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Universidade do Interior: A Pesquisa Que Sustenta o País

As universidades federais do interior produzem ciência que o Brasil precisa e raramente reconhece. Uma reflexão sobre o que se perde quando se ignora a pesquisa fora das capitais.

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Existe uma hierarquia não declarada na ciência brasileira

Olha só: quando alguém pergunta onde você faz pesquisa e você responde com o nome de uma universidade federal de cidade interiorana, existe uma fração de segundo de pausa na conversa. Às vezes nem isso. Às vezes é só uma leve mudança de expressão. Às vezes é uma pergunta: “ah, mas você vai tentar uma vaga em outra universidade depois?”

Essa hierarquia não está escrita em nenhum lugar. Mas todo pesquisador que passou por uma universidade fora das capitais conhece muito bem.

Quero falar sobre isso. Não para lamentar, não para construir vitimização. Mas porque o padrão de invisibilização da pesquisa do interior tem consequências reais para a ciência que o Brasil produz, e para o país que essa ciência poderia servir melhor.

O que as universidades do interior produzem

Primeiro, um dado que costuma surpreender quem nunca olhou para isso com atenção: há programas de pós-graduação com conceito 5, 6 e 7 da CAPES em cidades que a maioria das pessoas reconhece só pelo time de futebol ou pela distância de uma capital.

A UFLA em Lavras (MG), a UFV em Viçosa (MG), a UNESP em Botucatu (SP), a FURG em Rio Grande (RS), a UNIOESTE no Paraná, a UFPA em Belém e seus campi no interior do Pará. A lista é longa, e isso antes de mencionar os institutos federais que têm construído programas de pós-graduação aplicados ao desenvolvimento regional.

Essas universidades produzem pesquisa em agricultura tropical, aquicultura, biodiversidade amazônica, saúde pública em populações rurais, educação indígena, recursos hídricos, culturas regionais. Áreas em que a demanda empírica está no interior, não nas capitais.

Um pesquisador de solo fértil precisa estar perto do solo fértil. Um pesquisador de manejo florestal precisa estar perto da floresta. Um pesquisador de saúde ribeirinha precisa estar perto do rio.

A centralização da pesquisa de prestígio nas capitais, nesse sentido, não é só injustiça geográfica. É distorção epistemológica.

O problema do acesso desigual a recursos

Aqui está onde a desigualdade se torna estrutural.

Um programa de pós-graduação com conceito 5 em São Paulo recebe mais bolsas CAPES do que um programa de conceito 5 em uma cidade de 100 mil habitantes no Maranhão. Os critérios de distribuição incluem ponderação regional pelo IDHM, o que ajuda, mas não corrige a assimetria.

Acesso a financiamento de pesquisa tem viés de rede. Projetos aprovados em editais do CNPq e da CAPES têm mais chances quando os proponentes participam de redes de colaboração estabelecidas, apresentam em eventos de alto impacto, têm relações com comitês avaliadores. Pesquisadores do interior têm desvantagem estrutural em todos esses pontos: menos recursos para participar de eventos, menos visibilidade, e redes de colaboração menores.

Não estou dizendo que há discriminação explícita. Estou dizendo que o sistema favorece quem já está visível, e quem já está visível tende a ser quem está nos grandes centros.

O que se perde com isso

Quando a pesquisa do interior é invisível ou subfinanciada, algumas coisas acontecem que custam caro ao país.

Pesquisas com relevância regional não são realizadas por falta de recurso. Problemas de saúde, agricultura, infraestrutura, educação de populações fora dos centros urbanos ficam sem investigação sistemática.

Pesquisadores talentosos do interior migram para universidades metropolitanas porque é lá que estão as bolsas de produtividade, as parcerias internacionais, o prestígio. O interior perde cérebros que poderiam estar produzindo ciência para o interior.

Estudantes que poderiam fazer pós-graduação perto de casa, com custo de vida menor, não conseguem porque os programas locais têm menos bolsas, menos estrutura, e menos possibilidade de financiar sua formação.

É um ciclo. Centralização gera invisibilidade, que gera menos recurso, que gera mais centralização.

A dimensão de quem está sendo formado

Há outro ângulo que raramente entra nessa conversa: o perfil de quem acessa a pós-graduação.

Fazer um mestrado ou doutorado em outra cidade exige capital econômico (reserva para os primeiros meses, dinheiro para mudança), capital social (rede de contatos que ajuda a encontrar moradia, orientador, grupo de pesquisa) e capital cultural no sentido de estar acostumado à mobilidade como estratégia de ascensão.

