Como criar questionário no Google Forms para pesquisa
Aprenda a criar questionários no Google Forms para coleta de dados acadêmicos, com boas práticas de escala, ordem das perguntas e validade do instrumento.
O problema não é aprender a usar o Forms
A maioria das pesquisadoras sabe criar um formulário no Google Forms em menos de 20 minutos. O problema aparece antes: sem um instrumento bem construído, o formulário coleta dados que não respondem ao problema de pesquisa.
Questionário é um instrumento de coleta de dados estruturado para medir variáveis específicas relacionadas ao problema que você investiga. O Google Forms é apenas o suporte digital onde esse instrumento é aplicado. Confundir os dois é o ponto onde muita pesquisa de TCC e dissertação começa a desandar.
Este post não vai te ensinar a clicar nos menus certos. Vai te ajudar a entender o que torna um questionário válido antes de abrir o Forms.
Por que o instrumento importa mais que a ferramenta
Quando uma banca questiona um questionário, raramente o problema é técnico. O problema quase sempre é conceitual: perguntas vagas, escala inadequada ao tipo de dado que se quer coletar, ordem que induz resposta, ausência de questões que meçam o que o objetivo da pesquisa pede.
O Forms não resolve nenhum desses problemas. Ele entrega o formulário onde você quer, organiza as respostas numa planilha e até gera alguns gráficos básicos. O trabalho metodológico é anterior a tudo isso.
A diferença entre um questionário que passa na banca e um que gera questionamento está, em geral, em três decisões: o tipo de escala escolhida, a formulação das perguntas e a sequência em que elas aparecem.
Tipos de escala e quando usar cada uma
Escala é o formato de resposta de cada questão. Escolher a escala errada para o tipo de dado que você quer coletar é um erro de design do instrumento, não de análise.
As escalas mais usadas em pesquisas de ciências humanas, sociais e da saúde são:
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Escala Likert: mede grau de concordância, frequência ou intensidade. Geralmente 5 ou 7 pontos (discordo totalmente / discordo / neutro / concordo / concordo totalmente). Gera dado ordinal, não intervalar. Isso tem implicações diretas para qual análise estatística você pode usar.
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Escala nominal: categorias sem ordem entre si (masculino/feminino/outro, área de formação, cidade de residência). Dado categórico. Só permite estatísticas descritivas básicas e alguns testes não-paramétricos.
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Escala ordinal: categorias com ordem mas sem distância definida entre elas (nível de escolaridade, faixa etária em intervalos). Parecida com nominal mas com hierarquia.
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Escala intervalar/razão: dados numéricos com distância igual entre valores (idade em anos, renda em reais, número de publicações). Permite estatísticas mais robustas.
A decisão sobre qual escala usar depende do que você quer medir, não do que é mais fácil de responder. Se sua análise prevê correlações ou regressões, você precisa de escalas que gerem dados com esse nível de mensuração.
Como formular perguntas que medem o que devem medir
Validade de conteúdo é a propriedade do instrumento de realmente medir o construto que se propõe a medir. No Google Forms, ela depende de como cada pergunta foi escrita.
Alguns erros comuns e como corrigi-los:
Pergunta dupla. “Você considera que a pesquisa científica é relevante e que as universidades deveriam investir mais nela?” São duas perguntas. O respondente pode concordar com uma e não com a outra. Separe sempre.
Linguagem ambígua. “Com que frequência você usa recursos digitais para estudar?” O que é “recursos digitais”? O que é “estudar”? O que é “com frequência”? Cada respondente vai interpretar de um jeito. A pergunta não mede nada confiável.
Escala sem ponto neutro quando necessário. Se você quer saber a opinião do respondente mas inclui obrigatoriamente uma resposta de concordância ou discordância, sem opção neutra, você está forçando posicionamento onde pode não existir. Isso afeta a validade das respostas.
Perguntas com resposta socialmente esperada. “Você acha que racismo existe nas universidades públicas?” Qualquer formulação que sinalize qual é a resposta “correta” vai inflar respostas nessa direção. Redigir perguntas neutras é mais difícil do que parece.
A ordem das perguntas não é detalhe
A sequência em que as perguntas aparecem afeta as respostas. Isso está documentado na literatura de psicologia do questionário e é algo que bancas de pesquisa qualitativa e quantitativa conhecem bem.
