Como fazer introdução de artigo científico: o que ela precisa ter
A introdução do artigo científico faz mais do que apresentar o tema. Entenda a lógica por trás de cada elemento e por que tantas introduções são rejeitadas.
A introdução que convence o revisor
Vamos lá. Se você já recebeu uma rejeição de artigo com o comentário “a introdução não está clara” ou “a lacuna não está bem identificada”, você sabe a dor de cabeça que a introdução pode causar.
A introdução de um artigo científico é o lugar onde você justifica a existência do seu estudo. Não é um resumo do que você fez. Não é uma revisão de literatura geral. É a resposta para a pergunta que o revisor vai fazer nas primeiras linhas: “Por que esse estudo precisava ser feito?”
Se a introdução não responde essa pergunta com clareza, o artigo começa em desvantagem, independentemente da qualidade dos métodos e dos resultados.
A estrutura clássica: do geral para o específico
A estrutura mais usada em introduções de artigos científicos, especialmente nas ciências da saúde, segue uma lógica de funil: começa com o contexto mais amplo, afunila para o problema específico e termina com o objetivo do estudo.
Essa estrutura tem nome: é chamada de CARS (Create a Research Space), descrita pelo linguista John Swales. Ela descreve três “movimentos” que uma introdução eficiente faz:
Movimento 1 - Estabelecer o território: Você mostra que o tema é relevante, que tem estudos anteriores e que existe uma comunidade de pesquisadores interessada nisso. Isso não é decoração. É a justificativa para o campo existir.
Movimento 2 - Identificar a lacuna: Você mostra o que ainda não foi estudado, o que os estudos existentes não conseguiram explicar, ou onde há contradição entre resultados de diferentes estudos. Essa é a parte mais crítica. Sem lacuna clara, não há razão para existir um novo estudo.
Movimento 3 - Ocupar o espaço: Você anuncia o que o seu estudo vai fazer para preencher essa lacuna. O objetivo do estudo vai aqui, geralmente no último parágrafo da introdução.
Esse esquema explica por que tantas introduções fracassam: elas ficam no Movimento 1 (contexto geral) e nunca chegam ao Movimento 2 (lacuna específica). O resultado é uma introdução que fala muito sobre o tema mas não justifica o estudo específico.
O que é e o que não é lacuna
A lacuna é o ponto fraco da literatura. É o que a ciência ainda não sabe, ou sabe mal, ou sabe apenas em determinados contextos.
“Poucos estudos tratam sobre X” é uma lacuna se for verdade. “Este tema é importante” não é lacuna, é contextualização. “Há divergência na literatura sobre X” é uma lacuna se você mostrar quais são as divergências. “Este tema merece mais atenção” é uma afirmação vaga que não justifica nada.
Para identificar a lacuna do seu estudo, você precisa conhecer a literatura de verdade. Não apenas ter lido alguns artigos. Precisa conseguir responder: o que os estudos existentes fizeram? O que eles não conseguiram fazer? Onde foram realizados? Em que populações? Com que limitações?
A lacuna emerge do conhecimento específico do campo. Não dá para inventar uma lacuna. Dá para identificar onde ela está se você conhece o território.
Os erros mais comuns na introdução
Iniciar com afirmações muito amplas: “A saúde é fundamental para o ser humano.” “No mundo contemporâneo, a ciência ocupa papel central.” Essas aberturas não dizem nada que seja específico do seu estudo. Vá direto ao ponto.
Revisar excessivamente sem focar no problema: Listar o que cada estudo encontrou, um por um, é revisão de literatura, não introdução. A introdução usa a literatura para construir o argumento de que existe uma lacuna, não para catalogar o que já foi feito.
Não deixar claro o objetivo: A introdução termina com o objetivo do estudo claramente formulado. “Investigar aspectos relacionados a X” é vago. “Analisar a prevalência de X em Y na população de adultos acima de 60 anos atendidos em serviços de atenção primária em Z” é específico.
Misturar introdução com métodos: Alguns pesquisadores começam a explicar o design do estudo ainda na introdução. Isso confunde o leitor. A introdução responde “por que” e “o que”. O método responde “como”.
Exceder o tamanho: Em periódicos com limite de palavras, uma introdução longa demais compromete o espaço dos métodos, resultados e discussão, que são as partes mais importantes do artigo.
