Jornada & Bastidores

Último Dia no Laboratório: A Despedida

O que sente um pesquisador no último dia no laboratório após o mestrado ou doutorado? Um relato honesto sobre o fim de um ciclo e o que fica depois que tudo acaba.

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Aquele dia chega sem avisar direito

Olha só o que acontece com o último dia no laboratório: você sabe que ele está chegando, planeja mentalmente como vai ser, e quando ele chega de verdade, nenhum dos seus planos importa muito.

Você olha para a bancada, para a cadeira onde passou horas lendo artigos, para a janela que tinha uma vista que você nunca parou para realmente ver. Você vai embora achando que vai sentir mais do que sente. Ou que vai sentir menos do que sente.

Não tem resposta certa para esse dia. E esse post não vai te dar uma. Mas vai te dizer que o que você sentir nele vai fazer sentido, mesmo que pareça contraditório.

O laboratório como segundo endereço

Quem passa pelo mestrado ou doutorado sabe que o laboratório se torna, em algum momento, mais familiar do que a própria casa. Não porque é confortável, mas porque é o lugar onde a maior parte da vida aconteceu por anos.

É onde você estava quando recebeu o primeiro email do orientador com um retorno animador. É onde você ficou até tarde várias vezes sem perceber que passava da meia-noite. É onde você teve aquela conversa inesperada com um colega que virou orientação de vida. É onde você chorou de frustração às 15h de uma terça-feira por causa de um resultado que não fez sentido.

Esse espaço carrega memórias que não estão nas paredes: estão na rotina que você construiu ao redor dele. E quando você sai, você sai também dessa rotina.

O que as pessoas não falam sobre o fim

Todo mundo fala sobre a defesa. A banca, o nervosismo, o parabéns no final, o almoço com a família, a foto em frente ao banner. Isso é o que as pessoas conhecem.

Mas o que acontece nos dias que vêm depois? Esse é o silêncio que ninguém preenche direito.

Alguns dias depois da defesa, você acorda sem saber exatamente o que fazer com o seu tempo. A lista de tarefas que te guiou por anos desapareceu. O próximo prazo não existe mais. Tem uma liberdade aí que é bem-vinda e, ao mesmo tempo, desorientadora.

E o último dia no laboratório geralmente acontece nessa zona de transição. Às vezes você já defendeu e voltou para buscar as últimas coisas. Às vezes acontece antes, quando você entrega a versão final da dissertação e sabe que não tem mais motivo concreto para voltar.

Esse dia é o marcador físico de que o ciclo fechou. E fechou de verdade, não só no papel.

O que vai embora com você e o que fica

As coisas físicas são simples: seus livros, seus cadernos, os artigos que você imprimiu e rabiscou. Talvez uma caneca que ficou na gaveta por tanto tempo que você esqueceu que era sua. Talvez um plantinha que alguém colocou na sua mesa certa vez e você adotou sem perceber.

O resto é diferente.

Vai embora com você a capacidade de ler um texto denso com atenção. A habilidade de construir um argumento com evidências. A familiaridade com a incerteza, com o processo de não saber e continuar mesmo assim. O vocabulário de uma área inteira de conhecimento que virou parte da forma como você pensa.

E vai embora também o que você não queria levar: as inseguranças que se instalaram durante o processo, os comparativos que fez com colegas que pareciam avançar mais rápido, a autocrítica que às vezes passou do nível útil.

O que fica no laboratório são as memórias que pertencem àquele espaço específico. E um pouco da sua presença, que inevitavelmente marcou as pessoas que compartilharam aquele espaço com você, mesmo que você não tenha percebido.

A despedida dos colegas

Há algo específico na despedida dos colegas de laboratório que não se repete em outros contextos. Essas são pessoas que entenderam, sem precisar de muita explicação, o que era o seu trabalho. Que sabiam quando você estava em uma semana difícil só pelo jeito que você entrava. Que dividiram o silêncio produtivo de uma tarde de análise sem precisar preencher com conversa.

Alguns desses colegas virarão amigos de longa data. Outros você vai perder de vista em questão de meses, não por falta de carinho, mas porque a vida vai em direções diferentes. A pós-graduação cria vínculos intensos e de duração imprevisível.

