Resultados e discussão em artigo científico: como escrever
Entenda a diferença entre resultados e discussão num artigo científico e como escrever cada seção sem misturar o que foi achado com o que significa.
A confusão mais comum em artigos rejeitados por pares
O revisor devolve com o comentário “os autores misturam resultados com interpretação na seção de resultados”. A autora lê e não entende o problema. Para ela, estava descrevendo o que encontrou.
A seção de resultados e a seção de discussão têm funções distintas num artigo científico. Resultados apresentam o que os dados mostraram, sem atribuir significado além do que os dados permitem. Discussão interpreta esses achados à luz do referencial teórico, os compara com estudos anteriores, e responde à pergunta de pesquisa.
A linha entre descrever e interpretar parece óbvia até o momento de escrever. É onde a maioria dos artigos em revisão erra, e é uma das razões mais frequentes de rejeição ou de solicitação de revisão maior.
O que vai na seção de resultados
Antes de começar a escrever resultados, vale entender o que essa seção precisa fazer. Ela não existe para impressionar o revisor com a quantidade de dados. Existe para dar ao leitor as informações necessárias para avaliar se a interpretação que você vai fazer na discussão é sustentada pelos achados.
A seção de resultados apresenta os achados da pesquisa de forma organizada e factual. O critério de inclusão de uma informação nessa seção é simples: isso está nos dados ou é uma interpretação minha?
Se está nos dados, vai nos resultados. Se é uma interpretação, vai na discussão.
Para pesquisas quantitativas, resultados incluem estatísticas descritivas, tabelas com valores encontrados, figuras com distribuições, resultados de testes estatísticos com seus valores de significância. A narrativa na seção de resultados é de apresentação: “A tabela 1 mostra… Os dados indicam… Foram identificados X casos de…”.
Para pesquisas qualitativas, resultados costumam ser apresentados por categorias ou temas analíticos, com excertos representativos dos dados. “O tema X apareceu em 15 das 20 entrevistas, expresso principalmente em…” é uma afirmação de resultado. “O que isso revela sobre o fenômeno é…” já é discussão.
A seção de resultados pode ter tabelas, figuras e excertos, mas não deve ter argumentação sobre o que esses elementos significam para a área ou para a teoria.
O que vai na seção de discussão
A discussão é onde o artigo cumpre sua função científica: posicionar os achados no debate existente da área. Apresentar dados sem discuti-los é produzir informação sem conhecimento.
A seção de discussão responde a quatro perguntas, não necessariamente nessa ordem:
- O que os resultados significam à luz do referencial teórico?
- Como esses resultados se relacionam com estudos anteriores? Confirmam, contradizem, nuançam?
- Quais são as limitações deste estudo que afetam a interpretação dos resultados?
- Que implicações práticas ou teóricas têm esses achados?
Não todas as discussões precisam responder as quatro perguntas na mesma profundidade. Depende do escopo do artigo, da área, e das normas do periódico. Mas as duas primeiras perguntas raramente são dispensáveis: sem elas, a discussão não cumpre sua função de posicionar o estudo no campo.
Por que misturar as duas seções é problema
Misturar resultados e discussão parece inofensivo, mas cria dois problemas concretos.
O primeiro é metodológico: quando interpretação aparece junto com descrição, o leitor não consegue separar o que foi encontrado do que a pesquisadora acha sobre o que foi encontrado. Isso dificulta a avaliação crítica do artigo, que é o que a revisão por pares deve fazer.
O segundo é retórico: a força de uma boa discussão depende de o leitor já ter os dados na cabeça. Quando resultados e discussão se misturam, a apresentação dos dados perde clareza e a interpretação perde apoio. Os dois lados ficam mais fracos.
Revisores experientes detectam essa mistura rapidamente e a interpretam como sinal de que a pesquisadora não domina a estrutura argumentativa do artigo científico. Não é uma inferência justa em todos os casos, mas é a leitura que acontece.
A lógica da progressão entre as seções
A relação entre resultados e discussão segue uma lógica de progressão que precisa ser explícita no texto.
Os resultados apresentados na seção anterior precisam ser retomados na discussão. Não todos com a mesma profundidade, mas os centrais à pergunta de pesquisa devem ser interpretados explicitamente. Uma discussão que não menciona os resultados principais ou que introduz interpretações sobre dados que não foram apresentados está com a estrutura comprometida.
