Exemplo de Artigo Científico Completo: o Que Consta
Veja o que um artigo científico completo precisa ter: estrutura, seções obrigatórias, formatação e os erros mais comuns antes de submeter.
A pergunta que a maioria faz errado antes de começar a escrever
Pesquisadoras que estão escrevendo seu primeiro artigo científico ou revisando um texto para resubmissão frequentemente chegam à mesma pergunta: “Será que meu artigo está completo?”
Artigo científico completo é um texto que apresenta uma pesquisa original com todas as seções exigidas pelo periódico alvo, seguindo as normas editoriais específicas e com cada parte cumprindo sua função dentro do argumento geral. O que “completo” significa concretamente muda de acordo com o periódico e a área, mas a estrutura de base é reconhecível na maioria dos campos.
O problema não costuma ser falta de conteúdo. Quem chegou até o ponto de escrever o artigo provavelmente tem dados, tem análise, tem conclusões. O problema costuma ser estrutura e função. Cada seção de um artigo existe por uma razão. Quando essas razões não estão claras, o texto sai com seções incompletas, seções que fazem o trabalho errado, ou seções que se misturam de formas que deixam o revisor confuso.
Esse post mapeia o que cada seção precisa fazer.
IMRAD: a estrutura que a maioria conhece pela metade
O modelo IMRAD (Introdução, Métodos, Resultados, Discussão) é o padrão dominante em ciências naturais, biológicas e da saúde, e está se expandindo para áreas como psicologia e ciências sociais. Mas mesmo quem conhece o acrônimo costuma ter lacunas no que cada parte realmente precisa conter.
A estrutura completa de um artigo vai além do IMRAD. Em ordem:
- Título
- Resumo (abstract)
- Palavras-chave
- Introdução
- Métodos (ou Materiais e Métodos)
- Resultados
- Discussão
- Conclusão (nem sempre separada da discussão)
- Referências
- Apêndices e material suplementar (quando aplicável)
Alguns periódicos exigem ainda: agradecimentos, declaração de conflito de interesses, e informação sobre financiamento. Esses campos aparecem em locais variados conforme o template do periódico.
Título: a seção que mais pessoas subestimam
O título é o primeiro filtro. Editores e revisores decidem se o artigo é adequado para aquele periódico antes de ler a segunda linha.
Um bom título para artigo científico tem três características: informa o tema, indica o método ou abordagem quando isso é relevante, e é específico o suficiente para aparecer em buscas da área.
Títulos problemáticos:
- Muito genéricos: “Estudo sobre depressão em adolescentes”
- Muito longos: funcionam mal em buscas e em citações
- Com abreviações não padronizadas: o leitor que ainda não conhece seu trabalho não vai entender
Títulos que funcionam geralmente descrevem o que foi estudado, em quem (quando relevante), e o que foi encontrado ou o ângulo metodológico. O periódico específico tem normas sobre comprimento e formato, incluindo proibições de pontuação no título em alguns casos.
Abstract: o artigo em miniatura
O abstract precisa funcionar sozinho. Isso não é metáfora. Em muitas bases de dados, é o único texto visível antes do paywall. Revisores de periódico leem o abstract antes de decidir se aceitam revisar o manuscrito.
Um abstract completo responde a quatro perguntas:
- Qual foi o objetivo do estudo?
- Como ele foi conduzido (método principal)?
- O que foi encontrado (resultados principais)?
- O que isso significa (conclusão)?
Periódicos de saúde frequentemente exigem abstract estruturado com subtítulos explícitos em inglês (Objective, Methods, Results, Conclusion). Ciências humanas e sociais tendem a aceitar abstract corrido. Mas em qualquer formato, as quatro perguntas precisam estar respondidas.
