Trello na pesquisa: como usei para organizar minha dissertação
O Trello foi parte do meu processo de escrita da dissertação. Veja como uma ferramenta simples pode transformar o caos de uma pesquisa em algo gerenciável.
Uma confissão sobre organização
Olha só: eu não sou naturalmente organizada. Digo isso porque tem muita gente que lê sobre produtividade e acha que os pesquisadores que escrevem sobre organização são assim desde sempre. Não sou.
Aprendi a me organizar porque precisei. A dissertação tem um jeito de revelar onde você está falha, e uma das minhas fragilidades era não ter um sistema para acompanhar o que estava feito, o que estava pendente e o que estava travado.
O Trello entrou na minha vida durante o mestrado. Não como solução mágica, mas como ferramenta prática que funcionou para o jeito que eu penso. Não necessariamente vai funcionar igual para você, e vou explicar por quê.
O que o Trello é e o que ele não é
Trello é uma ferramenta de gerenciamento de tarefas baseada na metodologia Kanban. A ideia central é simples: você tem um quadro, dentro do quadro tem listas, dentro das listas tem cards (cartões). Cada card representa uma tarefa. Você move o card de uma lista para outra conforme a tarefa avança.
O que o Trello não é: não é um processador de texto, não é um gerenciador de referências, não é uma plataforma de análise de dados. Ele gerencia o processo, não o conteúdo.
Muita gente tenta usar o Trello para guardar conteúdo (copiando textos, trechos de artigos, rascunhos) e aí a ferramenta fica pesada e confusa. Para guardar conteúdo, use Notion, Obsidian, ou boas e velhas pastas no computador. O Trello é para acompanhar tarefas.
Como estruturei meu quadro de dissertação
Vou compartilhar a estrutura que usou comigo. Não é a única possível, mas é uma que testei e funcionou.
Quadro principal: Dissertação
Criei listas representando os estágios de trabalho:
Lista “Backlog”: tudo que precisa ser feito, sem prazo imediato. Era para onde iam as ideias de seções a escrever, leituras a fazer, análises a rodar. Sempre que surgiam novas tarefas, elas iam para cá antes de qualquer lugar.
Lista “Esta semana”: o que eu me comprometia a avançar na semana. Não colocava mais do que conseguiria fazer. Ser realista aqui foi um aprendizado demorado.
Lista “Em andamento”: o que estava ativamente em trabalho. Raramente tinha mais de 3 cards aqui ao mesmo tempo. Mais do que isso era sinal de que eu estava saltando entre tarefas sem terminar nenhuma.
Lista “Aguardando”: cards que dependiam de algo externo. Feedback do orientador, retorno de participante da pesquisa, resposta de biblioteca. Ter essa lista separada evitava que eu ficasse confundindo “parado por decisão minha” com “parado por fator externo”.
Lista “Concluído”: o que estava feito. Não excluía os cards, movia para cá. Ver essa lista crescer ao longo dos meses era motivador de um jeito que planilhas de progresso não conseguiam replicar para mim.
O que colocava nos cards
Cada card representava uma tarefa específica, não um bloco vago como “escrever introdução”. Tarefas vagas não movem. Tarefas específicas sim.
Em vez de “escrever introdução”, os cards eram: “esboçar estrutura da introdução (1h)”, “escrever parágrafo de abertura da introdução”, “rever argumentação da justificativa”, “incorporar feedback do orientador na introdução”.
Essa especificidade parece excessiva no começo, mas faz diferença. Quando você senta para trabalhar e vê um card dizendo “escrever introdução”, é fácil abrir o documento e ficar parado. Quando o card diz “esboçar estrutura da introdução em 1h”, você sabe exatamente o que fazer.
Nos cards mais complexos, usava a descrição para detalhar: o que precisa ser escrito, quais referências consultar, o que o orientador pediu. Nunca guardei o conteúdo em si no Trello, só a orientação sobre o que fazer.
Etiquetas por capítulo e tipo de tarefa
Uma funcionalidade do Trello que me ajudou bastante foram as etiquetas coloridas. Usei duas dimensões:
Por capítulo: cada cor correspondia a um capítulo. Verde para o referencial teórico, azul para metodologia, amarelo para resultados, laranja para discussão. Assim, de relance, eu via onde estava concentrada a maior parte do trabalho pendente.
