Saudade inesperada da rotina de pós-graduanda
Depois que a defesa acaba, muita gente sente falta da rotina da pós. Entenda por que isso acontece e o que fazer com esse sentimento.
Ninguém avisou que eu ia sentir falta
Olha só. A defesa terminou, a banca aprovou, o champanhe foi aberto e todos foram embora. Na semana seguinte, eu abri o computador às nove da manhã e não soube o que fazer.
Essa cena me foi descrita por várias pesquisadoras ao longo dos anos. Não é rara. Não é fraqueza. E não é ingratidão por tudo o que você conquistou. É um fenômeno real que acontece quando uma estrutura que organizou anos da sua vida de repente se vai.
A saudade da pós-graduação é inesperada porque a narrativa que nos contam é outra. Nos dizem que vamos ser livres, que vamos finalmente descansar, que a vida vai melhorar depois da defesa. E sim, várias coisas melhoram. Mas ninguém avisa que junto com o alívio pode chegar uma desorientação genuína.
O que exatamente você sente falta
Quando as pessoas descrevem essa saudade, raramente é das noites sem dormir antes do prazo ou das crises com o orientador. É de outras coisas, mais sutis.
A rotina com propósito claro. Na pós, você sabia o que tinha que fazer. Ler, escrever, coletar dados, analisar, revisar. A agenda tinha um sentido. Depois da defesa, a liberdade pode parecer, paradoxalmente, um pouco vazia.
O pertencimento a um grupo. O laboratório, o grupo de pesquisa, os colegas de programa que entendiam seu tema mesmo sem perguntar. Essa rede some ou enfraquece rapidamente depois que você sai.
A identidade de pesquisadora. Durante anos, quando alguém perguntava o que você fazia, você dizia: “Estou fazendo mestrado” ou “Sou doutoranda em tal área”. Isso definia você em vários contextos. Depois da defesa, essa identidade fica em suspensão por um tempo.
A sensação de estar dentro de algo maior. A pesquisa te conectava a um campo, a uma conversa que acontecia há décadas. Você fazia parte disso. Sair da pós pode parecer sair dessa conversa.
Por que esse sentimento não faz sentido pra você (mas faz)
Quem sente saudade da pós costuma se culpar por isso. “Mas eu sofri tanto. Eu pedi pra acabar. Por que estou com saudade?”
Faz sentido ter os dois ao mesmo tempo. A pós pode ter sido muito difícil e você pode sentir falta dela. Não são sentimentos que se cancelam.
Sofrimento e significado coexistem. Coisas que nos custam muito costumam ser as que mais nos formam. Sair de um processo assim inevitavelmente deixa uma marca, um espaço que antes estava preenchido.
Isso não é sinal de que você deveria ter ficado mais tempo. Não é sinal de que sua vida atual é ruim. É só a adaptação natural a uma mudança real.
O que acontece com a identidade depois
Uma coisa que muita gente não espera: a crise de identidade que pode vir depois da defesa.
Durante a pós, você estava em formação. A identidade de “mestranda” ou “doutoranda” é uma identidade em trânsito que tem uma data de encerramento clara. Quando ela chega, você precisa construir uma nova.
Isso é especialmente intenso para quem foi diretamente para a pós depois da graduação, sem grande experiência profissional anterior. A vida adulta profissional fora da academia pode parecer um território estranho, com regras diferentes e menos claras.
Mesmo quem já trabalhava antes sente isso. Porque a pós-graduação não era só mais uma atividade. Era uma identidade inteira.
Quando a saudade se confunde com tristeza
Tem uma diferença entre sentir falta de algo bom que passou e estar em sofrimento real.
Sentir falta, ter dias mais lentos, precisar de um tempo para se readaptar. Isso é normal e costuma passar à medida que você constrói uma nova rotina.
Mas se a saudade da pós vem acompanhada de dificuldade para funcionar no dia a dia, perda de interesse em coisas que antes importavam, ou sensação persistente de que nada tem sentido, isso pode ser algo que merece atenção profissional. Um psicólogo que trabalhe com transições de vida pode ajudar a nomear e traversar isso com mais suporte.
Não estou falando em alarme. Estou falando em cuidado. Existe uma diferença.
Como criar estrutura depois da pós
A boa notícia é que a estrutura que você sente falta pode ser recriada. Diferente, mas funcional.
O que costuma ajudar:
Criar uma rotina de trabalho com horários definidos, mesmo que você esteja em casa ou numa fase de transição. A pós tinha horários. A vida depois também pode ter.
Manter algum vínculo com a leitura e a escrita. Não precisa ser dissertação. Pode ser um artigo a partir da pesquisa, um blog, uma resenha, uma contribuição para um grupo de estudos. O importante é manter o músculo ativo.
Buscar novas comunidades. A rede da pós foi embora parcialmente, mas existe vida intelectual fora do programa. Grupos de pesquisa, associações da área, eventos, colegas de outras instituições.
