Scoping Review: O Que É e Como Conduzir
Entenda o que é uma scoping review, como ela se diferencia da revisão sistemática e da integrativa, e como conduzir uma com rigor metodológico.
O que é uma scoping review
Olha só: quando você quer entender o que já existe sobre um tema antes de pesquisar mais fundo, mas ainda não tem uma pergunta clínica ou empírica precisa para responder, a scoping review pode ser exatamente o que você precisa.
Scoping review, ou revisão de escopo, é um método de síntese da literatura que mapeia o alcance, a extensão e a natureza da evidência disponível sobre um determinado tema ou campo. Em vez de perguntar “qual intervenção é mais eficaz?”, ela pergunta: “O que se sabe? Quem pesquisou? Como? Onde estão as lacunas?”
O nome vem do inglês scope, que significa escopo, abrangência. A ideia central é justamente essa: delimitar e descrever o território de um campo antes de entrar mais fundo nele.
Por que a scoping review tem importância crescente
Nos últimos anos, o uso de scoping reviews cresceu muito nas ciências da saúde, na educação e nas ciências sociais. Há algumas razões para isso.
Primeiro, ela responde a uma necessidade real: em campos emergentes ou interdisciplinares, antes de fazer uma revisão sistemática rigorosa, é preciso saber se existem estudos suficientes e coerentes para isso. A scoping review faz esse diagnóstico.
Segundo, ela permite incluir tipos variados de evidência: estudos qualitativos, quantitativos, revisões anteriores, relatos de experiência, documentos de política. Isso a torna valiosa quando o campo é heterogêneo.
Terceiro, ela não exige necessariamente a avaliação formal da qualidade metodológica dos estudos incluídos, o que a torna mais ágil que a revisão sistemática em alguns contextos.
Isso não significa que ela é mais fácil de fazer. Significa que ela tem objetivos diferentes.
Como conduzir uma scoping review: o framework de Arksey e O’Malley
O framework mais utilizado para conduzir scoping reviews foi proposto por Arksey e O’Malley em 2005 e revisado por Levac e colaboradores em 2010. Ele organiza o trabalho em cinco etapas, com uma sexta opcional:
Etapa 1: Formular a pergunta de pesquisa
A pergunta da scoping review é mais aberta do que a de uma revisão sistemática. Em vez de um PICO fechado, você pode trabalhar com o PCC (Population, Concept, Context):
- P (População/Participantes): quem está sendo estudado?
- C (Conceito): qual conceito central está sendo investigado?
- C (Contexto): em que contexto a pesquisa acontece?
Exemplo: “Quais são as abordagens metodológicas utilizadas em estudos sobre o uso de inteligência artificial na escrita acadêmica por pós-graduandos brasileiros (P: pós-graduandos brasileiros; C: IA na escrita acadêmica; C: contexto nacional de pós-graduação)?
Etapa 2: Identificar estudos relevantes
Assim como em outras revisões, você precisa definir onde vai buscar e com quais termos. A busca numa scoping review tende a ser mais ampla e menos restritiva do que numa revisão sistemática — exatamente porque o objetivo é mapear, não filtrar ao máximo.
Documente: as bases de dados consultadas, as equações de busca, a data da busca e o recorte temporal. Isso é fundamental para a reprodutibilidade.
Etapa 3: Selecionar os estudos
Defina critérios de inclusão e exclusão antes de começar. Triagem em dois estágios: título e resumo, depois texto completo. Recomenda-se que ao menos dois revisores façam a triagem de forma independente e que as divergências sejam resolvidas por consenso ou por um terceiro revisor.
Registre o número de estudos em cada etapa. O diagrama PRISMA-ScR (PRISMA para Scoping Reviews) é o padrão para apresentar esse fluxo.
Etapa 4: Extrair os dados
Crie um formulário de extração com as variáveis que você precisa registrar de cada estudo. Dependendo do seu objetivo, podem incluir: autores, ano, país, delineamento, população, conceitos principais, principais achados.
A extração numa scoping review não precisa incluir avaliação de qualidade metodológica — embora você possa incluir essa etapa se quiser comparar a robustez dos estudos.
Etapa 5: Agrupar, resumir e reportar os resultados
Aqui é onde você sintetiza o que encontrou. Diferente de uma revisão sistemática que converge para uma resposta, a scoping review apresenta o panorama: quais abordagens foram usadas, quais populações foram estudadas, quais gaps existem, quais países têm mais produção, quais períodos concentram mais estudos.
A apresentação costuma combinar tabelas de caracterização dos estudos com uma análise narrativa descritiva.
Etapa 6 (opcional): Consulta com especialistas ou partes interessadas
Arksey e O’Malley preveem a possibilidade de validar os achados com especialistas da área ou com usuários do conhecimento produzido. Isso é mais comum em revisões com aplicação em políticas públicas ou em práticas clínicas.
Diferenças-chave que confundem na prática
A confusão mais comum é entre scoping review e revisão sistemática. A distinção mais prática:
Revisão sistemática: responde uma pergunta específica, avalia qualidade dos estudos, pode incluir metanálise, exige protocolo registrado (PROSPERO).
Scoping review: mapeia o campo, descreve o que existe, não avalia qualidade necessariamente, protocolo registrado é boa prática mas não obrigatório.
A confusão com revisão integrativa também acontece. A diferença central é de propósito: a revisão integrativa busca sintetizar e interpretar resultados, chegando a conclusões sobre o fenômeno estudado. A scoping review busca descrever e mapear a literatura sem necessariamente chegar a conclusões sobre efeitos ou significados.
O que acontece depois da scoping review
Uma scoping review bem conduzida não é um fim em si. Ela costuma abrir caminhos:
Identificação de lacunas: ao mapear o que existe, você vê claramente o que não existe ainda. Isso pode fundamentar a justificativa de uma pesquisa original.
Viabilidade de revisão sistemática: se você encontrou estudos suficientes e de metodologia compatível para uma revisão sistemática futura, a scoping review documenta isso.
Base para recomendações de política ou prática: em áreas aplicadas, mapear o que se sabe sobre determinada intervenção pode fundamentar recomendações mesmo sem uma revisão sistemática completa.
Clarificação conceitual: em campos onde os mesmos fenômenos recebem nomes diferentes, a scoping review pode mapear esse problema e propor uma linguagem mais unificada.
O rigor que não pode faltar
Scoping review não é um jeito mais fácil de fazer revisão de literatura. É um método específico, com objetivos específicos. O rigor está em:
- Documentar tudo (equações de busca, datas, bases, critérios de seleção)
- Apresentar o fluxo PRISMA-ScR de forma transparente
- Extrair dados de forma sistemática, não seletiva
- Relatar limitações com honestidade
Quando você usa o Método V.O.E. para estruturar a escrita da revisão, esses elementos de rigor entram naturalmente: cada afirmação sobre o campo precisa estar validada pelo que os artigos realmente dizem, organizada com coerência e encadeada para que o leitor acompanhe sua lógica.
Faz sentido? A scoping review é, no fundo, um mapa. E um bom mapa não precisa de dramatismo — precisa de precisão.