Viabilidade da Pesquisa: Como Avaliar Antes de Começar
Antes de se apaixonar pelo tema, avalie se a pesquisa é viável. Entenda quais critérios definem a viabilidade de um projeto e como checá-los antes de submeter ao processo seletivo.
O projeto que você ama mas não consegue executar
Vamos lá. Tem um tipo específico de decepção que acontece no primeiro semestre do mestrado: você percebe que o projeto que escreveu para entrar no programa não pode ser executado da forma como foi planejado.
Às vezes é o acesso. Você havia planejado fazer pesquisa com determinada população específica, e quando vai tentar, descobre que não tem como chegar até ela sem anos de construção de rede que você não tem.
Às vezes é o método. Você havia proposto uma análise que exige software que custa R$ 8.000, ou técnica que você precisaria de seis meses para aprender antes de começar a coletar.
Às vezes é o tempo. Você havia projetado uma coleta de dados que levaria dois anos, num programa de dois anos, sem considerar que a pós-graduação em si já consome parte significativa do tempo.
Essas situações são dolorosas porque acontecem depois que você já foi aprovada, já começou, já investiu. E se tivesse avaliado a viabilidade antes, com critério, algumas delas seriam evitáveis.
Os quatro critérios de viabilidade que você precisa checar
Viabilidade não é uma sensação. É uma análise. Tem critérios objetivos que você pode verificar antes de submeter o projeto, antes de se apegar demais a uma ideia.
Acesso aos dados e participantes
Você consegue chegar até os sujeitos, documentos, amostras ou bases de dados que o projeto requer?
“Conseguir chegar” significa ter uma rota realista, não teórica. Não basta saber que aquela população existe. Você precisa ter como entrar em contato, como obter consentimento, como coletar as informações que precisa dentro do prazo.
Pesquisas com populações de difícil acesso, como populações institucionalizadas, grupos com estigma social, empresas privadas, precisam de estratégias específicas de acesso que levam tempo para construir. Se você não tem esse acesso já construído ou um plano concreto para construí-lo, a pesquisa pode travar.
Pesquisas com dados secundários, como bancos de dados públicos, registros administrativos, documentos de domínio público, costumam ter viabilidade de acesso mais previsível. Mas têm outros problemas: qualidade dos dados, completude, adequação ao que você precisa investigar.
Competência metodológica
Você sabe fazer o que está propondo?
Isso não significa que você precisa dominar tudo antes de começar. Aprender é parte do mestrado. Mas existe uma diferença entre aprender um instrumento de coleta com o qual tem familiaridade parcial, e aprender do zero uma abordagem metodológica completamente nova enquanto tenta executar a pesquisa.
Se seu projeto propõe análise de redes sociais, análise de discurso, modelagem de equações estruturais ou qualquer método que você nunca usou e que requer aprendizado substancial, inclua no cronograma o tempo de aprendizado. E avalie honestamente se esse tempo cabe dentro do prazo do programa.
Cronograma realista
Decompor o projeto em etapas concretas e distribuir essas etapas num calendário real é um dos exercícios mais reveladores que você pode fazer antes de começar.
Coloque tudo: revisão de literatura, elaboração dos instrumentos, submissão ao comitê de ética, aprovação do comitê de ética, período de coleta de dados, transcrição ou organização dos dados, análise, escrita dos resultados, discussão, revisão da dissertação, banca.
Quanto tempo cada etapa leva de verdade? O comitê de ética pode levar de dois a seis meses dependendo do programa e da pesquisa. A coleta de dados com seres humanos raramente acontece na velocidade que você imagina. A escrita da dissertação, do zero à versão final, costuma tomar mais tempo do que qualquer estudante prevê.
Ao distribuir tudo num calendário, ficam visíveis as impossibilidades. Se as etapas somadas ultrapassam o prazo do programa, você precisa ou reduzir o escopo ou ajustar o método.
Recursos financeiros
Pesquisa custa dinheiro. Às vezes pouco, às vezes muito. Mas custa.
