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Impessoalidade no texto acadêmico: o que é e por que importa

Entenda o que é impessoalidade no texto acadêmico, por que ela existe e quando ela pode ser uma armadilha para quem está começando.

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O que é impessoalidade no texto acadêmico?

Olha só: se você chegou até aqui com a dúvida “mas por que não posso escrever ‘eu acredito que…’ no meu TCC?”, saiba que essa é uma das perguntas mais comuns que recebo. E faz todo sentido ela aparecer, porque a regra da impessoalidade raramente é explicada direito. As pessoas só dizem o quê fazer, nunca o porquê.

Vamos mudar isso.

Impessoalidade no texto acadêmico significa que o texto não deve girar em torno de quem o escreveu. A ideia central é que o conhecimento científico deve ser apresentado como algo verificável, replicável e independente das opiniões pessoais do autor. Quando você escreve “eu acho que a metodologia X é melhor”, você está colocando o peso da afirmação na sua percepção. Quando você escreve “a metodologia X apresentou resultados mais consistentes nos estudos analisados”, você ancora a afirmação nos dados.

Essa distinção não é frescura de professor. Ela tem uma razão de ser.

Por que a ciência adotou esse padrão

A escrita impessoal surgiu como convenção porque a ciência precisa ser julgada pelos seus dados, não pela autoridade de quem os apresenta. Um artigo de Newton deveria ser questionável da mesma forma que um artigo de um pesquisador desconhecido, pelo menos em teoria.

Quando você retira o “eu” do centro da narrativa, convida o leitor a focar nos argumentos. A afirmação “observou-se uma redução significativa nos índices de inflamação” diz: olha para os dados. Já “eu observei uma redução significativa” diz: confie em mim.

Faz sentido?

Na prática, claro, autoridade importa na ciência. Mas a convenção de escrita impessoal existe para lembrar que o argumento deve se sustentar por si mesmo, sem depender de quem o fez.

Como escrever de forma impessoal

A estratégia mais usada é a voz passiva com sujeito oculto. Em vez de “eu coletei os dados”, você escreve “os dados foram coletados”. Em vez de “analisei as entrevistas”, escreve “as entrevistas foram analisadas”.

Outra alternativa, muito aceita e menos truncada do que a passiva, é o “nós” de modéstia. Mesmo que o trabalho seja seu, individualmente, frases como “neste trabalho, analisamos” ou “identificamos que” são corretas e bastante usadas. Esse “nós” não indica um grupo real, é apenas uma forma de manter a voz ativa sem colocar o “eu” em destaque.

Existe também a opção de usar o próprio trabalho como sujeito: “este estudo analisa”, “a pesquisa identificou”, “o presente trabalho buscou”. É uma construção clara, impessoal e que lê bem.

Nos textos do Método V.O.E., eu costumo trabalhar essas três estratégias com as alunas para que elas consigam circular entre elas sem engessar a escrita. Porque a voz passiva usada o tempo todo fica pesada. A alternância é o caminho.

Quando a impessoalidade vira problema

Aqui é onde as coisas ficam interessantes. A regra de impessoalidade, mal aplicada, produz textos torturados.

Já leu algum texto com frases como “verificou-se que os resultados foram verificados”? Ou “observou-se que houve observação de”? Esse tipo de construção acontece quando a pessoa tenta ser impessoal a qualquer custo, sem pensar se a frase faz sentido.

Impessoalidade não significa usar passiva em tudo e em qualquer circunstância. Significa não colocar o “eu” como protagonista do conhecimento. Esses são objetivos diferentes.

Um texto pode ser impessoal e ainda ter voz ativa. Veja: “os dados indicam que a hipótese foi confirmada” é voz ativa, impessoal, e lê perfeitamente bem. Não precisa de nenhuma passiva.

O problema é que muita gente aprendeu “tire o eu” e entendeu como “use passiva em tudo”. São regras diferentes.

Primeira pessoa em textos acadêmicos: quando é permitida

Sim, há situações em que o “eu” é aceito, ou até preferível.

Em pesquisas qualitativas com abordagem autobiográfica, narrativa ou fenomenológica, o posicionamento do pesquisador é parte da metodologia. Omitir o sujeito nesses casos seria tecnicamente incorreto, porque o ponto de vista do pesquisador é dado relevante.

Relatos de experiência, memoriais acadêmicos e alguns relatórios de estágio também pedem a primeira pessoa. Faz parte do gênero.

Seções de limitações, às vezes, ficam mais honestas e mais claras na primeira pessoa: “reconheço que a amostra reduzida limita a generalização dos resultados” tem mais força do que “reconhece-se que a amostra reduzida…”

A chave é verificar o que sua instituição e seu orientador esperam. Muitos programas de pós-graduação têm manuais próprios que estabelecem isso. Quando há dúvida, converse com o orientador antes, não depois de escrever.

O que a ABNT diz sobre isso

Uma coisa que gera muita confusão: a ABNT não determina diretamente o uso de voz ativa, voz passiva ou primeira pessoa. As normas ABNT regulamentam formatação, citação, referências, estrutura de trabalhos. A impessoalidade é uma convenção da escrita científica, não uma norma NBR.