Ter projetos com prazo. A pós tinha deadlines. Eles eram estressantes, mas também eram estruturantes. Ter metas com data ajuda a sair do modo de deriva.
O que a pós realmente deixou
Olha só o que não vai embora quando a defesa termina: a capacidade de ler crìticamente, de produzir argumento, de tolerar incerteza por tempo suficiente para encontrar uma resposta, de trabalhar com autonomia em projetos longos e complexos.
Essas são habilidades que você construiu ao longo de anos. Elas não ficam na sala de defesa quando você vai embora.
A saudade, quando aparece, é um sinal de que o que você viveu foi real e importou. Não precisa ser tratada como problema a resolver. Pode ser recebida como o reconhecimento de que você esteve presente num período significativo.
E depois que esse reconhecimento assentar, você vai encontrar o próximo passo. Geralmente não se parece com o anterior. Mas carrega tudo que você aprendeu fazendo o anterior.
Se quiser conversar mais sobre transições na vida acadêmica e o que vem depois da pós, tem bastante material também na página sobre o Método V.O.E. e nos recursos disponíveis aqui.
A saudade da pós e a identidade profissional
Tem uma camada a mais que vale mencionar, especialmente para quem saiu da pós para o mercado de trabalho fora da academia.
Na pós, mesmo quando tudo estava difícil, havia uma clareza sobre o que você estava fazendo e por quê. A pesquisa tinha um problema a resolver, uma contribuição a dar, uma banca que ia avaliar. Essa estrutura de significado e accountability era pesada, mas também era organizadora.
Quando você entra num emprego formal depois da pós, nem sempre encontra essa mesma estrutura de significado. Às vezes o trabalho é bom, bem pago, mas a pergunta “pra quê isso tudo?” fica mais difusa. E aí a saudade da pós pode vir misturada com uma inquietação mais profunda sobre o que você quer fazer com o que sabe.
Isso não significa que você deveria voltar para a academia. Significa que vale se fazer a pergunta: “O que eu preciso do meu trabalho para que ele tenha sentido pra mim?” Pode ser autonomia. Pode ser contribuição visível. Pode ser aprendizado contínuo. A resposta é diferente pra cada pessoa.
Saudade de quê, exatamente?
Às vezes ajuda fazer um exercício um pouco mais cirúrgico. Em vez de “sinto saudade da pós”, tentar especificar:
Você sente falta da escrita? Isso é solucionável. Você pode continuar escrevendo, sobre a sua área, sobre outros temas, no contexto do trabalho ou fora dele.
Você sente falta dos colegas de programa? Isso aponta para uma necessidade de comunidade intelectual que pode ser buscada em outros formatos. Grupos de leitura, redes profissionais, eventos da área.
Você sente falta da sensação de estar aprendendo algo novo todo dia? Isso pode ser replicado com cursos, projetos novos, ou até um retorno à pós num nível diferente.
Você sente falta do status de estar dentro de um processo reconhecido? Essa é a parte mais delicada. Status acadêmico é real, mas é também uma armadilha quando se torna o principal motivo para querer ficar. Vale olhar para isso sem julgamento.
A distinção importa porque cada tipo de saudade aponta para uma necessidade diferente. E necessidades têm soluções, mesmo fora do ambiente onde você as descobriu.
O timing da saudade: quando ela aparece mais forte
Uma observação que ouço bastante: a saudade não costuma aparecer logo depois da defesa. Nos primeiros meses, o alívio domina. A exaustão domina. Você dorme melhor, respira mais fundo, faz coisas que não fazia há anos.
A saudade costuma aparecer depois. Seis meses, um ano depois da defesa. Quando a adrenalina baixou, quando a novidade do “depois” passou, quando a vida nova já não é mais nova.
Faz sentido. É nesse ponto que você percebe o que ficou para trás. Não porque a vida nova seja ruim, mas porque o contraste aparece quando o brilho da novidade diminui.
Saber disso pode ajudar a não se assustar quando o sentimento aparecer. Não é uma recaída. Não é sinal de que você tomou a decisão errada. É a adaptação natural a uma mudança de longo prazo.
Você não precisa resolver isso rápido
Uma última coisa. A cultura de produtividade que a academia tanto reforça tende a fazer a gente querer resolver sentimentos como se fossem problemas de pesquisa. “Identifiquei o problema, preciso da solução, vou implementar o protocolo.”
A saudade não funciona assim. Ela precisa de tempo para se acomodar. Para se transformar em algo que você carrega com mais leveza.
Não precisa estar completamente resolvida para você seguir em frente. Você pode estar com saudade e ao mesmo tempo construindo algo novo. Esses dois movimentos não são incompatíveis.
O que a pós te ensinou sobre habitar incerteza, sobre trabalhar com o que ainda não tem resposta, sobre continuar mesmo quando não está claro, tudo isso serve aqui também. Só que dessa vez o objeto de estudo é a sua própria transição.
Faz sentido? Espero que sim.