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Vazio Pós-Defesa: Por Que Ninguém Te Avisa?

A sensação de vazio depois de defender a dissertação ou tese é real, tem nome e tem explicação. Mas quase ninguém fala sobre isso antes de acontecer.

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Todo mundo comemora. Mas e o dia seguinte?

Olha só: existe um momento muito específico que quem passou por pós-graduação conhece, mas que raramente alguém menciona antes de acontecer com você.

É o momento em que a defesa acabou. A banca foi embora. As comemorações terminaram. E você fica sentado, talvez no dia seguinte, talvez em três dias, olhando para o seu computador, e percebe que não tem nada urgente para fazer.

Durante meses ou anos, havia sempre o capítulo atrasado, o prazo de entrega, o feedback do orientador para incorporar, o congresso que estava chegando, a qualificação para preparar. A sua vida tinha uma arquitetura de urgência que, mesmo quando era angustiante, te dava direção.

Agora essa arquitetura sumiu. E o que fica, pelo menos por um tempo, é o vazio.

O que é esse vazio, exatamente?

Não é depressão, necessariamente. Não é arrependimento. Não é sinal de que você fez algo errado.

É a resposta natural de um sistema que se organizou por anos em torno de um objetivo central e agora esse objetivo não existe mais.

Pense nisso assim: quando você começa a pós-graduação, a pesquisa invade gradualmente todos os aspectos da sua vida. Ela entra nas conversas com amigos e família. Ela define seus horários. Ela determina quais livros você lê, quais artigos você abre, quais notícias você acompanha. Ela ocupa seu sono, seus sonhos, suas manhãs.

Quando ela termina, esse espaço fica vazio de uma vez. E o vazio é desconcertante porque você não estava esperando por ele. Você estava esperando pelo alívio.

O alívio vem. Mas vem junto com o vazio.

Por que ninguém avisa?

Essa é uma das perguntas que mais escuto de quem passa por esse período. Pessoas que chegam surpresas pela sensação, que pensavam que a conclusão seria só celebração, que não tinham se preparado para a desorientação.

Existem alguns motivos pelos quais o vazio pós-defesa fica fora da conversa.

O primeiro é que quem passou por isso tende a falar do período com o filtro do presente. Você está bem agora, então é fácil minimizar o que sentiu antes: “ah, foi difícil, mas passou”. A intensidade se dilui com o tempo.

O segundo é que a academia, de modo geral, não é boa em conversar sobre as dimensões emocionais do processo científico. O que importa são as entregas, as publicações, as métricas. O que você sentiu no meio do caminho não entra nesse vocabulário.

O terceiro é mais sutil: existe uma expectativa de que defender é conquistar, e que conquista deve ser vivida com alegria. Admitir que você está se sentindo perdido depois de um momento de conquista parece contraditório, e às vezes parece fraqueza.

Mas não é. É humano.

O que acontece com a identidade

Uma das dimensões menos óbvias do vazio pós-defesa tem a ver com identidade. Durante a pós-graduação, você é “a mestranda em Educação”, “o doutorando em Direito”. Essa identidade organiza muito da forma como você se apresenta e como os outros te reconhecem.

Depois do título, você não é mais esse. Mas “a mestre em Educação” ou “o doutor em Direito” não preenche o espaço da mesma forma, porque era o processo de fazer a pesquisa que definia a identidade, não o título em si.

Quem continua diretamente para outro projeto, um pós-doutorado, um novo cargo, uma nova pesquisa, costuma atravessar esse período mais rapidamente, porque a nova identidade começa a se construir logo.

Quem fica num espaço de pausa, buscando o próximo passo, pode sentir o vazio de forma mais intensa e por mais tempo.

Nenhum dos dois é mais válido que o outro. São trajetórias diferentes, e os dois têm seus próprios desafios.

A relação com os outros muda

Mais uma coisa que acontece e que raramente se fala: as relações mudam depois da defesa.

As pessoas do seu programa, com quem você compartilhava a vida da pós-graduação, começam a se dispersar. Uns terminam, outros continuam, cada um vai para um lado. A comunidade que existia ao redor da pós tem prazo de validade.

