Saudade do Brasil durante o Intercâmbio de Pesquisa
Sentir saudade do Brasil durante o doutorado sanduíche ou intercâmbio de pesquisa é real. Entenda por que acontece e o que ninguém te conta sobre esse processo.
O que ninguém conta antes de você embarcar
Vamos lá. Você passou pelo processo seletivo, obteve a bolsa, fez as malas, embarcou. O projeto era claro, o supervisor lá fora pareceu acolhedor, a universidade era boa. Tudo certo.
Aí chegou a primeira semana de novembro, uma noite de quinta-feira, chovendo lá fora, você com o laptop aberto e uma xícara de chá que você não pediu porque queria café mas ali o café é diferente, e bateu.
Saudade.
Não a saudade bonita que aparece nos textos sobre intercâmbio. Aquela outra. A que aperta o peito às 22h quando todo mundo foi embora do escritório. A que faz você olhar o Instagram e ver foto de churrasco de família e pensar que você precisaria de três conexões e 28 horas para estar ali.
Essa saudade existe. E por alguma razão, quase ninguém fala sobre ela antes de você embarcar.
Saudade não é fraqueza, é desorientação
A primeira coisa que eu quero dizer é: sentir saudade intensa durante um intercâmbio de pesquisa não é sinal de que você não estava pronta. Não é ingratidão. Não é fraqueza.
É desorientação.
Você saiu de um contexto onde você sabia quem era, como as coisas funcionavam, onde ficava o banheiro, quem você podia chamar de última hora para tomar um café. E foi parar em um lugar onde tudo isso precisa ser reconstruído do zero. E você ainda precisa produzir. Apresentar. Publicar. Ser excelente.
Isso é muito. O cérebro humano não foi desenvolvido para fazer tudo isso de uma vez com leveza.
O que muita pesquisadora vive no exterior é o que em psicologia se chama de choque cultural, que tem fases. A euforia do começo (tudo é novo e interessante), a desilusão (as diferenças começam a pesar), a adaptação gradual, e finalmente a integração. Só que a fase de desilusão, que é quando a saudade pesa mais, costuma coincidir com o período em que a cobrança acadêmica aumenta. Cruel, né?
O que essa saudade costuma sentir
Não é sempre homesickness no sentido do lugar físico. Às vezes é outras coisas.
Saudade de ser entendida sem esforço. Lá fora você precisa explicar piadas. Você precisa pensar antes de falar. Você está sempre traduzindo, não só o idioma, mas a cultura, os contextos, as referências. Isso cansa de um jeito que é difícil de explicar para quem não viveu.
Saudade da informalidade brasileira. Em muitos países europeus e norte-americanos, os colegas são educados, eficientes, mas formais. Você passa o dia inteiro em reuniões e almoços e vai embora sem ter tido uma conversa de verdade. Isso pode parecer frescura, mas para quem cresceu em uma cultura de calor humano e vínculo, é um isolamento real.
Saudade da comida. Isso parece trivial mas não é. Comida é memória afetiva. Comida é pertencimento. Você pode estar em uma cidade lindíssima e sentir falta de um simples pão de queijo com café preto.
Saudade da família, especialmente em momentos específicos. Aniversários que você perdeu. Um dia difícil que você não pôde abraçar. A chegada de um sobrinho que você vai conhecer seis meses depois.
O que piora (e o que alivia)
Piora: ficar comparando tudo o tempo todo. Brasil versus país X. Às vezes você está só acumulando evidências de por que o Brasil é melhor em tudo, o que eventualmente vai te fazer sentir que desperdiçou tempo indo embora. E às vezes você está só acumulando evidências de por que você não aguenta mais e quer ir embora logo. Nenhum dos dois te ajuda a viver bem onde você está.
Piora: se isolar para “focar na pesquisa”. A solução para a saudade não é trabalhar mais. Trabalhar mais vai te esvaziar, e o vazio vai virar espaço para a saudade crescer. Você precisa de vida fora do laboratório ou da biblioteca.
