Mestrado em Administração: os Erros que Custam Caro
Erros no mestrado em administração raramente são técnicos. A maioria começa antes de qualquer escrita, na hora de definir o problema de pesquisa.
Os erros que custam mais não estão na escrita
Metade das dissertações de mestrado em administração que chegam pra banca não erram nos dados. Erram antes: na pergunta.
Isso é o que torna esses erros tão caros. Quando você percebe que a metodologia não responde à sua pergunta de pesquisa, geralmente já coletou os dados. Quando percebe que o referencial teórico não conecta com os seus objetivos, já escreveu trinta páginas. Refazer no meio do processo é muito mais caro do que acertar o caminho antes de começar.
Mestrado em administração é um programa de pós-graduação que forma pesquisadores e profissionais qualificados para a geração de conhecimento na área de gestão, estratégia, marketing, finanças, recursos humanos e campos correlatos. A confusão com consultoria empresarial é histórica e, em alguns programas, ainda é mal resolvida.
O que vou mostrar aqui não é uma lista de erros burocráticos. São os problemas de concepção que aparecem repetidamente, que poderiam ser evitados no começo, e que quando aparecem na qualificação ou na defesa, o custo é alto.
Confundir pesquisa com consultoria
Esse é o mais frequente, e talvez o mais difícil de perceber de dentro.
Quem vem de uma carreira em empresas, especialmente gestores e analistas, está acostumado a um tipo de problema: existe uma dificuldade prática, você coleta informações, analisa e dá uma recomendação. É um processo legítimo e importante. Mas não é pesquisa científica.
Pesquisa científica em administração responde a perguntas sobre fenômenos organizacionais com critérios de rigor metodológico que permitam algum nível de generalização ou contribuição teórica. Não é suficiente dizer “avaliei a satisfação dos clientes da empresa X e recomendo mudanças no atendimento”. Isso é diagnóstico consultivo.
A pergunta de pesquisa precisa ter ambição teórica ou contribuição para o campo, não apenas resposta pragmática para uma situação específica. “Quais fatores influenciam a satisfação de clientes em pequenas empresas de serviço no setor Y, segundo o modelo Z?” já tem outra estrutura: há um modelo teórico, uma pergunta que pode ser respondida com dados, e um resultado que pode contribuir para o conhecimento do campo.
O sinal de alerta é quando a dissertação começa com “a empresa X enfrenta o problema de…”. Uma dissertação começa com “o fenômeno Y ocorre no contexto Z e ainda não foi suficientemente investigado por conta de…”.
Isso não quer dizer que pesquisa em administração não pode ter aplicação prática. Pode, e muitas vezes tem. Mas a aplicação é consequência da pesquisa, não o ponto de partida.
Pergunta de pesquisa ampla demais
Conectado ao primeiro, mas com cara própria. A pergunta ampla demais não é necessariamente consultiva. É simplesmente grande demais para ser respondida com os recursos de um mestrado.
“Qual o impacto da transformação digital nas organizações?” não é uma pergunta de dissertação. É um tema de pesquisa. A diferença é que um tema pode ser investigado por décadas por dezenas de pesquisadores. Uma pergunta de dissertação precisa ser respondida em dois ou três anos, com uma pesquisadora, um conjunto de dados manejável, e uma metodologia coerente.
A versão dissertável seria algo como: “Como a adoção de sistemas de gestão integrada afeta o tempo de tomada de decisão em empresas de médio porte do setor de varejo no Sudeste?” Ainda é uma pergunta aberta o suficiente para ter relevância, mas delimitada o suficiente para ser respondida.
O problema de deixar a pergunta ampla é que ela não te ajuda a decidir nada: não o referencial teórico (que literatura revisar?), não a metodologia (qual abordagem responde esse tipo de pergunta?), não os critérios de inclusão da amostra. Uma pergunta precisa funcionar como um filtro. Se qualquer coisa parece relevante, a pergunta está ampla demais.
Na hora da qualificação, bancas pedem exatamente isso: onde começa e onde termina a sua pergunta? Se a resposta for “depende”, o problema está aqui.
Referencial teórico como decoração
Esse erro é menos óbvio do que os anteriores, e por isso costuma aparecer mais tarde.
