Método

Quarto para Publicação Científica: Primeiros Passos

Conheça o Quarto, ferramenta para criar documentos científicos reproduzíveis com R e Python, e entenda quando vale a pena aprender para sua pesquisa.

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Uma ferramenta para quem trabalha com dados e texto ao mesmo tempo

Faz sentido? Você está escrevendo o capítulo de resultados da sua dissertação. Tem uma análise em R que gera uma tabela de frequências. O que você faz? Copia os números da tela, cola no Word, formata a tabela manualmente, e reza para não ter cometido nenhum erro de transcrição.

Quando você revisa a análise e os números mudam, o processo começa de novo.

O Quarto foi criado para resolver exatamente esse problema. Ele é um sistema de publicação científica onde o código da análise e o texto narrativo convivem no mesmo arquivo. Quando você renderiza o documento, o código roda, os resultados aparecem integrados ao texto, e a tabela que você “montou manualmente” se atualiza automaticamente.

Para pesquisadoras que trabalham com dados quantitativos em R ou Python, isso muda bastante a lógica de trabalho.

O que é o Quarto e de onde ele veio

O Quarto é desenvolvido pela Posit (antiga RStudio) e lançado em 2022 como sucessor do R Markdown. A diferença principal em relação ao R Markdown é que o Quarto suporta múltiplas linguagens de programação, não apenas R, e tem uma sintaxe mais consistente para formatação.

Ele funciona com uma lógica simples: você escreve texto em Markdown (uma linguagem de marcação leve, muito mais simples que HTML), intercalado com blocos de código que serão executados durante a renderização. O resultado final pode ser um documento em PDF, HTML, Word ou outros formatos.

Para quem nunca ouviu falar de Markdown: é a mesma linguagem que o WhatsApp usa quando você coloca asterisco em volta do texto para deixar em negrito. Dois asteriscos de cada lado para negrito, um asterisco para itálico, hashtag para título. Simples assim.

Para quem o Quarto faz mais sentido

Antes de investir tempo aprendendo, vale avaliar se o Quarto é adequado para o tipo de pesquisa que você faz.

O Quarto faz mais sentido para pesquisadoras que trabalham com análises em R ou Python e precisam integrar esses resultados ao texto de forma reproduzível. Pesquisas em ciências exatas, biológicas, econômicas, ou qualquer área com análise quantitativa robusta se beneficiam mais diretamente.

Para pesquisas qualitativas em ciências humanas e sociais, onde o texto narrativo é o principal produto e não há código de análise para executar, o Quarto tem menos vantagem direta sobre o Word. Você pode escrever com Markdown e gerar PDFs com formatação consistente, mas a curva de aprendizado pode não compensar se o objetivo é apenas formatação.

A pergunta relevante é: você tem código de análise que precisa estar sincronizado com o texto? Se a resposta for sim, o Quarto é uma ferramenta que vale aprender. Se não, o Word com estilos bem configurados pode ser suficiente.

Como o Quarto se integra ao RStudio e ao VS Code

O Quarto funciona com o RStudio (o ambiente mais comum para pesquisadoras que usam R) e com o VS Code (editor de código muito popular para Python e outras linguagens).

No RStudio, a integração é nativa. Você cria um arquivo .qmd (formato do Quarto), escreve texto e código nos blocos apropriados, e clica em “Render” para gerar o documento final. O resultado aparece na aba Viewer ou é salvo como arquivo PDF/HTML.

No VS Code, é necessário instalar a extensão do Quarto, mas o processo é igualmente direto depois dessa configuração inicial.

Para quem já usa R no RStudio e conhece R Markdown, a transição para Quarto é bastante suave. A sintaxe é similar, e o Quarto tem documentação excelente em inglês e recursos crescentes em português.

Primeiros passos práticos

Se você quer experimentar o Quarto, o caminho mais direto é:

Instalar o Quarto: o instalador está disponível em quarto.pub (é gratuito e de código aberto). Se você usa RStudio, ele já vem com Quarto integrado nas versões mais recentes.

Criar um arquivo .qmd: no RStudio, New File > Quarto Document. Vai abrir um template com exemplos de texto e código.

Entender a estrutura básica: no topo do arquivo fica o cabeçalho YAML (similar ao frontmatter de blogs), onde você define título, autor, data e formato de saída. Depois vem o corpo do documento com texto em Markdown e blocos de código.

Renderizar: clique em “Render” e o Quarto processa tudo e gera o documento final.

Os primeiros documentos vão ser experimentais. Não comece com sua dissertação. Comece com um relatório pequeno, um capítulo isolado, ou um exercício de análise que você já tem pronto.

O argumento da reprodutibilidade

O maior argumento para usar Quarto em pesquisa científica não é conveniência. É reprodutibilidade.

Quando o código de análise e o texto narrativo estão no mesmo arquivo, qualquer pessoa com o arquivo e os dados originais pode reproduzir toda a análise do começo ao fim. Isso é um padrão cada vez mais valorizado em ciência aberta e em algumas áreas já é exigência de publicação.

Além disso, quando você revisita sua própria pesquisa seis meses depois e precisa ajustar algo na análise, tudo está no lugar. Não há risco de a tabela no texto ser de uma versão da análise e o código rodado ser de outra versão.

Para dissertações e teses com componentes quantitativos, essa consistência entre análise e texto é uma contribuição real para o rigor do trabalho.