Sua família e amigos que esperaram você “terminar” para voltar a estar presente têm expectativas de que agora você tem tempo. E você tem, mas usa esse tempo tentando se reorganizar, e isso nem sempre corresponde ao que eles imaginavam.

As relações precisam de reajuste. E isso leva tempo.

O que ajuda nesse período

Não vou te dar uma lista de cinco passos para superar o vazio pós-defesa. Mas vou dizer o que, na minha observação, tende a ajudar.

Dar nome ao que está sentindo. O vazio não é crise, mas é real. Reconhecê-lo como parte do processo de conclusão, em vez de fingir que não existe, é o primeiro passo.

Resistir à tentação de preencher o vazio com urgência artificial. A tendência de algumas pessoas é criar imediatamente uma nova lista de projetos e prazos para substituir a estrutura que a pós dava. Isso pode funcionar, mas pode também impedir que você tenha o tempo de transição que precisa.

Retomar coisas que existiam antes da pós e que ficaram em pausa. Podem ser relações, hobbies, práticas corporais, leituras por prazer. Isso ajuda a reconstruir a rotina a partir de bases diferentes da pesquisa.

E, se o vazio vier acompanhado de sintomas mais intensos, conversar com alguém de confiança e buscar apoio profissional de saúde mental são passos que fazem diferença real. Não é excesso de cuidado. É responsabilidade consigo mesmo.

O vazio e a produção: o que fazer com o trabalho agora?

Uma das questões práticas que aparece nesse período é: e a dissertação? O trabalho ficou lá, depositado no repositório. Mas o que você faz com ele agora?

Existe uma janela de tempo logo após a defesa em que transformar partes da dissertação em artigos científicos faz sentido. Quando o conteúdo está fresco, quando você ainda tem acesso à literatura com facilidade, quando o orientador ainda está disponível para colaborar.

Mas muita gente não consegue olhar para o texto nas primeiras semanas após a defesa. É pesado demais, está associado a muito esforço e a muito estresse. Isso é compreensível.

O que ajuda, se você quer publicar depois, é não deixar passar mais de 2 a 3 meses antes de pelo menos definir quais partes têm potencial para artigo e em quais revistas faria sentido submeter. Depois de seis meses, o afastamento torna o processo mais difícil, não porque o trabalho piorou, mas porque você precisará re-entrar num material que ficou parado.

Essa decisão não precisa ser tomada imediatamente depois da defesa. Mas vale marcar no calendário um momento, talvez um mês depois, para fazer essa avaliação com calma.

Ninguém avisa porque o sistema não conversa sobre isso

Vou terminar com o que acho mais importante dizer aqui.

O vazio pós-defesa não é falha do pesquisador. É, em parte, sintoma de um sistema de pós-graduação que trata a conclusão como chegada, quando na verdade ela é uma passagem. Uma passagem para o que, cada pessoa vai descobrir no seu tempo.

Se eu pudesse avisar a mim mesma antes de defender, diria: reserve espaço para esse período. Não planeje demais os dias imediatos depois da defesa. Deixa o vazio existir, porque ele vai passar, e o que vem depois dele é diferente do que você era antes de entrar na pós.

Isso é crescimento, e crescimento tem um momento de desorientação no meio.

Você vai encontrar o próximo passo. Mas o vazio é parte do caminho até lá.

Perguntas frequentes

Por que sinto vazio depois de defender a dissertação?
Porque a dissertação estruturava sua rotina, sua identidade e seus relacionamentos por anos. Quando ela termina, esse esqueleto desaparece de uma vez. O vazio que você sente é real: é o espaço que o projeto ocupava, agora sem conteúdo. É um período de transição que tem começo, meio e fim.
O vazio pós-defesa é normal ou devo buscar ajuda?
É muito comum e considerado parte da transição pós-defesa. Mas se a sensação se prolongar por semanas, vier acompanhada de outros sintomas como insônia, dificuldade de se alimentar ou perda de interesse em coisas que antes eram prazerosas, buscar apoio de um profissional de saúde mental é um passo importante.
Quanto tempo dura o vazio pós-defesa?
Varia muito. Para algumas pessoas, resolve em dias, quando a nova rotina começa a tomar forma. Para outras, pode durar semanas ou meses, especialmente se a conclusão da pós coincide com outras incertezas profissionais ou pessoais. Não há prazo certo.
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