Na despedida, às vezes há palavras. Às vezes só um abraço e a promessa de manter contato. Às vezes você saiu tão gradualmente que não houve um momento específico de despedida, e isso incomoda mais do que deveria.

O orientador no último dia

A relação com o orientador é uma das mais complexas e específicas que existem na vida acadêmica. Ela envolve hierarquia, dependência, admiração, frustração, gratidão, às vezes raiva, às vezes afeto.

O último dia no laboratório geralmente também é um momento de fechar esse capítulo. Alguns orientadores são emocionalmente presentes nesse momento. Outros são mais formais. Outros ainda, por temperamento ou circunstância, já foram se distanciando à medida que a sua saída se aproximava.

Qualquer que seja a forma como acontece, esse marcador de fim de relação orientadora é real. Você vai continuar sendo o pesquisador que aquela pessoa ajudou a formar. E vai carregar, de uma forma ou de outra, a marca desse vínculo.

O que vem depois

Olha, não existe fórmula para o depois. Mas existe uma coisa que ajuda: não ter pressa de saber a resposta.

A pós-graduação te treinou para ter sempre um próximo passo claro: a próxima disciplina, o próximo capítulo, o próximo prazo. Isso cria um ritmo que, quando some, deixa um vácuo que parece mais assustador do que é.

Dar espaço para não saber, por um tempo, é legítimo. Faz sentido, né? Você acabou de encerrar um ciclo que provavelmente levou entre dois e cinco anos da sua vida. Pedir que você já saiba o que vem a seguir no dia seguinte seria pedir o impossível.

O que você aprendeu no laboratório vai com você para onde você for. O Método V.O.E. surgiu exatamente dessa percepção: que as habilidades desenvolvidas na pesquisa acadêmica têm valor muito além das paredes do laboratório, e que o fim do mestrado ou doutorado não é o fim da identidade de pesquisador.

O que o espaço físico carrega

Tem algo de específico em espaços onde se trabalha por muito tempo: eles ficam carregados de significado que não é visível para quem entra de fora. Uma prateleira com artigos que você não vai mais usar. Uma tabela no quadro branco que ficou lá desde não sabe quando. O cheiro de um reagente que você nunca conseguiu identificar exatamente.

Para uma pessoa de fora, é só um laboratório vazio. Para você, é um repositório de experiências que moldaram quem você é como pesquisador.

Levar tempo nesse espaço no último dia, sem pressa, não é sentimentalismo desnecessário. É reconhecer, mesmo que silenciosamente, o quanto daquele lugar entrou em você. Isso faz parte de encerrar bem um ciclo.

A transição do laboratório para o que vem depois é uma das mais subestimadas na trajetória acadêmica. Falar sobre ela abertamente, como estamos fazendo aqui, já é parte do caminho.

Fechando

O último dia no laboratório é uma despedida de um espaço, de uma rotina, de uma versão de você que existiu naquele período. Não precisa ser dramático para ser significativo.

Carregue o que vale a pena carregar. Deixe o que ficou pesado demais. E dê a si mesmo permissão para sentir o que vier, sem precisar nomear antes de entender.

Para quem está no meio dessa transição, os posts sobre o vazio pós-defesa e sobre como é o início do ciclo da pós-graduação estão disponíveis no blog.

Perguntas frequentes

É normal sentir nostalgia no último dia no laboratório de pesquisa?
Sim. Sentir mistura de alívio, tristeza e insegurança no fim do mestrado ou doutorado é completamente normal. Esse espaço representou anos da sua vida, e encerrar esse ciclo envolve uma série de emoções que raramente cabem em uma única palavra.
O que acontece depois que você sai do laboratório ao fim do mestrado ou doutorado?
Cada trajetória é diferente. Alguns vão para o mercado de trabalho fora da academia. Outros seguem para o doutorado, pós-doutorado ou outros programas. Há quem fique um tempo sem saber ao certo qual direção tomar, e isso também é válido.
Como lidar com o sentimento de vazio após terminar a pós-graduação?
O vazio pós-pós-graduação é um fenômeno reconhecível e tem nome: alguns chamam de post-thesis blues. Faz parte do processo de transição. Conversar com outros pesquisadores que passaram por isso, dar espaço para o sentimento e construir um ritmo novo de vida são caminhos que ajudam.
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