O Método V.O.E. aborda a organização do processo de pesquisa de forma ampla, incluindo a escolha das ferramentas. E se você quiser explorar mais sobre ferramentas para pesquisa acadêmica, a seção de recursos tem materiais específicos.

Quarto ou Word, a ferramenta serve ao trabalho. O trabalho não serve à ferramenta.

Quarto para além de documentos: relatórios, slides e sites

Uma característica do Quarto que surpreende quem começa a explorar é a variedade de formatos que ele pode gerar a partir do mesmo arquivo fonte.

O mesmo documento .qmd pode ser configurado para gerar um PDF para submissão, um HTML para visualização web, uma apresentação de slides (usando a biblioteca Reveal.js), ou até mesmo um site completo. Você muda o parâmetro de formato no cabeçalho, re-renderiza, e o conteúdo aparece no novo formato.

Para pesquisadoras que precisam preparar tanto o trabalho escrito quanto a apresentação para a banca, a possibilidade de reutilizar o mesmo conteúdo em formatos diferentes tem valor prático real. O capítulo de resultados pode virar os slides da apresentação com adaptações mínimas.

Isso não significa que a apresentação vai ficar bonita automaticamente. O Quarto cuida da estrutura e do conteúdo, mas o design precisa de atenção. Para apresentações formais, você vai querer ajustar o tema visual, a densidade de conteúdo por slide, e como os resultados são apresentados visualmente.

Limitações reais que você precisa conhecer

O Quarto tem limitações que precisam ser claras antes de você decidir adotá-lo.

A curva de aprendizado existe. Aprender Markdown, entender a lógica de blocos de código, configurar o ambiente e solucionar erros de renderização leva tempo. Se você está na reta final da dissertação, não é o momento para aprender uma nova ferramenta.

A colaboração com quem não usa Quarto pode ser complicada. Se sua orientadora usa Word e retorna o documento com comentários no Word, integrar esses comentários no arquivo .qmd exige trabalho manual. A colaboração em tempo real que o Google Docs oferece não existe no Quarto da mesma forma.

Os recursos de formatação para normas brasileiras específicas, como ABNT, são menos documentados do que para normas internacionais como APA ou Vancouver. Você vai precisar de algum trabalho de configuração para gerar documentos em conformidade com a NBR 14724.

E para pesquisas qualitativas sem análise computacional, os benefícios do Quarto simplesmente não se materializam. Usar Quarto para escrever texto sem código é possível, mas é adicionar complexidade sem ganho claro.

Como decidir se vale aprender agora

A decisão de aprender ou não o Quarto depende de onde você está no processo da pesquisa e do que você vai fazer depois.

Se você está em estágio inicial da dissertação, tem análises em R ou Python, e pretende continuar produzindo pesquisa ao longo da carreira, investir no aprendizado do Quarto faz sentido. Você vai usar por anos.

Se você está na fase final, com prazo apertado, e o trabalho está sendo feito no Word sem problemas graves de consistência, não troque de ferramenta agora. Foque em terminar.

Se você não usa R nem Python e não tem planos imediatos de aprender, o Quarto provavelmente não está no seu horizonte de curto prazo. O Word, bem configurado com estilos, atende às necessidades de formatação da maioria das dissertações.

A decisão correta é a que serve ao seu trabalho no momento em que você está. Ferramentas são meios, não fins.

Recursos para aprender mais

A documentação oficial do Quarto em quarto.pub é extensa e bem escrita em inglês. Para quem prefere conteúdo em português, a comunidade R Brasil no YouTube e no Telegram tem materiais sobre Quarto, especialmente para usuárias de R que fazem a transição do R Markdown.

Se você usa R, o livro “R for Data Science” (disponível gratuitamente online em inglês) tem capítulos sobre Quarto que funcionam como introdução prática. O autor Hadley Wickham é uma das referências mais acessíveis para quem está começando.

Explorar com curiosidade, sem pressão de adotar imediatamente, é a melhor forma de avaliar se o Quarto é para você. Crie um documento de teste, brinque com a renderização, veja o que ele pode fazer. A decisão fica mais fácil depois de vinte minutos com a ferramenta do que lendo dez artigos sobre ela.

Perguntas frequentes

O que é o Quarto e para que serve na pesquisa científica?
Quarto é um sistema de publicação científica de código aberto que permite criar documentos, relatórios, apresentações e sites onde código, análises e texto narrativo ficam no mesmo arquivo. É usado especialmente por pesquisadoras que trabalham com R ou Python e querem garantir que análises e resultados sejam reproduzíveis e integrados diretamente ao texto.
Preciso saber programar para usar o Quarto?
Para aproveitar o potencial completo do Quarto, sim, é necessário conhecimento básico de R ou Python. Mas é possível começar a usar o Quarto para escrever documentos com formatação avançada, mesmo sem executar código neles, usando apenas a sintaxe Markdown. A curva de aprendizado é gradual.
Quarto é melhor que o Word para escrever dissertação?
Não é uma questão de melhor ou pior, mas de adequação ao contexto. O Word é mais acessível, tem mais suporte nas instituições, e a maioria das orientadoras está familiarizada com ele. O Quarto se destaca para pesquisas com análises quantitativas em R ou Python, onde integrar código e texto no mesmo documento garante reprodutibilidade. Para dissertações em ciências humanas com pouca análise computacional, o Word continua sendo a escolha mais prática.
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