Relato de Experiência em Enfermagem: Como Estruturar
Relato de experiência é um tipo de publicação legítimo na enfermagem, mas tem regras. Entenda como estruturar, onde publicar e como evitar os erros mais comuns.
Relato de experiência não é “artigo fácil”
Vamos lá. Existe uma percepção equivocada no meio acadêmico de que relato de experiência é o tipo de publicação para quem não tem dados “de verdade”. Como se fosse uma categoria menor, mais simples, para quando você não consegue fazer uma pesquisa empírica completa.
Não é bem assim.
Um relato de experiência bem feito exige reflexão crítica real, sustentação teórica sólida e capacidade de extrair da vivência concreta algo que seja útil além daquele contexto específico. O que diferencia um relato de experiência de um texto narrativo qualquer é exatamente essa capacidade de articular o vivido com a teoria e com a prática mais ampla da área.
Na enfermagem, esse tipo de publicação tem espaço garantido porque muito do conhecimento clínico relevante se constrói a partir da prática. E porque a prática, quando documentada com rigor, pode ensinar coisas que estudos controlados não conseguem capturar.
O que caracteriza um relato de experiência
Um relato de experiência descreve uma vivência específica — uma experiência educacional, uma prática assistencial, uma estratégia de cuidado implementada, um processo de formação — e a analisa criticamente à luz da literatura.
A diferença central em relação a outros tipos de artigo é que não há grupo controle, não há coleta sistemática com instrumento validado, não há generalização estatística. A validade vem de outro lugar: da profundidade da reflexão, da pertinência do referencial teórico usado para interpretar a experiência, e da clareza com que o aprendizado gerado pode ser relevante para outros contextos.
Faz sentido? Não é ausência de rigor. É um tipo diferente de rigor.
Quando um relato de experiência faz sentido
Nem toda experiência merece (ou consegue) virar um relato de experiência publicável. Alguns sinalizadores de que a sua experiência tem potencial:
Ela gerou uma aprendizagem inesperada ou contraintuitiva que pode ser útil para outros profissionais. Uma estratégia que funcionou diferente do esperado, uma complicação que foi resolvida de forma criativa, um protocolo que precisou ser adaptado a um contexto específico.
Ela documenta uma prática inovadora ou pouco descrita na literatura. Se você e sua equipe desenvolveram uma abordagem de cuidado que não está bem documentada nas publicações existentes, registrar isso tem valor.
Ela tem conexão com questões que a área está discutindo. Um relato sobre desafios na implementação de boas práticas em contextos de baixa renda, por exemplo, dialoga com debates que estão vivos na literatura.
O que não sustenta um relato publicável: “foi uma experiência marcante para mim” sem que haja reflexão analítica sobre o que essa experiência revela sobre a prática de enfermagem de forma mais ampla.
A estrutura mais usada
Não existe um formato único mandatório para relatos de experiência, mas a maioria das revistas da área espera uma estrutura próxima a esta:
Introdução. Contextualiza a experiência, apresenta a relevância do tema para a área e anuncia o objetivo do relato. Precisa deixar claro: de que experiência se trata, em que contexto aconteceu, por que vale a pena documentá-la.
Descrição da experiência. Apresenta o cenário, os protagonistas (sem identificação de pacientes, se for o caso), as ações desenvolvidas, o período. É a seção mais narrativa, mas não pode ser só narrativa — os fatos devem ser apresentados de forma organizada e seletiva, não como um diário de bordo.
Reflexão crítica. Aqui é onde o relato de experiência mostra sua força — ou sua fraqueza. Essa seção articula o que foi vivido com o referencial teórico. O que a teoria diz sobre o que você observou? Onde sua experiência confirma, contradiz ou matiza o que a literatura apresenta? Quais limitações da experiência precisam ser reconhecidas?
Considerações finais. Sintetiza os aprendizados, aponta contribuições para a prática e pode indicar questões que merecem estudos mais aprofundados. Não é espaço para afirmações grandiosas — é espaço para conclusões proporcionais ao que a experiência permite afirmar.
Referências. Seguindo o estilo da revista — geralmente Vancouver para revistas biomédicas e de enfermagem, ou ABNT para algumas revistas brasileiras.