O referencial teórico em administração não é uma revisão do que outros autores disseram sobre o tema. É a construção do argumento que justifica a sua pergunta de pesquisa, define os conceitos centrais que você vai usar, e ancora a interpretação dos resultados.
Quando o referencial é tratado como decoração, ele fica assim: capítulo 2, revisão de literatura, com vinte páginas citando autores sobre liderança, seguidas de vinte páginas sobre inovação, seguidas de dez páginas sobre cultura organizacional, e nenhuma dessas seções conversa com as outras ou com a pergunta de pesquisa.
Banca percebe isso na qualificação quando pergunta: “Por que você escolheu esse modelo teórico e não o outro?” E a resposta é “esse pareceu mais adequado” ou “meu orientador sugeriu”. Sem argumento de por que esse recorte teórico faz sentido para essa pergunta, a dissertação não tem fundação.
O referencial precisa responder: quais conceitos são centrais para a sua pergunta? Quais autores definem esses conceitos de formas diferentes, e por qual definição você vai optar e por quê? Qual é a lacuna na literatura que a sua pesquisa vai tentar preencher?
Se o referencial não responde essas perguntas, ele não está fazendo seu trabalho.
Metodologia decidida depois dos dados
Isso acontece com mais frequência do que se admite, especialmente quando a pesquisa começa com acesso fácil a dados.
“Tenho acesso ao banco de dados da empresa X, então vou usar esses dados.” A metodologia vira consequência dos dados disponíveis, em vez de ser definida pela pergunta de pesquisa.
O problema é que metodologia precisa ser coerente com o tipo de pergunta que você está fazendo. Perguntas de “quanto” ou “com que frequência” pedem abordagem quantitativa. Perguntas de “como” ou “por quê” pedem abordagem qualitativa ou métodos mistos. Se você tem dados quantitativos mas sua pergunta é qualitativa, os dados não respondem o que você está perguntando.
A sequência correta é: pergunta de pesquisa, depois abordagem metodológica, depois coleta de dados. Inverter essa ordem produz uma dissertação onde a metodologia justifica os dados que você tinha, não os dados que você precisava.
O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) é útil aqui porque a fase de Velocidade te força a mapear o argumento inteiro antes de começar a coletar qualquer coisa. Qual é a pergunta? Qual tipo de dado responde essa pergunta? Qual abordagem metodológica gera esse tipo de dado? Essa sequência evita o erro de trabalhar de trás para frente.
O tempo que as pessoas subestimam
Não é um erro conceitual, mas aparece sempre.
Escrita de dissertação em administração raramente é um processo linear. O capítulo de metodologia que você escreve no mês três vai precisar de revisão quando terminar a análise dos dados. O referencial vai precisar de expansão quando a banca de qualificação apontar lacunas. Pesquisadoras que calculam o tempo como “coleta: 2 meses, análise: 1 mês, escrita: 3 meses” geralmente estão subestimando por um fator de dois.
A versão mais próxima da realidade inclui revisão depois da qualificação, reescrita de capítulos que não se articulam, correções de orientação que mudam a direção de uma seção inteira. Dissertação é um documento que muda enquanto você pensa. Isso não é desvio do plano. É o plano.
Por que vale tanto acertar no começo
Esses erros têm algo em comum: aparecem como problemas de escrita, mas são problemas de concepção. Corrigi-los depois que a dissertação está pela metade é possível, mas caro.
Quando a pergunta de pesquisa está bem formulada desde o início, o referencial teórico fica mais fácil de construir, porque você sabe que literatura é relevante e que literatura é tangencial. Quando a metodologia é definida pela pergunta, a coleta de dados tem direção. Quando o referencial conecta com os objetivos, a análise tem estrutura.
Faz sentido? O trabalho de concepção no início parece abstrato. Mas ele é o que separa uma dissertação que avança de uma que fica emperrada no meio do processo.
Se você está na fase de definição do projeto, a página /metodo-voe mostra como o Método V.O.E. organiza exatamente essa etapa de clareza antes da escrita. E em /recursos há materiais sobre construção de pergunta de pesquisa e referencial teórico específicos para quem está no começo de uma dissertação.
Perguntas frequentes
Quais são os erros mais comuns no mestrado em administração?
Por que tanta dissertação de administração fica parada na qualificação?
Consultoria e pesquisa científica em administração são a mesma coisa?
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