O objetivo como ponto de chegada
O último parágrafo da introdução, aquele que anuncia o objetivo, merece atenção especial.
O objetivo precisa ser alcançável com a metodologia que você vai descrever. Se você anuncia um objetivo e depois apresenta uma metodologia que não consegue responder aquele objetivo, há inconsistência interna no artigo. Isso é notado pelos revisores.
O objetivo também precisa estar alinhado com os resultados que você vai apresentar. Se você anunciou “analisar X” e nos resultados só aparece Y, algo está errado na articulação do artigo.
Uma forma de verificar esse alinhamento: leia o objetivo, leia os resultados e confirme se os resultados respondem diretamente ao que o objetivo propôs. Se você precisar de muita interpretação para ver a conexão, o objetivo ou os resultados precisam ser revistos.
Diferenças entre áreas
A estrutura geral é parecida, mas o estilo varia bastante entre as áreas.
Nas ciências da saúde e biológicas, introduções são mais curtas, mais objetivas, com citações densas e linguagem impessoal. A lacuna é geralmente identificada de forma explícita: “No entanto, até o momento, não há estudos que…”
Em humanidades e ciências sociais, introduções costumam ser mais longas, mais argumentativas, com mais espaço para o posicionamento teórico do pesquisador. A lacuna pode aparecer de formas mais sutis, através de uma posição crítica em relação à literatura existente.
Em engenharia e computação, as introduções costumam ser bastante diretas, frequentemente estruturando o artigo explicitamente: “Na seção 2 apresentamos… Na seção 3…”
Verificar as introduções dos artigos mais citados do periódico para o qual você vai submeter é a forma mais eficiente de calibrar o estilo. Leia três ou quatro introduções de artigos recentes daquele periódico e perceba: como eles abrem? Onde identificam a lacuna? Como anunciam o objetivo?
A introdução não precisa impressionar. Precisa convencer. Convencer que o problema é real, que a lacuna existe e que o seu estudo tem a metodologia adequada para contribuir com o campo. Quando isso está claro nas primeiras duas páginas, o revisor lê o restante com outra disposição.
Como o Método V.O.E. ajuda na introdução
Uma coisa que percebo nos pesquisadores que acompanho é que a dificuldade com a introdução raramente é de escrita. É de organização do pensamento antes de escrever.
Muitas vezes, quando você não consegue escrever a introdução, o problema é que você ainda não sabe exatamente qual é a lacuna que o seu estudo preenche. Isso parece óbvio, mas não é. Dá pra passar meses trabalhando num projeto sem conseguir formular com clareza “o que meu estudo acrescenta que a literatura não tinha antes.”
O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) trata exatamente disso. O processO de Organização que precede a escrita força você a formular esse argumento central antes de abrir o documento. Quando você sabe qual é a lacuna e qual é a contribuição, a introdução emerge com muito menos retrabalho.
A introdução difícil geralmente é sintoma de um argumento central ainda não resolvido. Não é problema de escrita. É problema de clareza conceitual sobre o próprio trabalho. E isso só se resolve pensando, não escrevendo mais.
Introdução no artigo versus na dissertação
Vale uma nota de diferença, porque muitos pesquisadores transferem o estilo de introdução da dissertação para o artigo e ficam confusos quando os revisores pedem revisão.
A introdução de uma dissertação ou tese tem mais espaço. Ela pode ser mais didática, mais contextual, mais ampla. O leitor da dissertação é a banca, que conhece o contexto e tem disposição para uma leitura mais longa.
O leitor do artigo científico é um revisor com dezenas de manuscritos para avaliar, que vai decidir em poucos minutos se vale a pena ler com atenção ou rejeitar rapidamente. A introdução do artigo precisa ser mais cirúrgica: no mínimo de palavras, o máximo de informação relevante.
Se você está adaptando um capítulo de dissertação para um artigo, a introdução é geralmente a parte que precisa de mais corte e condensação. Não é para ficar pior. É para ficar mais precisa.
Perguntas frequentes
O que deve conter uma introdução de artigo científico?
Qual o tamanho ideal de uma introdução de artigo?
Posso começar a introdução com uma citação?
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