Erros comuns no abstract:
- Apresentar o tema sem apresentar os resultados (“Este estudo investigou X”)
- Detalhar demais o método sem apresentar o que foi encontrado
- Copiar frases inteiras da introdução ou da conclusão sem adaptar
- Ultrapassar o limite de palavras do periódico (a maioria estabelece 150 a 250 palavras)
Escrever o abstract depois que o artigo estiver completo é mais eficiente do que escrever no início. O abstract descreve o que existe, não o que você planejava encontrar.
Introdução: o argumento que justifica o artigo
A introdução não é uma revisão de literatura disfarçada. Essa confusão gera introduções longas, enciclopédicas e sem foco que fazem o editor perder o interesse antes de chegar aos métodos.
A função da introdução é construir o argumento de que este estudo precisava ser feito. Para isso, ela tipicamente:
- Situa o tema no campo
- Identifica uma lacuna, problema ou questão em aberto
- Justifica por que essa lacuna importa
- Enuncia o objetivo do estudo
A revisão de literatura aparece na introdução, mas como suporte ao argumento, não como fim em si mesma. Você não está catalogando tudo que existe sobre o tema. Está mostrando que existe um problema que seu estudo responde.
A última frase (ou parágrafo) da introdução costuma ser o objetivo do estudo formulado de forma clara. Alguns periódicos exigem que apareça explicitamente (“O objetivo deste estudo foi…”). Outros preferem a formulação implícita. As instruções aos autores do periódico informam isso.
Métodos: o que precisa estar lá e por quê
A seção de métodos existe para uma finalidade específica: permitir que outro pesquisador reproduza (ou critique) o que você fez. Não é autobiografia científica. Não é espaço para justificar cada decisão metodológica. É descrição precisa e replicável do que foi feito.
O que geralmente precisa estar presente:
- Delineamento do estudo (tipo de pesquisa, se quantitativa, qualitativa ou mista)
- Participantes ou amostra: quem, quantos, como foram selecionados, critérios de inclusão e exclusão
- Procedimentos: o que foi feito, em que ordem
- Instrumentos ou instrumentos de coleta: questionários, entrevistas, experimentos
- Análise dos dados: como os dados foram tratados
- Aspectos éticos: aprovação de comitê de ética quando aplicável, CAAE, número do parecer
O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) tem aplicação direta aqui: a seção de métodos é onde a organização da pesquisa precisa estar documentada de forma que alguém de fora consiga seguir. Se durante a coleta de dados você não manteve registro preciso de procedimentos e critérios, essa seção vai ser difícil de escrever. É por isso que a fase de organização precisa acontecer durante a pesquisa, não depois.
Pesquisa qualitativa tem variações: a descrição do corpus, a metodologia de análise (análise temática, análise de conteúdo, análise do discurso), e os critérios de rigor (credibilidade, transferibilidade, dependabilidade) precisam estar explícitos.
Resultados: descrever sem interpretar
Resultados apresentam o que foi encontrado. Só isso.
A tentação de começar a interpretar já na seção de resultados é grande, especialmente quando os dados confirmam a hipótese. Mas misturar descrição e interpretação confunde o leitor sobre o que é dado e o que é análise.
O que pertence a resultados:
- Os dados organizados em tabelas, figuras ou texto narrativo conforme o formato do periódico
- Estatísticas descritivas e inferenciais com os valores correspondentes (p-valor, intervalos de confiança, tamanho de efeito)
- Para pesquisa qualitativa: as categorias ou temas identificados, com exemplos representativos do corpus
O que não pertence a resultados:
- Comparação com literatura anterior
- Explicação de por que os resultados ocorreram
- Implicações dos achados
Figuras e tabelas em artigos científicos precisam ser autoexplicativas. O título da tabela e as notas de rodapé devem permitir que alguém entenda o que está vendo sem precisar ler o texto principal.
Discussão: o coração do argumento
A discussão é onde o artigo ganha ou perde. É aqui que você responde à pergunta de pesquisa, compara seus achados com o que já existe na literatura, e mostra o que seu estudo contribui para o campo.