Algumas regras que funcionam:
Perguntas de perfil (idade, escolaridade, área de atuação) geralmente ficam no início ou no fim. No início, elas contextualizam o respondente e têm baixa carga cognitiva, o que aquece a participação. No fim, elas aparecem depois que o respondente já está engajado, reduzindo abandono precoce.
Perguntas mais sensíveis ou de maior carga cognitiva ficam no meio ou no final, nunca no início. Começar com uma pergunta difícil aumenta a taxa de abandono.
Não agrupar perguntas relacionadas de forma que o respondente possa inferir a tese da pesquisa antes de completar o instrumento. Isso é chamado de viés de acquiescência: a pessoa começa a responder de forma consistente com o que percebe ser a hipótese do pesquisador, não com o que realmente pensa.
O que configurar no Google Forms para pesquisa acadêmica
Com o instrumento desenhado, a parte técnica é rápida. Algumas configurações que fazem diferença:
Respostas anônimas. Para garantir anonimato real, desative a opção de coleta de email. O Forms, por padrão, pode registrar o endereço de quem responde se a opção estiver ativa.
Resposta única por respondente. Se você não quer duplicatas, ative a opção de limitar a uma resposta por conta Google. Isso requer que o respondente esteja logado.
Progresso visível. Para questionários mais longos, ativar a barra de progresso reduz a taxa de abandono.
Confirmação de envio. Configure uma mensagem de confirmação que informe ao respondente que as respostas foram registradas e agradeça a participação. Parece pequeno, mas é uma questão de ética em pesquisa.
Seções separadas. Organize perguntas em seções temáticas com títulos. Isso ajuda o respondente a se orientar e torna a análise posterior mais clara.
Piloto: o passo que quase todo mundo pula
Antes de distribuir o questionário definitivo, aplique uma versão piloto com 5 a 10 pessoas do mesmo perfil dos seus respondentes-alvo. Peça que elas respondam e depois reportem: alguma pergunta ficou confusa, alguma instrução não estava clara, quanto tempo levou para preencher?
O piloto revela problemas que você não viu porque conhece demais o instrumento. A ambiguidade que parece óbvia para você pode ser completamente invisível para quem lê sem o contexto da sua pesquisa.
O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) tem um protocolo para construção de instrumentos que inclui essa etapa de piloto como obrigatória, não opcional. A fase de Execução Inteligente não é só aplicar o questionário; é também validar que o instrumento mede o que você precisa antes de coletar a amostra completa.
Quando o questionário não é o instrumento certo
Uma questão que raramente aparece em posts sobre Google Forms: nem toda pesquisa precisa de questionário.
Se o seu problema de pesquisa exige compreender como as pessoas constroem significado, interpretam experiências ou tomam decisões em contexto, entrevistas semiestruturadas vão gerar dados mais ricos do que escalas Likert. Se você quer mapear frequências e relações entre variáveis numa amostra grande, o questionário é adequado.
A escolha do instrumento segue a escolha do método, que segue o problema de pesquisa. Quando essa ordem se inverte e a pesquisadora começa pela ferramenta disponível, o resultado costuma ser dados que não respondem ao que a pesquisa prometeu investigar.
Para uma discussão mais ampla sobre escolha metodológica, a seção Método tem material específico sobre como tomar essas decisões a partir do problema, não da conveniência.
Um passo antes de distribuir
Antes de publicar o link do formulário, releia cada pergunta respondendo uma única questão: o que exatamente essa pergunta mede, e isso está diretamente relacionado ao meu objetivo de pesquisa?
Se você tiver dificuldade para responder isso sobre alguma pergunta, ela provavelmente não deveria estar no instrumento. Cada questão que não tem função metodológica clara só aumenta o tempo de resposta e a taxa de abandono.
Questionário bom é questionário enxuto com perguntas que fazem sentido juntas.
Perguntas frequentes
Google Forms é aceito como instrumento de coleta de dados em pesquisa acadêmica?
Quantas perguntas deve ter um questionário de pesquisa acadêmica?
Qual a diferença entre questionário e formulário no contexto da pesquisa?
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