Estudantes de primeira geração universitária, de cidades do interior, com família que depende de sua presença, frequentemente não têm esses capitais. Para eles, um programa de pós-graduação na própria região não é segunda opção. É única opção possível.

Quando tratamos os programas do interior como hierarquicamente inferiores, estamos dizendo indiretamente que a pós-graduação de qualidade não é para quem não pode se mobilizar. Isso tem consequências para a diversidade real do sistema de pesquisa.

Um ponto de honestidade

Quero ser direta sobre uma coisa: existe variação real de qualidade entre programas, e ignorar isso seria desonesto.

Há programas do interior com problemas sérios: orientadores sem produção bibliográfica atualizada, estrutura de laboratório deficiente, poucos parceiros para colaboração, avaliação CAPES baixa. Isso existe.

O problema não é reconhecer qualidade variável. O problema é quando o critério de qualidade é a localização geográfica, e não o que o programa efetivamente produz.

Um programa conceito 4 em cidade interiorana com orientadores ativos, boa estrutura laboratorial para a área específica, e vínculos com o contexto regional pode oferecer uma formação mais adequada para certos perfis de pesquisa do que um programa conceito 6 numa capital com orientadores sobrecarregados e menos tempo para orientar.

A avaliação precisa ser por mérito, projeto e fit, não por CEP.

O que pesquisadores do interior podem fazer

Isso não é uma questão só estrutural. Há movimentos que pesquisadores e programas do interior podem fazer.

Comunicar a pesquisa para além dos muros da universidade local. Artigos em periódicos de alto impacto, participação em eventos nacionais e internacionais, presença em redes de pesquisa temáticas. Visibilidade não aparece sozinha: precisa ser construída ativamente.

Construir colaborações estratégicas. Parceiros de pesquisa em universidades metropolitanas e internacionais não são ameaça ao trabalho local: são amplificadores. Colaborações bem estruturadas elevam o perfil de todos os envolvidos.

Documentar e publicar o que é específico da região. A pesquisa sobre biodiversidade do cerrado, saúde de populações quilombolas, manejo de recursos hídricos do semiárido, educação em contextos rurais: isso é conhecimento que ninguém fora do interior vai produzir. É ativo, não limitação.

Formar redes entre programas do interior. Isolamento é o inimigo. Quando programas de diferentes regiões colaboram, compartilham recursos, co-orientam estudantes e constroem projetos conjuntos, o efeito de rede começa a funcionar a favor.

Para fechar

A pesquisa do interior existe. Sustenta boa parte da produção científica aplicada que o Brasil precisa. E é sistematicamente invisibilizada por um conjunto de fatores estruturais que não têm a ver com qualidade.

Reconhecer isso não é vitimismo regional. É diagnóstico.

E diagnóstico precede tratamento.

Se você está considerando um mestrado ou doutorado em universidade do interior: avalie com os critérios certos. Não deixe que uma hierarquia não declarada substitua sua análise real do que o programa pode te oferecer.

Se você está dentro de um programa do interior: o que você produz importa. O fato de isso não ser sempre reconhecido é um problema do sistema, não da sua pesquisa.

Perguntas frequentes

As universidades do interior têm programas de pós-graduação de qualidade?
Sim. Há centenas de programas de pós-graduação em universidades do interior do Brasil com conceito 4, 5 e até 6 na avaliação CAPES. A presença geográfica de uma universidade fora da capital não determina a qualidade da pesquisa produzida. Muitos programas do interior têm especializações únicas, ligadas às demandas regionais, que não existem em universidades metropolitanas.
Por que as universidades do interior recebem menos visibilidade na ciência brasileira?
A visibilidade na ciência está ligada a redes de relação, presença em eventos de alto impacto, acesso a financiamento e histórico de publicações em periódicos de grande circulação. Universidades metropolitanas têm vantagem estrutural em todos esses pontos: mais bolsas, mais parcerias internacionais, maior presença em redes nacionais de pesquisa. Isso não reflete qualidade inferior da pesquisa do interior: reflete desigualdade de acesso a recursos e visibilidade.
Vale a pena fazer mestrado ou doutorado em universidade do interior?
Depende do que você está buscando. Se o programa tem orientadores na sua área, conceito adequado na CAPES, e pesquisa alinhada com seus interesses, pode ser uma excelente opção, especialmente se o custo de vida mais baixo e a menor concorrência pesarem na sua decisão. O que é preciso avaliar: a rede de relações que o programa pode oferecer, a produção bibliográfica dos orientadores, e as perspectivas de inserção no mercado acadêmico ou profissional na área específica.
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