudo.

Subestrutura típica:

  1. Tipo de pesquisa (abordagem, delineamento, natureza)
  2. Participantes ou corpus (quem/o quê foi estudado, critérios de seleção, tamanho amostral)
  3. Instrumentos (o que foi usado para coletar dados)
  4. Procedimentos (como a coleta foi conduzida)
  5. Análise dos dados (como os dados foram tratados)
  6. Aspectos éticos (CAAE/parecer do CEP, TCLE)

Exemplo fraco de descrição metodológica: “Realizou-se uma pesquisa qualitativa com entrevistas.”

Exemplo forte: “Trata-se de uma pesquisa qualitativa de delineamento fenomenológico. Participaram 12 profissionais de enfermagem de uma unidade de terapia intensiva de um hospital público de médio porte do interior do Paraná, selecionados por amostragem intencional. Os dados foram coletados entre agosto e outubro de 2025 por meio de entrevistas semiestruturadas gravadas em áudio, com duração média de 45 minutos, conduzidas individualmente em sala reservada. As entrevistas foram transcritas verbatim e analisadas segundo os procedimentos da análise fenomenológica interpretativa (Smith et al., 2009). O estudo foi aprovado pelo CEP da instituição (CAAE: XXXXXXXX) e todos os participantes assinaram o TCLE.”

Elemento 7: Resultados

A seção de resultados apresenta o que foi encontrado, sem interpretar. A interpretação fica para a discussão.

Para resultados quantitativos:

  • Reporte estatísticas descritivas antes das inferenciais
  • Inclua medidas de tendência central e dispersão (média, DP, mediana, IIQ conforme o caso)
  • Para testes de hipóteses: informe o teste usado, o valor da estatística, o p-valor e o tamanho de efeito
  • Use tabelas e figuras quando facilitam a compreensão, mas não repita em texto o que já está na tabela

Para resultados qualitativos:

  • Apresente os temas ou categorias com excertos dos dados que os sustentam
  • Os excertos devem ser identificados (P1, P2… ou nomes fictícios) para mostrar a diversidade de fontes
  • Não interprete ainda, deixe os dados falarem primeiro

Exemplo fraco (quantitativo): “Os resultados mostraram que o grupo experimental melhorou.”

Exemplo forte (quantitativo): “O grupo experimental apresentou redução significativa nos escores de ansiedade (M = 18,4; DP = 4,2) em comparação ao grupo controle (M = 24,1; DP = 5,0), com diferença estatisticamente significativa (t(58) = 4,73; p < 0,001; d de Cohen = 1,21, efeito grande).”

Elemento 8: Discussão

A discussão é onde você interpreta os resultados à luz da literatura. É a seção mais intelectualmente exigente do trabalho.

Estrutura sugerida:

  1. Retome o objetivo e responda diretamente se foi atingido
  2. Discuta os principais achados: o que significam? Por que ocorreram?
  3. Conecte com a literatura: confirma, contradiz, expande o que já se sabe?
  4. Discuta achados inesperados ou contraintuitivos
  5. Aponte implicações práticas e teóricas
  6. Reconheça limitações

Erro comum: fazer a discussão como uma lista de confirmações da literatura. “O resultado X está de acordo com o estudo Y. O resultado Z confirma o estudo W.” Isso não é discussão, é justaposição. Discussão é argumento: por que os achados são como são? O que eles revelam sobre o fenômeno?

Elemento 9: Conclusão

A conclusão é breve, direta e responde à pergunta de pesquisa. Não introduz informações novas.

Modelo: “Esta pesquisa [objetivo], com [participantes/corpus]. Os resultados indicaram [principais achados em linguagem direta]. [Implicações ou contribuições]. [Limitações]. Pesquisas futuras poderiam [perspectivas].”

Exemplo: “Esta pesquisa analisou a relação entre práticas parentais e desempenho escolar em crianças de 8 a 10 anos em contexto de vulnerabilidade social. Os resultados indicaram que a consistência nas rotinas familiares e o envolvimento parental nas tarefas escolares estão associados a melhores indicadores de desempenho, mesmo controlando por variáveis socioeconômicas. Os achados reforçam a importância de programas de apoio parental integrados às escolas. Como limitação, o delineamento transversal não permite estabelecer causalidade. Estudos longitudinais seriam necessários para verificar a direção das relações observadas.”

O Método V.O.E. e a escrita por elementos

Uma das aplicações mais práticas do Método V.O.E. é usar os elementos do trabalho como unidades de escrita. Em vez de tentar escrever o trabalho “do começo ao fim”, você escreve elemento por elemento, na ordem que for mais fácil para você.

Muitas vezes, começar pela metodologia é mais eficiente do que começar pela introdução, porque a metodologia é mais V.O.E.](/metodo-voe) é usar os elementos do trabalho como unidades de escrita. Em vez de tentar escrever o trabalho “do começo ao fim”, você escreve elemento por elemento, na ordem que for mais fácil para você.

Muitas vezes, começar pela metodologia é mais eficiente do que começar pela introdução, porque a metodologia é mais concreta. Depois você escreve os resultados, a discussão, e aí a introdução fica mais fácil porque você já sabe exatamente para onde a pesquisa foi.

A fase de Organização do V.O.E. é justamente isso: estruturar o trabalho antes de escrever, usando os elementos como âncoras.

Se você quer aprofundar a habilidade de escrita acadêmica, a página de recursos tem materiais que vão além do que trouxemos aqui.

Perguntas frequentes

Como escrever um bom título de trabalho científico?
Um bom título científico deve ser específico, informativo e conter a keyword principal da pesquisa. Deve indicar o fenômeno estudado, a população ou contexto quando relevante, e o tipo de estudo quando ajuda a situar o leitor. Evite títulos genéricos como 'Um estudo sobre X' ou títulos com mais de 15 palavras. O título também deve fazer sentido fora do contexto do trabalho, um leitor que encontra o título numa busca precisa entender do que se trata.
Qual é a diferença entre objetivo geral e objetivo específico?
O objetivo geral expressa o propósito central e abrangente da pesquisa, o que você quer alcançar no final. Os objetivos específicos são os passos operacionais para chegar lá: cada um desdobra uma parte do objetivo geral em ações mensuráveis. Uma forma prática de checar: se você atingir todos os objetivos específicos, o objetivo geral deve estar automaticamente atingido.
Como escrever a conclusão de um trabalho científico?
A conclusão de um trabalho científico deve retomar o objetivo, apresentar os principais achados em linguagem direta (sem repetir todos os resultados), indicar as contribuições do trabalho para a área e apontar limitações e perspectivas para pesquisas futuras. Não introduza informações novas na conclusão. A conclusão é o fechamento do argumento que o trabalho construiu, deve deixar o leitor com clareza sobre o que a pesquisa revelou.

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