Citação de Citação (Apud): Quando Usar e Quando Evitar
Apud é a citação da citação. Saber quando é legítimo e quando é um atalho ruim muda a qualidade da sua pesquisa bibliográfica.
Apud não é atalho, é exceção
Há uma crença silenciosa em muitos trabalhos acadêmicos de que citar alguém citando outra pessoa é uma forma válida de referenciar. É, tecnicamente. Mas a validade técnica não resolve o problema de fundo.
Apud é a expressão latina para “citado por” e indica que você está reproduzindo um argumento de um autor que você não leu diretamente, mas que apareceu citado num texto que você leu. O argumento de Vygotsky que está na sua dissertação pode ter vindo de um livro de Moreira sobre aprendizagem, não de Vygotsky lido em primeira mão.
Isso é uma coisa diferente de ler Vygotsky.
A razão pela qual muitos programas de pós-graduação, orientadores e bancas olham com desconfiança para uma lista de referências cheia de apud não é formalismo. É que a citação indireta carrega dois riscos reais: você está reproduzindo a interpretação que outro autor fez de um argumento, e não tem como saber se essa interpretação é fiel, parcial, ou contextualizada adequadamente.
O que a ABNT diz sobre citação indireta
A NBR 10520, que regulamenta citações em trabalhos acadêmicos no Brasil, orienta que a citação de citação deve ser evitada sempre que possível. O recurso deve ser usado apenas quando o documento original é de difícil acesso.
A forma de registro no texto é: Sobrenome do autor original, ano da obra original, apud Sobrenome do autor que você consultou, ano da obra consultada, e o número de página quando for citação direta.
Na lista de referências ao final do trabalho, você coloca apenas a obra que efetivamente consultou, não a obra original que não leu. Muita gente erra aqui: tenta colocar a referência completa do original e acaba criando uma referência fictícia, já que não verificou os dados da obra diretamente.
A regra prática: só entra na lista de referências o que você abriu e leu. Se você leu Moreira e ele citava Vygotsky, você lista Moreira. O apud indica no corpo do texto que Vygotsky foi citado por Moreira.
Quando apud é genuinamente justificável
Existem situações em que acessar a fonte primária é impossível ou muito difícil de forma razoável, e nesses casos o apud é a solução correta.
Obras raras ou fora de circulação que não estão digitalizadas e não existem nas bibliotecas que você tem acesso. Isso acontece com frequência em pesquisas históricas, onde a obra original tem mais de cem anos, está em uma única biblioteca física, e não há versão digitalizada disponível.
Documentos em idiomas que você não domina. Se a única fonte primária disponível está em russo ou mandarim e você não tem acesso a uma tradução e não domina o idioma, a citação via um autor que leu e traduziu é aceitável. Mas é necessário deixar isso claro.
Publicações restritas como relatórios internos de instituições, dissertações não depositadas em repositórios, ou comunicações pessoais citadas em textos publicados.
Nesses casos, o apud é honesto. Ele diz explicitamente: eu não li isso, e cito com base em quem leu. Nenhum orientador sério vai questionar um apud que veio de uma necessidade real e documentada. O problema não é o recurso, é o uso indiscriminado dele onde a fonte estava disponível.
Quando apud é preguiça disfarçada de citação
O problema está no uso rotineiro e desnecessário.
Um artigo de 2018 publicado em periódico internacional indexado, acessível pelo Portal de Periódicos da CAPES, não justifica apud. Você tem acesso. O artigo está disponível. Usou apud porque foi mais fácil pegar a referência do texto que você estava lendo do que ir buscar a fonte original.
Esse é o uso que fragiliza o trabalho.
E tem um sinal prático que aparece bastante: a pesquisadora que usou apud em excesso geralmente não sabe dizer qual é o argumento central do autor original. Sabe o que o intermediário disse sobre ele. Essa diferença aparece na defesa, às vezes de forma constrangedora.
Quando a banca pergunta “o que Fulano argumenta especificamente sobre X?”, o pesquisador que leu a fonte original pode responder com precisão, contextualizar o argumento, apontar nuances. O pesquisador que usou apud só tem o trecho que o outro autor escolheu destacar, sem saber se o argumento completo é mais complexo, mais limitado, ou diferente do que foi apresentado.
Além disso, erros de citação se propagam via apud. Se o autor que você consultou fez uma imprecisão ao reproduzir o argumento de outro, você reproduz essa imprecisão sem saber. Há casos documentados na literatura acadêmica de citações incorretas que circularam por décadas porque ninguém foi verificar a fonte original.
O que revelar muitos apud diz sobre a pesquisa
Uma lista de referências com muitos apud diz, involuntariamente, algumas coisas sobre como a pesquisa foi conduzida.
Diz que o pesquisador não foi às bases de dados. Diz que o referencial teórico foi construído lendo outros pesquisadores e absorvendo as referências que eles citavam, em vez de fazer busca bibliográfica própria. Diz que as escolhas teóricas foram feitas por conveniência, não por avaliação direta das obras.
Isso não é um julgamento moral. É uma observação sobre a qualidade da pesquisa bibliográfica. E bancas fazem essa leitura, especialmente em dissertações e teses onde a profundidade teórica é esperada.
Vale também considerar o impacto na credibilidade. Quando um avaliador externo lê uma dissertação com muitos apud, ele não consegue saber se o pesquisador domina as fontes ou apenas as copiou de uma leitura intermediária. A dúvida, quando existe, raramente favorece o pesquisador.
A regra prática que orienta pesquisadoras com quem trabalho: se o apud aparece mais de duas ou três vezes em todo o trabalho, já vale olhar com atenção. Se aparece regularmente em seções inteiras do referencial teórico, há um problema de processo de pesquisa bibliográfica, não apenas de formatação.
O hábito que resolve o problema
A raiz do uso excessivo de apud é um processo de revisão de literatura que começa nos textos que você já tem, em vez de nas bases de dados.
O processo que evita isso começa diferente: você define o problema de pesquisa, identifica os conceitos centrais, e vai às bases de dados buscar as obras que definem esses conceitos. CAPES, Scopus, Web of Science, Google Scholar. Você lê as obras identificadas, não as referências que outros autores listaram.
Quando você encontra uma citação relevante dentro de um texto que está lendo, a primeira ação é buscar a fonte original nessas bases. Na maioria das vezes, ela está disponível. Se não estiver, aí sim o apud é a solução honesta, e você usa com consciência, não por comodidade. O Portal de Periódicos da CAPES tem acesso a milhares de periódicos internacionais. Repositórios institucionais têm dissertações e teses. O Sci-Hub, em situações de ausência de acesso, ainda é amplamente utilizado por pesquisadores em todo o mundo, mesmo que a discussão sobre seus termos legais permaneça em aberto.
A fase de Velocidade do Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) é onde esse processo de mapeamento da literatura acontece antes de qualquer escrita. Você visualiza quais são os argumentos centrais que você precisa sustentar, e então vai buscar as obras que os fundamentam, diretamente. Não o contrário.
Em /metodo-voe você encontra mais sobre como estruturar esse processo de construção de referencial antes de começar a escrever. E em /recursos há materiais sobre pesquisa bibliográfica nas bases de dados disponíveis para pesquisadores brasileiros.
Perguntas frequentes
O que significa apud em referências acadêmicas?
Quando é correto usar apud em trabalhos acadêmicos?
Bancos usar apud muitas vezes prejudica minha dissertação?
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