O referencial teórico: por que ele importa tanto
Aqui está um dos pontos que mais distingue um relato bem construído de um texto que vai ser rejeitado na revisão editorial.
O referencial teórico não é enfeite. Ele é o que permite que sua experiência particular dialogue com o conhecimento acumulado da área. Quando você descreve uma estratégia de educação em saúde que funcionou, o leitor quer saber: com que teoria de aprendizagem isso se conecta? Quais estudos similares já foram publicados? Como sua experiência se relaciona com o que se sabe?
Isso também é onde o uso de IA precisa de atenção. Ferramentas como ChatGPT podem sugerir referências para um tema — mas essas referências podem ser inventadas (o fenômeno chamado de “alucinação”). Para um relato de experiência, em que a base teórica é especialmente importante, verificar cada referência antes de incluir é obrigatório. Busque os artigos citados nas bases — PubMed, LILACS, BVS, SciELO — antes de incluir qualquer citação que você não conhece diretamente.
Sobre ética e dados de pacientes
Esse é um ponto que não dá para tratar de forma superficial.
Se o seu relato de experiência inclui qualquer informação que possa identificar pacientes — nome, leito, diagnóstico específico, características que tornam a identificação possível em contextos pequenos — você precisa de aprovação do CEP e de TCLE assinado.
Muitas revistas pedem a declaração de aprovação ética mesmo quando o relato não envolve dados de pacientes diretamente, como garantia de que a experiência foi conduzida dentro de princípios éticos. Verifique as instruções para autores da revista onde você pretende submeter.
Essa verificação deve acontecer antes de começar a escrever, não depois. Alguns processos de aprovação ética demoram semanas ou meses.
Onde submeter na área de enfermagem
As principais revistas brasileiras que aceitam relatos de experiência em enfermagem incluem:
Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn). Uma das mais antigas e conceituadas da área. Indexada no SciELO, MEDLINE/PubMed e outros. Aceita relatos de experiência como “relato de caso” ou “relato de experiência” dependendo do tema.
Escola Anna Nery. Foco em cuidado, educação e gestão em enfermagem. Tem histórico de publicação de relatos de experiência educacional.
Texto & Contexto Enfermagem. Indexada na Scopus. Publica relatos quando têm forte fundamentação teórica.
Cogitare Enfermagem. Aceita relatos de experiência com foco em prática e inovação assistencial.
REME – Revista Mineira de Enfermagem. Aceita relatos de experiência com reflexão crítica sobre a prática.
Antes de submeter a qualquer uma dessas, leia as instruções para autores com atenção. Limite de palavras, quantidade de autores, exigências éticas, estilo de citação — tudo varia.
Quando a IA pode (e não pode) ajudar
Ferramentas de IA podem ajudar na revisão gramatical do texto, na identificação de problemas de coesão e clareza, e na formatação das referências. Isso é uso legítimo e eficiente.
O que a IA não pode fazer pelo seu relato: construir a reflexão crítica. A articulação entre o que você viveu e o que a teoria diz precisa vir de você — é o núcleo do trabalho intelectual do relato. Um texto em que a reflexão crítica foi gerada por IA sem revisão crítica real vai parecer genérico, descolado da experiência concreta que você está descrevendo.
Além disso, verifique a política da revista sobre uso de IA. Periódicos como REBEn e Texto & Contexto têm exigido declaração sobre uso de IA na preparação do manuscrito, seguindo as diretrizes do ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors).
Antes de enviar
Um checklist rápido para o momento antes da submissão:
Verificou se a revista aceita relatos de experiência? (Nem todas aceitam.) Verificou se precisa de aprovação do CEP para o seu caso? Leu artigos recentes publicados na mesma revista para calibrar o nível e o tom esperados? Fez a revisão das referências — todas existem e são as que você cita? O título é claro e específico sobre o que o relato descreve? A seção de reflexão crítica vai além da descrição e realmente analisa?
Se você está desenvolvendo um relato de experiência como parte de um trabalho maior — dissertação, pesquisa institucional, relatório técnico — o Método V.O.E. pode ajudar a organizar o processo de escrita de forma que cada texto sirva a mais de um propósito ao mesmo tempo.