Isso significa que, tecnicamente, um texto em primeira pessoa pode estar em conformidade com a ABNT se a formatação estiver correta. O problema é que muitos manuais institucionais de trabalhos acadêmicos incorporaram a impessoalidade como requisito próprio, então na prática você vai encontrar essa exigência em quase todos os programas.

Mas agora você sabe de onde ela vem, o que ajuda a aplicá-la com mais inteligência.

Erros comuns na hora de escrever de forma impessoal

Primeiro erro: transformar toda frase em passiva, mesmo quando a passiva fica estranha. “Foi decidido que seria realizado o estudo” pode simplesmente ser “o estudo foi realizado”. Simplifique.

Segundo erro: usar “o pesquisador” para se referir a si mesmo. “O pesquisador observou que…” soa estranho quando o pesquisador é você mesmo, o autor do texto. Prefira “observou-se” ou “neste estudo, observamos”.

Terceiro erro: achar que impessoalidade é sinônimo de formalidade extrema. Você pode escrever de forma impessoal, clara e até acessível. Impessoalidade não significa usar palavras de cinco sílabas onde uma de duas resolve.

Quarto erro: misturar estratégias sem critério. Se você começou um capítulo usando “nós”, mantenha. Se está usando passiva, mantenha. Consistência dentro de uma seção é mais importante do que qual estratégia você escolheu.

Como treinar o olhar para impessoalidade

Uma prática que funciona bem: depois de escrever um parágrafo, leia de novo e procure ativamente por “eu”, “minha”, “meu”, “acho”, “acredito”. Quando encontrar, pergunte: essa frase ficaria mais forte ancorada nos dados ou no método, e não na minha percepção?

Na maioria das vezes a resposta é sim. Troque.

Em poucos textos a resposta será não, e nesses casos você pode manter com consciência, não por descuido.

Outra estratégia útil: leia artigos publicados em periódicos da sua área. Observe como os autores se referem ao próprio trabalho. Você vai perceber padrões e vai começar a incorporá-los naturalmente. A imitação consciente de bons textos acelera muito o aprendizado.

Você pode encontrar mais sobre técnicas de escrita acadêmica na seção de recursos aqui do blog.

Impessoalidade na revisão de literatura

Na revisão de literatura, a impessoalidade aparece de uma forma específica: é você apresentando o que outros autores disseram, sem colocar sua voz no meio antes de ser o momento certo.

Frases como “segundo Silva (2020), os resultados indicam…” ou “conforme apontado por Nascimento e Costa (2019)…” são construções impessoais que atribuem a afirmação ao autor correto. Você não está dizendo o que acha, está organizando o que os outros disseram.

O problema aparece quando as pessoas inserem opiniões no meio da revisão sem anunciar que são opiniões. “Silva (2020) apresentou resultados interessantes, o que mostra que a metodologia funciona” mistura o que Silva disse com uma conclusão que ainda não foi argumentada. Na hora da revisão, o orientador vai perguntar: você está dizendo que a metodologia funciona, ou está dizendo que Silva concluiu isso?

Clareza sobre o que é dado e o que é interpretação é parte central da escrita acadêmica, e a impessoalidade ajuda a manter essa clareza.

Impessoalidade não é apagamento

Vou fechar com uma observação que acho importante. A impessoalidade não é sobre apagar sua presença do texto. É sobre deslocar o foco do “eu” para os argumentos e os dados.

Você ainda está lá. Suas escolhas metodológicas estão lá. Suas interpretações estão lá. Só que estão ancoradas de forma diferente, como parte do conhecimento que está sendo construído, não como opiniões pessoais que dependem de você para existir.

Quando isso fica claro, a escrita impessoal deixa de ser uma regra irritante e vira uma ferramenta. E ferramenta boa na mão certa faz diferença.

Se você quiser aprofundar esse tema na prática, o Método V.O.E. trabalha exatamente a relação entre forma e conteúdo na escrita acadêmica. Não como lista de regras, mas como compreensão de por que cada convenção existe.

Perguntas frequentes

O texto acadêmico deve ser sempre impessoal?
Na maioria das situações sim, mas existem exceções. Relatos de experiência, seções de limitações e algumas abordagens qualitativas permitem o uso da primeira pessoa. O importante é ser consistente e verificar as normas da sua instituição.
Posso usar 'nós' no lugar de 'eu' em textos acadêmicos?
Sim, o 'nós' de modéstia é uma alternativa aceita e bastante usada. Frases como 'neste trabalho, analisamos' ou 'observamos que' são corretas e evitam tanto o 'eu' quanto as construções passivas mais forçadas.
A impessoalidade é obrigatória pela ABNT?
A ABNT não determina diretamente o uso de voz ativa ou passiva. Ela regulamenta formatação, citação e referências. A impessoalidade é uma convenção da escrita científica, não uma norma ABNT propriamente dita. Mas sua instituição pode exigir em seu manual de normas.

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