Por tipo de tarefa: criei uma segunda camada de cores para tipos de tarefa: leitura, escrita, revisão, análise, orientação. Isso me ajudou a identificar semanas em que eu estava só lendo sem escrever, ou só revisando sem avançar no texto novo.
Etiquetas demais confundem. Comecei com muitas e fui simplificando. No final, menos é mais.
O que o Trello não resolve
Preciso ser honesta aqui, porque muita gente começa a usar ferramentas novas esperando que elas resolvam o problema de produtividade. Não é assim que funciona.
O Trello não escreve por você. Não resolve bloqueio criativo. Não substitui a conversa com o orientador. Não diminui a ansiedade da pesquisa por decreto.
O que ele faz é tornar o processo visível. Quando você vê o que está pendente, o que está em andamento e o que está concluído, tem menos chance de perder tarefas e mais chance de notar onde está travando.
Isso é útil. Mas é uma ferramenta, não uma solução.
Se o problema for com a escrita em si, o Método V.O.E. trata justamente da organização do processo de produção acadêmica, não apenas do gerenciamento de tarefas. São coisas complementares.
Adaptar é a palavra-chave
O que funcionou para mim pode não funcionar para você. Sou visual e gosto de mover cards. Tem pesquisadores que preferem listas simples no papel, planilhas no Google ou documentos no Notion.
O sistema de organização certo é o que você vai usar de verdade. Um sistema sofisticado que você abandona na segunda semana é pior do que uma lista de papel que você mantém por dois anos.
Antes de adotar qualquer ferramenta, pergunte: como eu naturalmente penso e organizo? Se você pensa em listas lineares, o Trello pode ser excessivamente visual. Se você pensa em conexões e notas interligadas, o Obsidian serve melhor. Se você quer simplicidade extrema, uma planilha faz o serviço.
Teste por duas semanas. Se não estiver usando com naturalidade, mude. Não existe sistema certo para todo mundo, existe o sistema certo para você agora.
Outras formas de usar o Trello na pesquisa além da dissertação
Depois que aprendi a usar o Trello para a dissertação, comecei a aplicar em outros contextos da vida acadêmica.
Gerenciamento de artigos: criei um quadro para acompanhar artigos em escrita ou revisão. As listas eram: Ideia, Escrevendo, Revisão interna, Submetido, Em avaliação, Aceito, Publicado. Cada card tinha o título do artigo, o periódico alvo e a data de submissão. Isso me deu uma visão geral do que estava em andamento sem precisar abrir cada arquivo.
Controle de leituras: não para guardar conteúdo, mas para acompanhar o que precisava ler. Um quadro simples com listas: A ler (urgente), A ler (quando tiver tempo), Lendo agora, Lido (aguardando fichamento), Fichado. Evitava que artigos importantes ficassem perdidos em favoritos ou abas de navegador.
Preparação de aulas: para quem é professor, o Trello funciona bem para planejar disciplinas por semana ou módulo. Cada semana vira um card com o planejamento, leituras, slides e atividades.
Monitoramento de orientandos: orientadores que têm muitos alunos usam o Trello para acompanhar o estágio de cada um. Um quadro por linha de pesquisa, cards com nome do orientando e estágio atual.
A versatilidade é uma das vantagens da ferramenta. Mas de novo: o sistema só funciona se você o mantiver atualizado. Uma vez por semana, 15 minutos revisando o quadro, movendo cards, atualizando prazos. Sem esse ritual de manutenção, qualquer sistema de organização entra em colapso.
Para fechar
O Trello foi um dos elementos que me ajudou a atravessar a dissertação com mais clareza sobre onde eu estava e para onde ia. Não foi o único. Mas foi útil, e por isso compartilho.
Se você está nesse processo agora, seja no mestrado ou no doutorado, o mais importante não é a ferramenta que você escolhe. É que você tenha algum sistema para não perder o fio. A pesquisa é longa. O fio precisa estar lá quando você voltar depois de um recesso, uma semana difícil ou uma virada de perspectiva no projeto.
A organização não é burocracia. É cuidado com o processo.