Prova de Inglês na Seleção do Mestrado: Como Passar
A prova de inglês assusta muitos candidatos ao mestrado, mas tem lógica própria. Entenda o que é cobrado, como estudar e o que os programas realmente avaliam.
A prova de inglês que todo candidato ao mestrado teme (e não deveria)
Vamos lá. Das várias etapas que compõem a seleção para o mestrado, a prova de inglês é uma das que mais geram ansiedade desproporcionada. Candidatos que têm projetos de pesquisa sólidos, bom desempenho na graduação e entrevistas muito bem preparadas às vezes perdem pontos, ou vagas, porque subestimaram essa etapa ou porque nunca entenderam exatamente o que ela avalia.
A boa notícia é que a prova de inglês da maioria dos programas brasileiros de pós-graduação avalia uma habilidade específica e bem delimitada: a leitura de textos científicos em inglês. Não conversação. Não escrita. Não produção oral. Leitura com compreensão.
Isso muda bastante a equação de preparação.
O que a maioria dos programas realmente avalia
Cada programa define seus critérios, e você precisa verificar o edital de seleção com atenção. Mas há padrões que se repetem na maioria das instituições públicas brasileiras.
O formato mais comum é a prova de leitura e compreensão. Você recebe um texto científico em inglês, geralmente de 400 a 800 palavras, na área de conhecimento do programa ou em área adjacente, e responde perguntas em português sobre o conteúdo. As perguntas avaliam se você entendeu o argumento principal, identificou informações específicas, compreendeu o vocabulário técnico e entendeu a estrutura lógica do texto.
Repara: as respostas são em português. Você precisa ler e entender o inglês, mas a demonstração de compreensão é na sua língua. Isso é bem diferente de uma prova de produção escrita ou oral.
O segundo formato mais comum é a apresentação de certificado de proficiência. TOEFL, IELTS, Cambridge são os mais aceitos. Alguns programas aceitam certificados de cursos de extensão de determinadas instituições. Verifique a validade exigida (geralmente 2 anos) e o score mínimo, quando especificado.
Há também programas que fazem prova de tradução técnica, onde você recebe um trecho em inglês e precisa traduzir para o português. Aqui a exigência é um pouco diferente: além de compreender, você precisa produzir texto coerente em português técnico-científico.
Como estudar para a prova de leitura
Se o formato da prova do seu programa de interesse é leitura e compreensão, a preparação mais eficiente é, literalmente, ler textos acadêmicos em inglês na sua área.
Parece óbvio, mas a maioria das pessoas que vai mal nessa prova estudou gramática e vocabulário geral em inglês, não leitura de textos científicos. São habilidades diferentes. Um texto acadêmico tem estrutura específica, vocabulário técnico e padrões de argumentação que você precisa reconhecer.
O ponto de partida é o vocabulário acadêmico. Existe uma lista chamada Academic Word List (AWL), desenvolvida na Nova Zelândia por Averil Coxhead, com as palavras mais frequentes em textos acadêmicos de diversas áreas. Não é extensa, mas é o núcleo do vocabulário que vai aparecer consistentemente. Priorize essa lista antes de fazer flashcards de vocabulário geral.
Depois, o vocabulário específico da sua área. Se você vai entrar num programa de Educação, as palavras que você precisa dominar são diferentes das de quem vai entrar em Engenharia de Produção. Pegue os artigos seminais da sua área, os que todo mundo cita nas dissertações do programa que você quer entrar, e leia. Com dicionário se necessário, mas leia até que o esforço diminua.
O papel das provas anteriores
Todo candidato deveria buscar as provas de inglês de edições anteriores do programa de interesse. A maioria dos programas disponibiliza isso no próprio site, nas seções de editais e provas anteriores. Alguns também têm gabaritos.
Fazer as provas anteriores cumpre duas funções. A primeira é óbvia: familiarização com o formato. A segunda é menos óbvia: entender o nível de dificuldade que o programa considera adequado para aprovação.
