Como escrever abstract de artigo científico em inglês
O abstract precisa funcionar sozinho, sem o resto do artigo. Entenda o que ele precisa ter, o que corta do jeito, e os erros mais comuns de quem escreve em inglês acadêmico.
O abstract que trabalha por você
Vamos lá. O abstract é a parte do artigo mais lida, na maioria das vezes, e menos cuidada. Muitos pesquisadores escrevem o artigo inteiro e ficam com o abstract para o final, cansados, e produzem um texto que é basicamente um resumo descuidado do que está no artigo.
O problema é que, para a maioria dos leitores, o abstract é o artigo. Revisores decidem pela primeira leitura do abstract se vão ler o manuscrito com atenção ou se vão recomendar rejeição sumária. Pesquisadores em buscas no PubMed, Scopus ou Google Acadêmico leem o abstract e decidem se vale baixar o PDF.
Um abstract bem escrito não é um resumo do artigo. É um argumento completo e autossuficiente. Deve funcionar de forma independente, sem precisar do restante do texto para fazer sentido.
A estrutura do abstract científico
A estrutura mais usada no abstract de artigos nas ciências da saúde e em muitas outras áreas segue uma sequência lógica: contexto, objetivo, métodos, resultados, conclusão.
Contexto: Uma ou duas frases que situam o leitor no problema. Por que esse tema importa? Qual é a situação que motivou o estudo? Não é uma revisão de literatura, é uma afirmação contextual direta.
Exemplo de contexto fraco: “Many studies have investigated the relationship between stress and academic performance.” Exemplo de contexto melhor: “Graduate students face high rates of burnout, but little is known about the institutional factors that predict early dropout.”
Objetivo: Uma frase clara, geralmente com “This study aimed to…” ou “We investigated…”. O objetivo precisa estar alinhado com o que os métodos e resultados entregam.
Métodos: As informações metodológicas essenciais: design do estudo, população ou amostra, instrumento principal, análise utilizada. Não é para detalhar tudo. É para dar ao leitor informação suficiente para avaliar a robustez do que vai ser apresentado.
Resultados: Os achados principais, com números quando possível. “We found an association” é vago. “Participants in the intervention group showed a 23% reduction in X compared to controls (p < 0.01)” é informativo. Resultados no abstract são o que convence o revisor de que o estudo tem contribuição real.
Conclusão: A implicação central do achado. O que isso significa para o campo? Qual é a contribuição? Não repita os resultados. Interprete-os.
Abstract estruturado versus não estruturado
Muitos periódicos, especialmente em ciências da saúde, exigem o abstract estruturado, com as seções marcadas explicitamente: Background, Objective, Methods, Results, Conclusion. Outros exigem abstract em prosa contínua.
A diferença na escrita é principalmente de formatação, não de conteúdo. Nos dois casos, as mesmas informações precisam estar presentes. No abstract estruturado, cada seção tem um limite de espaço que funciona como disciplina. No abstract em prosa, você precisa impor essa disciplina a si mesmo.
Verifique sempre as instruções do periódico. Submeter um abstract em prosa para um periódico que exige abstract estruturado é um problema técnico que pode atrasar ou prejudicar a submissão.
Inglês científico: o que muda na prática
Pesquisadores brasileiros que escrevem bem em português nem sempre escrevem bem em inglês acadêmico, não porque o inglês seja ruim, mas porque as convenções de estilo são diferentes.
Algumas diferenças que aparecem com frequência:
Voz ativa versus passiva: O inglês científico moderno prefere voz ativa para maior clareza. “We collected data from 150 participants” é mais direto que “Data were collected from 150 participants.” Alguns periódicos ainda preferem passiva em métodos, mas a tendência geral é para a ativa. Verifique o estilo dos artigos do periódico.
Frases mais curtas: Português acadêmico aceita frases longas e subordinadas de forma que o inglês acadêmico normalmente não aceita bem. Se você está traduzindo, provavelmente precisará dividir frases longas em duas ou três frases mais curtas.
Precisão dos verbos: Em inglês científico, a escolha do verbo importa muito. “We found”, “we demonstrated”, “we observed”, “we reported”, “we suggest” têm conotações diferentes quanto ao nível de certeza que você está atribuindo ao achado. Usar “we found” para um achado que na verdade é especulativo é um erro que revisores notam.
