Tese Engavetada: O Desperdício de Conhecimento
Milhares de teses e dissertações ficam guardadas para sempre. Esse desperdício de conhecimento tem causas concretas e consequências reais para a ciência.
O cemitério de boas pesquisas
Olha só: em qualquer repositório de universidade federal brasileira, você encontra milhares de dissertações e teses disponíveis para download. Ali estão anos de trabalho. Dados coletados com dificuldade, análises cuidadosas, contribuições genuínas para o conhecimento.
A maioria nunca virou artigo. Nunca foi apresentada além da banca. Ficou no repositório, acessada por quem passa no processo seletivo e busca literatura, depois nunca mais.
Isso é desperdício. Não no sentido de julgamento pessoal a quem defendeu e seguiu em frente, mas no sentido estrito de recursos desperdiçados: tempo de pesquisador, dinheiro de bolsa pública, anos de formação intelectual que geraram conhecimento que não circulou.
Tenho uma posição clara sobre isso e vou defender aqui.
O que acontece com uma tese depois da defesa
Imagine o cenário: você passa dois, quatro, cinco anos em um programa de pós-graduação. Coleta dados, analisa, escreve, revisa, defende. A banca aprova. Você sai aliviada e exausta.
E depois?
Para a maioria dos egressos, o que acontece depois é simples: a vida continua em outra direção. O mercado de trabalho chama, a carreira acadêmica não aconteceu ou foi possível, a energia está totalmente esgotada após a defesa. Transformar a tese em artigo parece uma tarefa para “quando der”, e quando dar… nunca dá.
Isso é compreensível. Não é culpa individual.
Mas o resultado coletivo é um cemitério de boas pesquisas. Trabalhos que poderiam informar políticas públicas, que poderiam ser referência para pesquisadores em formação, que poderiam contribuir para o avanço de uma área, dormem em repositórios digitais com zero citações.
Por que isso acontece: as causas que ninguém nomeia
Vou nomear as causas que vejo e que raramente aparecem nas análises oficiais.
Primeiro: o orientador desaparece depois da defesa. Durante o processo, o orientador está envolvido, orienta, lê, comenta. Depois da defesa, a relação frequentemente encerra. Transformar tese em artigo exige apoio editorial que a maioria dos egressos não recebeu. Quem não teve orientador que incentivou e ensinou esse passo raramente vai descobrir sozinho.
Segundo: ninguém ensina a transformar tese em artigo. São formatos completamente diferentes. A tese tem introdução longa, revisão de literatura exaustiva, metodologia detalhada. O artigo tem limite de palavras, precisa de corte radical, segue estrutura IMRaD ou o padrão da área. Um bom pesquisador pode ser habilidoso na escrita de tese e completamente perdido na adaptação para artigo. Esse processo não é ensinado nos programas.
Terceiro: o incentivo institucional é inconsistente. Programas são avaliados pela produtividade de seus docentes permanentes. O egresso que publicou a dissertação depois de sair? Só conta se ainda estiver vinculado ao programa. A maioria dos incentivos institucionais termina com o diploma.
Quarto: o mercado de trabalho brasileiro raramente valoriza publicação. Um engenheiro que fez mestrado e foi para empresa não tem nenhum incentivo profissional para publicar sua dissertação. Um professor de escola pública que fez especialização não vai ter carreira avançada publicando a pesquisa que fez. A publicação científica é valorizada na carreira acadêmica, que absorve uma fração pequena dos egressos.
O que isso custa para a ciência
Quando uma pesquisa não circula, o custo não é só do pesquisador. É do campo.
Pesquisadores que vêm depois precisam refazer levantamentos que já foram feitos, porque o resultado anterior não está acessível ou não é citável. Revisões sistemáticas ficam incompletas. Acúmulo de evidências acontece mais devagar do que poderia.
Isso não é abstrato. Em áreas como saúde pública, educação, políticas sociais, pesquisas regionais com metodologia robusta e dados locais poderiam informar decisões práticas. Quando essas pesquisas ficam no repositório sem circular, quem perde não é só o campo acadêmico. São as políticas que não foram informadas por evidência que existia.