Programas mais concorridos, com linhas de pesquisa que dependem muito de literatura internacional, geralmente têm provas de inglês mais difíceis. Programas com foco mais local ou com linhas de pesquisa que usam principalmente literatura em português podem ter provas mais acessíveis. Isso não é um julgamento de valor, é apenas informação útil para calibrar sua preparação.
Se o programa não disponibiliza provas anteriores no site, a associação de discentes ou ex-alunos frequentemente tem esse material. Vale entrar em contato.
O erro mais comum na preparação
O erro mais comum que vejo candidatos cometendo é tratar a prova de inglês como uma etapa separada que pode ser preparada de forma isolada, nas últimas semanas antes da seleção.
A leitura de textos científicos em inglês deveria ser uma prática contínua durante a graduação e, especialmente, durante a preparação do projeto de pesquisa para a seleção. Quando você está desenvolvendo o projeto, você está fazendo revisão de literatura. Parte significativa dessa literatura está em inglês. Se você está lendo mesmo, a preparação para a prova de inglês está acontecendo em paralelo.
O problema é quando o candidato lê os textos em inglês com o Google Tradutor aberto e nunca desenvolve a habilidade de leitura direta. O tradutor automático é uma ferramenta auxiliar, não o método de leitura. Se você sempre depende da tradução para entender, nunca treina a leitura.
Uma prática que funciona bem é o método da “primeira passagem”: antes de usar qualquer recurso de tradução, tente ler o abstract de um artigo em inglês e formular em português o que você entendeu. Mesmo que seja parcial, mesmo que incompleto. Depois use o recurso para verificar. Com o tempo, a primeira passagem fica mais completa.
Quando o certificado é exigido: TOEFL, IELTS ou outro
Se o programa exige certificado de proficiência, o processo é diferente. Você precisa se inscrever num exame oficial com antecedência suficiente.
O TOEFL iBT e o IELTS são os mais amplamente reconhecidos. O TOEFL é feito de forma online (versão Home Edition) ou em centros credenciados, e avalia leitura, escrita, audição e fala. O score mínimo que os programas aceitam varia, mas para a maioria dos mestrados brasileiros, um score de 60 a 80 no TOEFL ou 5.5 a 6.5 no IELTS já é suficiente.
A preparação para esses exames tem materiais específicos. Os sites oficiais do TOEFL e do IELTS disponibilizam testes de prática e guias de estudo. Cursos preparatórios online existem em diferentes faixas de preço, incluindo opções gratuitas em plataformas como Coursera e Khan Academy.
O ponto de atenção é o prazo. Os exames têm datas fixas, os resultados demoram de 2 a 3 semanas para chegar, e os certificados têm validade. Planeje o exame com folga suficiente para que o resultado chegue antes do prazo de inscrição do programa.
Inglês como habilidade de carreira, não só de seleção
Termino com um ponto que vale deixar claro: o inglês não é importante apenas para passar na prova de seleção. É uma habilidade central para a trajetória de qualquer pesquisador.
A maioria dos periódicos de maior impacto nas diversas áreas do conhecimento publica em inglês. Conferências internacionais acontecem em inglês. Colaborações com pesquisadores de outros países dependem de inglês. Quem não desenvolveu essa habilidade fica restrito a um universo menor de referências, publicações e conexões.
Isso não quer dizer que pesquisa de qualidade não pode ser feita em português, ou que só o que está em inglês tem valor. Não é isso. É que o inglês abre portas que o monolinguismo fecha, e quanto antes você começar a trabalhar nessa habilidade, melhor para toda a sua trajetória na pós e depois dela.
A prova de seleção é apenas um dos motivos para desenvolver essa competência. O mais importante é que ela vai continuar fazendo diferença muito depois de você ter passado pelo processo seletivo.
Se quiser ver outros aspectos do processo de seleção para o mestrado, como a preparação do projeto de pesquisa e a entrevista, há materiais específicos aqui no blog sobre como escrever um projeto de pesquisa para seleção de mestrado.