Custos que costumam ser subestimados: transporte para coleta de dados em campo, materiais de pesquisa, impressão, encadernação, tradução de instrumentos, softwares, pagamento de transcrições, custos de participação em congressos onde você pretende apresentar os resultados.
Se a pesquisa depende de financiamento para ser executada, o projeto precisa incluir um plano de financiamento, não uma esperança de que aparecerá. Bolsas de pesquisa, editais de fomento, recursos institucionais: o que existe disponível na sua área, no seu estado, no seu programa?
Viabilidade versus interesse: a tensão real
A maior dificuldade nessa avaliação não é técnica. É emocional.
Você se apaixonou por um tema. O tema tem significado pessoal, relevância social, potencial de contribuição. E agora você está descobrindo que as condições para estudar aquele tema exatamente como você imaginou não existem.
Essa tensão é real, e não adianta minimizá-la. O que ajuda é separar o tema do método. Muitas vezes o problema de viabilidade não está no que você quer estudar, mas em como você planejou estudar. Uma mudança metodológica pode tornar o mesmo tema viável.
Também ajuda pensar em longo prazo. O mestrado não é a única oportunidade de estudar aquilo que você quer. Um projeto de dissertação é uma contribuição específica num momento específico. Você pode continuar essa pesquisa num doutorado, num pós-doutorado, ao longo de uma carreira. O que não pode fazer é prometer o que não consegue entregar dentro do prazo do programa atual.
O que o Método V.O.E. tem a dizer sobre isso
No Método V.O.E., a análise de viabilidade faz parte da etapa de Visualização. Antes de começar a escrever, antes de organizar a estrutura do projeto, você precisa ter uma imagem clara do que é possível fazer.
Essa imagem não é pessimista. É realista. E realismo no planejamento é o que permite que um projeto saia do papel.
O erro mais comum de estudantes que chegam ao mestrado cheios de energia é pular a viabilidade e ir direto para o entusiasmo. Entusiasmo é necessário, mas sem viabilidade, ele vai inevitavelmente colidir com a realidade. E essa colisão é sempre mais custosa quando acontece no meio do percurso do que quando foi evitada no começo.
Como conversar sobre viabilidade com sua orientadora
Uma última nota: a avaliação de viabilidade não precisa ser solitária. Na verdade, não deveria ser.
Sua orientadora tem experiência com os obstáculos práticos da área. Ela provavelmente já viu pesquisadores planejarem coletas que nunca foram executadas, métodos que foram abandonados no meio, cronogramas que explodiram. Essa experiência é valiosa, e você pode acessá-la fazendo perguntas diretas.
“Esse cronograma é realista para um mestrado de dois anos?” é uma pergunta legítima. “Você acredita que consigo acesso a essa população dentro do prazo?” também. “O que costuma dar errado em projetos com esse tipo de delineamento?” é ainda melhor.
Perguntar essas coisas antes de começar não demonstra insegurança. Demonstra maturidade metodológica.
Faz sentido?
Uma checklist prática para avaliar sua viabilidade
Antes de finalizar o projeto, responda a estas perguntas com honestidade, não com otimismo:
Sobre o acesso: Você tem uma rota concreta para chegar aos dados ou participantes? Quem vai abrir a porta, literalmente ou metaforicamente? Esse acesso depende de outras pessoas, e você já conversou com elas?
Sobre o método: Você já usou essa abordagem antes, mesmo que parcialmente? Se não, quanto tempo de aprendizado você precisaria e onde esse tempo está no seu cronograma?
Sobre o cronograma: Você fez uma decomposição real das etapas, com estimativas de tempo baseadas em experiência própria ou de pessoas próximas, não em estimativas otimistas? Você incluiu o comitê de ética e os imprevistos?
Sobre os recursos: Você sabe quanto vai custar executar essa pesquisa? Tem esse dinheiro, ou tem um plano para obtê-lo?
Se alguma resposta revelar um problema, o momento de ajustar é agora. Antes de começar, não depois de estar no meio do percurso.
A pesquisa que você consegue executar contribui mais do que a pesquisa que você imagina mas não termina.