Uso de artigos: “The” e “a/an” têm regras de uso que não têm equivalente direto no português. Omitir ou usar incorretamente os artigos é um dos erros mais frequentes de brasileiros escrevendo em inglês. Se você tem dúvida, verifique com um revisor nativo ou use ferramentas como o Writefull ou o Grammarly Premium com o perfil acadêmico.
Palavras e frases para evitar
Algumas construções aparecem com frequência em abstracts escritos por falantes de português e indicam para o revisor que o texto provavelmente foi escrito em outra língua e traduzido:
“In the present study…” - é redundante. Todos sabem que é o presente estudo. Comece com o objetivo direto.
“This work aims at…” - “aims at” seguido de substantivo. O correto é “aims to” seguido de verbo.
“Due to the fact that…” - construção pesada. Use simplesmente “because” ou “since”.
“Bibliographic references were used…” - óbvio e desnecessário em qualquer artigo científico.
“It was concluded that…” - prefira a voz ativa: “We conclude that…”
“The results showed that…” - muitas vezes pode ser simplificado para os resultados diretamente, sem o preamble.
Como revisar o abstract antes de submeter
Depois de escrever, um checklist rápido:
Leia o abstract sem o resto do artigo. Ele faz sentido por si só? Um leitor que não conhece o seu trabalho conseguiria entender do que se trata, o que foi feito e o que foi encontrado?
Confirme se o objetivo no abstract é o mesmo anunciado na introdução.
Confirme se os resultados no abstract correspondem ao que está na tabela ou no texto de resultados.
Confirme se a conclusão do abstract está ancorada nos resultados, não em especulações que não aparecem nos dados.
Conte as palavras e confirme que está dentro do limite do periódico.
Leia em voz alta. Frases que travam na leitura em voz alta costumam ser frases que o revisor também vai achar difíceis.
O abstract e as palavras-chave
As palavras-chave que você coloca após o abstract determinam, em grande medida, como o artigo vai aparecer nos resultados de busca nas bases de dados. Vale pensar nelas com cuidado.
Use termos do vocabulário controlado da área quando possível. Em ciências da saúde, os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e os MeSH (Medical Subject Headings) são os sistemas de referência. Usar termos fora desses vocabulários pode dificultar a indexação.
Evite repetir palavras que já estão no título. As palavras-chave devem complementar a busca, não repetir o que o título já sinaliza.
Inclua o método principal como palavra-chave quando ele for um diferencial do estudo. “Systematic review”, “randomized controlled trial” ou “grounded theory” como palavras-chave ajudam a encontrar o artigo por design.
O abstract é a porta de entrada do seu artigo. Vale o tempo que você vai gastar nele.
Quando pedir revisão por nativo
Enviar o abstract para revisão por um falante nativo de inglês científico vale muito, especialmente se você está submetendo para um periódico de alto impacto pela primeira vez.
Revisão de inglês acadêmico é diferente de revisão de inglês geral. Um revisor que entende o estilo de escrita científica vai identificar construções que soam estranhas para leitores acadêmicos anglófonos, mesmo que estejam gramaticalmente corretas.
Serviços de revisão linguística de periódicos como Editage, Enago e American Journal Experts são opções pagas e voltadas especificamente para inglês científico. Algumas universidades brasileiras têm núcleos de apoio à publicação internacional que oferecem revisão gratuita para pesquisadores da instituição.
O Writefull e o Trinka são ferramentas de IA com foco específico em inglês acadêmico, treinadas em corpora de artigos científicos. São mais precisas do que ferramentas genéricas para esse contexto. Ferramentas como Grammarly ajudam com gramática básica mas têm menos sensibilidade para as convenções de estilo do inglês científico.
Ferramentas ajudam. Mas para um abstract de uma submissão importante, uma leitura por alguém que sabe o que estilo acadêmico em inglês significa continua sendo o melhor investimento. Faz sentido?
Perguntas frequentes
O que deve conter um abstract de artigo científico?
Qual o tamanho ideal de um abstract?
Posso escrever o abstract em português e depois traduzir para o inglês?
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