Há também um custo para a credibilidade da pesquisa brasileira. Produzimos muita tese e dissertação. Publicamos proporcionalmente pouco em relação ao volume produzido. Isso não passa despercebido nas análises de produtividade científica.
O papel dos orientadores nessa equação
Vou dizer algo que pode incomodar.
Orientadores têm responsabilidade nesse ciclo. Não exclusiva, não total, mas real.
Um orientador que acompanha o processo de dissertação por dois anos e depois encerra a relação na defesa, sem nenhuma conversa sobre o que fazer com o trabalho, perdeu uma oportunidade importante. Não de explorar o egresso para aumentar sua própria produção. Mas de fechar o ciclo formativo.
Formar um pesquisador não termina quando o texto está aprovado. Termina quando o pesquisador sabe publicar. Quando sabe transformar o que fez em contribuição que circula.
Há orientadores que fazem isso muito bem. Que continuam a parceria depois da defesa, que co-orientam o processo de submissão para periódicos, que ensinam a lógica de revisão por pares. Esses são exceção, não regra.
E enquanto for exceção, continuaremos produzindo teses que ninguém lê.
O repositório não é suficiente
Aqui entra uma questão que precisa ser dita sem rodeios: disponibilizar a tese no repositório institucional não é o mesmo que fazer o conhecimento circular.
Repositórios são consultados principalmente por pesquisadores em formação que fazem revisão de literatura. O texto de dissertação é denso, longo, escrito para uma banca, não para um leitor externo. A maioria das pessoas que poderia se beneficiar daquele conhecimento nunca vai chegar ao repositório, e se chegar, vai ter dificuldade com o formato.
Artigo científico circula de forma diferente. Vai para base de dados, é indexado, aparece em buscas, é citado. Quando um pesquisador faz revisão sistemática, ele busca artigos, não dissertações. Quando um gestor de política pública precisa de evidência, ele raramente vai ao repositório universitário.
A diferença entre tese no repositório e artigo publicado não é só de prestígio acadêmico. É de alcance real.
O que pode mudar
Não sou ingênua sobre estrutura. Mudanças sistêmicas são lentas e dependem de vontade política institucional que nem sempre existe.
Mas há coisas que podem mudar agora, no nível do pesquisador e do orientador.
Para pesquisadores: defina antes de defender qual é o recorte da dissertação que vai virar artigo. Não depois da defesa, antes. Já esquematize o artigo enquanto ainda está no processo. Quando a defesa terminar, o esboço do artigo existe.
Para orientadores: inclua no contrato informal de orientação a conversa sobre publicação. “Vamos defender. Depois vamos enviar um artigo juntos para o periódico X.” Isso transforma a expectativa antes que a energia da defesa dissipe.
Para programas: criar mecanismos de apoio a egressos para publicação. Grupos de escrita pós-defesa, workshops de transformação de dissertação em artigo, bolsas de permanência curtas vinculadas a submissão.
Nada disso é revolucionário. Tudo isso é implementável com vontade.
Meu ponto de vista sobre quem não publicou
Antes de terminar, preciso ser direta sobre algo.
Não estou dizendo que todo pesquisador que defendeu e não publicou desperdiçou algo. Há razões pessoais, de saúde, de vida, que tornam a publicação impossível ou secundária em certos momentos. Há contextos onde seguir em frente sem olhar para a dissertação é a escolha certa para aquela pessoa.
Mas há uma diferença entre não publicar por razão real e não publicar porque ninguém ensinou como, ou porque o sistema não incentivou, ou porque a exaustão da defesa não foi acompanhada de suporte adequado.
A segunda situação é uma falha do sistema, não do pesquisador. E apontar essa falha não é para culpar ninguém que não publicou. É para mudar o sistema para que os que vêm depois tenham um caminho mais claro.
O conhecimento que você produziu importa. Merecia circular.
Se você defendeu uma dissertação ou tese e nunca transformou em artigo, vale perguntar: qual é o recorte mais forte do que você fez? Qual contribuição específica aquele trabalho trouxe que ainda não está acessível em outro lugar? Às vezes, o artigo está mais perto do que parece. Às vezes, a barreira é só não saber por onde começar.
Essa conversa tem espaço em /recursos. Não é tarde.