Alivia: criar rotinas que ancoram. Não tem como exagerar nisso. Rotina dá estrutura em um contexto onde tudo mudou. Pode ser um horário de acordar, um lugar para tomar café, um percurso a pé, um dia específico para falar com a família.
Alivia: encontrar a comunidade brasileira local. Pode parecer um retrocesso, como se você tivesse ido para outro país só para ficar com brasileiros. Mas não é. Você está fazendo pesquisa lá fora, não uma prova de independência cultural. Encontrar pessoas que compartilham referências te recarga para interagir melhor com todos os outros.
Alivia: dar um nome para o que você sente. Às vezes a saudade fica difusa, vira um mal-estar geral que você não sabe nomear. Quando você consegue dizer “estou com saudade, isso é o que está pesando hoje”, fica mais fácil de atravessar sem confundir com outras coisas.
Saudade e produtividade podem coexistir
Aqui tem uma coisa que eu quero deixar claro: você não precisa resolver a saudade para ser produtiva na pesquisa. Elas podem coexistir.
Você pode escrever um bom capítulo de tese numa tarde e chorar de saudade à noite. Você pode ter uma apresentação excelente na universidade parceira e ligar para a mãe logo depois em frangalhos. Você pode amar a experiência do intercâmbio E sofrer com a distância ao mesmo tempo.
A narrativa de que o intercâmbio precisa ser só crescimento, descoberta e gratidão é incompleta. A experiência real tem texturas que incluem dificuldade. E tudo bem.
O problema aparece quando a saudade vira isolamento prolongado, quando você para de interagir, quando deixa de cuidar de si, quando a qualidade do sono e da alimentação cai sem recuperação. Aí é momento de buscar apoio profissional. Muitas universidades no exterior oferecem serviços de saúde mental para pesquisadores visitantes. Usar esse recurso não é fraqueza. É inteligência.
O que o intercâmbio te ensina que a saudade embala
Tem uma coisa interessante que acontece no processo. A saudade do Brasil, quando você para de brigar com ela, começa a te ensinar coisas sobre você que você não sabia.
Te ensina de onde você vem de verdade. Não no sentido abstrato, mas no sentido concreto: quais são seus vínculos mais fundamentais? O que você carrega de forma que não percebeu? Que tipo de contexto te faz florescer?
Te ensina o que você valoriza que não é óbvio. Às vezes você vai descobrir que sente mais falta de algo que achava banal do que de coisas que julgava importantes. Isso diz muito sobre quem você é.
E, curiosamente, te ensina a pesquisar com mais empatia. Pesquisadores que passaram por experiências de deslocamento costumam ter mais sensibilidade para entender situações de pessoas que também viveram entre mundos: migrantes, refugiados, comunidades diaspóricas. Sua vivência de estar de fora tem valor metodológico, quando processada com atenção.
De volta ao Brasil: uma outra saudade
Tem uma ironia gentil que muita pesquisadora só descobre depois: quando você volta do intercâmbio, você pode sentir saudade do lugar de lá.
Você volta para o Brasil e estranha o caos, o calor, o volume, a velocidade das interações. Você está reaprendendo a pertencer. É a saudade ao contrário.
Isso também é parte do processo. E também passa.
O que fica é uma versão de você que viveu os dois mundos. Que sabe que dá para existir fora do Brasil e que também sabe o que significa voltar. Isso não tem preço.
Se você está agora no meio da experiência, sentindo o peso da distância, e quer entender como outras pesquisadoras atravessaram momentos assim, dá uma olhada no sobre aqui do blog. Parte do que move esse trabalho nasceu exatamente desses atravessamentos.
E se você está se preparando para um intercâmbio, guarda isso: você vai sentir saudade. E vai sobreviver a ela. E ela vai fazer parte da sua história de pesquisadora.