Uma discussão completa faz quatro coisas:
- Retoma o objetivo do estudo e responde se foi alcançado
- Compara os resultados com estudos anteriores (convergências e divergências)
- Interpreta o significado dos achados
- Discute limitações do estudo de forma honesta
As limitações são onde muitas pesquisadoras ficam defensivas. Apontar limitações não enfraquece o artigo. Ignorá-las enfraquece porque os revisores vão apontá-las de qualquer forma, e preferem ver que o autor tem consciência do que o estudo pode e não pode afirmar.
A discussão não é resumo. Não repita os resultados integralmente. Use os resultados como ponto de partida para a interpretação.
Conclusão: o que fica depois que o artigo termina
A conclusão (quando é seção separada da discussão) é mais curta. Ela retoma os achados principais, destaca a contribuição do estudo para o campo, e pode apontar direções para pesquisas futuras.
O erro mais comum: a conclusão que simplesmente repete o abstract. O leitor que chegou até ali já leu o artigo inteiro. A conclusão precisa acrescentar síntese, não repetição.
Outro erro frequente: terminar o artigo com recomendações que excedem o que os dados suportam. “Os resultados sugerem que políticas de X deveriam ser implementadas” é aceitável quando o estudo efetivamente investigou isso. Pular de dados locais ou amostrais para recomendações universais sem reconhecer a escala é um problema de inferência que revisores identificam.
Referências: a seção que mais gera rejeição técnica
Artigos são rejeitados por erros nas referências com mais frequência do que as pesquisadoras imaginam. Não rejeição do conteúdo científico, mas rejeição técnica por não seguir o formato do periódico.
Cada periódico especifica o estilo de referência: ABNT, APA, Vancouver, Chicago, ou um estilo próprio. As instruções aos autores descrevem isso. Seguir o estilo errado ou misturar estilos é sinalização de que o manuscrito não foi preparado com atenção para aquele periódico específico.
Pontos de atenção nas referências:
- Consistência do estilo ao longo de todo o texto
- Correspondência entre citações no texto e lista de referências (cada citação precisa de referência, cada referência precisa de citação)
- Fontes primárias vs. secundárias: citar a fonte original, não artigos de revisão que citam a fonte original
- DOIs funcionando quando exigidos
Gerenciadores de referência (Zotero, Mendeley, EndNote) ajudam com a formatação, mas não eliminam a necessidade de verificação manual. Erros de metadados nas bases de dados se propagam automaticamente se não houver checagem.
Antes de submeter: o que revisar
Um checklist prático antes de enviar o manuscrito:
- O título está dentro do limite de palavras do periódico?
- O abstract cobre objetivo, método, resultados e conclusão dentro do limite?
- Todas as seções exigidas pelo periódico estão presentes?
- As figuras e tabelas são autoexplicativas e estão numeradas corretamente?
- O estilo de referência está correto e consistente?
- Declaração de conflito de interesses e financiamento estão incluídas?
- O arquivo está no formato e tamanho especificados nas instruções?
Artigos retornam para revisão mais pelo item 7 do que pelo conteúdo científico. Seguir as instruções aos autores do periódico específico é o passo mais subestimado da submissão.
O artigo existe antes de ser submetido
Essa frase pode parecer óbvia, mas o ponto é este: muitas pesquisadoras tratam a submissão como o momento em que o artigo fica pronto. Na prática, a submissão é o início de um processo que costuma incluir uma ou duas rodadas de revisão antes da publicação.
Artigo completo na submissão não garante aceitação. Garante que a rejeição ou revisão vai ser sobre o conteúdo científico, não sobre a estrutura. Isso é o que está sob seu controle.
Perguntas frequentes
Quais são as seções obrigatórias de um artigo científico?
O que deve ter no abstract de um artigo científico?
Qual é a diferença entre resultados e discussão num artigo científico?
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