A retomada dos resultados na discussão não é repetição. É a ponte entre o que foi encontrado e o que isso significa. “Os dados mostraram X (resultado). Esse achado confirma a hipótese de Y (referencial teórico) e contrasta com os resultados de Z (estudos anteriores), o que sugere que… (interpretação).”
Essa estrutura pode ser mais ou menos explícita dependendo do estilo da área, mas a lógica subjacente é a mesma. Periódicos de ciências exatas tendem a exigir essa progressão de forma bastante rígida. Nas ciências humanas e sociais, há mais liberdade formal, mas a função permanece: cada achado precisa ser interpretado e posicionado.
Resultados e discussão em pesquisa qualitativa
Em pesquisas qualitativas, a separação entre resultados e discussão é mais delicada porque dados e interpretação são, em certa medida, inseparáveis. A própria escolha de um excerto como representativo já é um ato interpretativo.
Alguns periódicos e abordagens metodológicas aceitam ou até preferem a seção combinada “Resultados e Discussão” para pesquisas qualitativas, onde os achados são apresentados já interpretados à medida que aparecem.
Se o periódico aceita esse formato, o cuidado é garantir que cada ponto de interpretação esteja ancorado em dados concretos apresentados no mesmo momento. Interpretação solta, sem o excerto ou a referência ao dado que a sustenta, é especulação, não discussão qualitativa.
Se o periódico exige seções separadas mesmo para pesquisa qualitativa, a saída é usar os resultados para apresentar as categorias e excertos representativos, e a discussão para interpretar o padrão entre categorias e posicionar os achados no debate teórico.
Uso do Método V.O.E. na escrita dessas seções
No Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente), escrever resultados e discussão segue uma sequência que reduz retrabalho.
Na fase de Velocidade, faça um esboço livre de tudo que você quer comunicar sem se preocupar ainda se é resultado ou discussão. Deixe o material sair. Muitas pesquisadoras travam ao tentar escrever resultados “puros” desde o início, porque o impulso de interpretar é natural.
Na fase de Organização, separe esse material em dois grupos: o que é descrição dos dados (vai nos resultados) e o que é interpretação (vai na discussão). Esse mapa deixa claro o que cada seção precisa conter.
Na fase de Execução Inteligente, escreva as duas seções com a estrutura definida. Resultados primeiro, discussão depois. A discussão fica mais fluida quando você já tem os resultados escritos para retomar.
Como revisar as duas seções antes de submeter
Revisar resultados e discussão exige um olhar diferente do que revisar introdução ou metodologia. Nessas duas seções, o risco não é de imprecisão factual, mas de confusão funcional: cada elemento precisa estar no lugar certo para que o argumento do artigo funcione. Uma verificação específica antes de submeter ajuda a pegar problemas que passam despercebidos na leitura corrida.
Leia apenas a seção de resultados e pergunte para cada afirmação: isso está nos dados ou é minha interpretação? Se encontrar interpretação, mova para a discussão.
Leia apenas a seção de discussão e pergunte: cada ponto de interpretação está ancorado em algum resultado apresentado na seção anterior? Se encontrar interpretação sem respaldo em dado apresentado, você precisa ou mover o dado para os resultados ou remover a interpretação.
Por fim, verifique se a discussão responde à pergunta de pesquisa declarada na introdução. Se o artigo abre com uma pergunta e a discussão não a responde diretamente, o revisor vai notar. Essa verificação de fechamento leva poucos minutos e resolve um problema que demora dias para corrigir depois da rejeição.
Resultados e discussão bem escritos são o que transforma um conjunto de dados em um argumento científico. Esse é o trabalho central do artigo, e onde a clareza metodológica mais aparece para o revisor. A separação entre descrever e interpretar, quando bem executada, dá ao texto uma legibilidade que facilita tanto a avaliação por pares quanto a leitura de quem vai usar a pesquisa depois.
Uma última observação sobre títulos das seções
Alguns periódicos usam nomenclaturas diferentes para essas seções. “Achados” no lugar de “Resultados”, ou “Análise e Discussão” no lugar de “Discussão”. O nome muda, a função não. Independente do título da seção, o critério continua sendo o mesmo: o que foi encontrado fica separado do que isso significa. Quando você internaliza essa distinção funcional, formatar o artigo para qualquer periódico fica mais simples, porque a estrutura do raciocínio já está clara antes mesmo de abrir o template.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre resultados e discussão em artigo científico?
Posso unir resultados e discussão em uma seção só no artigo?
O que não pode aparecer na seção de resultados de um artigo?
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