Quando o Experimento Dá Errado no Laboratório
Resultado inesperado no laboratório não significa fracasso da pesquisa. Entenda o que acontece quando o experimento falha e o que fazer a seguir.
Aconteceu. E Agora?
Vamos lá: você planejou o experimento, seguiu o protocolo, esperou o tempo necessário. E o resultado que apareceu não é o que você esperava. Ou pior: o experimento simplesmente não funcionou. A amostra contaminou, o equipamento apresentou falha, os dados têm uma dispersão que não faz sentido.
Aquela sensação que chega junto com o resultado ruim tem um nome específico no laboratório, e qualquer pesquisador que trabalha com dados experimentais conhece: é uma mistura de frustração, confusão e, dependendo do momento do prazo, um bom grau de pânico.
Este texto é sobre o que vem depois disso.
Resultado Inesperado Não É Sinônimo de Erro
Antes de qualquer coisa, vale fazer uma distinção que pouca gente faz de forma clara: resultado inesperado e resultado incorreto são coisas diferentes.
Resultado incorreto é aquele que veio de um problema no processo: contaminação, erro de calibração, protocolo seguido de forma errada, dado registrado incorretamente. Nesses casos, o problema está na execução, não na hipótese.
Resultado inesperado é aquele em que o processo foi correto, mas o dado contradiz o que você esperava. A hipótese que você formulou não se confirma. Ou o fenômeno que você previa não aparece da forma que esperava.
Essa segunda situação é muito mais comum do que os artigos publicados sugerem. A literatura científica tende a publicar resultados positivos, que confirmam hipóteses e mostram efeitos. Os resultados que não se confirmam costumam ficar nos cadernos de laboratório ou nos arquivos de quem desistiu de publicar.
Mas resultado negativo não é resultado sem valor. Às vezes é o dado mais honesto e mais útil da pesquisa.
O Que Acontece Com Quem Trabalha Numa Área Com Menos Suporte
Tem uma dimensão da experiência de experimento falho que varia muito dependendo da área. Pesquisadores das ciências biológicas e da saúde costumam ter laboratórios com mais pessoal, com técnicos, com outros doutorandos e pós-doutorandos que passaram por situações parecidas. O suporte informal existe.
Pesquisadores de áreas menores, com menos tradição laboratorial, às vezes são o único ou um dos poucos a realizar aquele tipo de experimento na instituição. A solidão técnica aumenta a desorientação quando algo vai diferente do esperado.
Se você está nessa situação, vale buscar suporte além do orientador imediato. Fóruns acadêmicos específicos da sua área, grupos de pesquisa de outras universidades, colaboradores do orientador em outras instituições. A internet abriu canais que antes não existiam para esse tipo de consulta informal.
Não precisar ter todas as respostas sozinho não é fraqueza. É parte do modo como a ciência funciona, de forma coletiva, com base em conversas e na circulação de conhecimento que nem sempre vai parar em artigo.
O Que Fazer Nas Primeiras Horas
Quando o experimento dá errado, a primeira reação é tentar entender o que houve. Isso é certo. Mas existe uma ordem que ajuda a não perder informação importante.
O primeiro passo é documentar exatamente o que aconteceu antes de fazer qualquer coisa. Anote as condições do experimento, os valores obtidos, o que parece ter funcionado e o que não funcionou. Se houver amostras que podem ser preservadas, preserve. Se houver dados brutos que podem ser exportados, exporte imediatamente.
O segundo passo é não apagar nada. A tentação de refazer o experimento do zero como se o primeiro não tivesse acontecido é grande, mas os dados do experimento que deu errado são parte do registro da sua pesquisa. Eles serão úteis para comparação, para diagnóstico, para discussão com o orientador.
O terceiro passo é conversar com o orientador antes de decidir o que fazer a seguir. Não chegar com a solução pronta. Chegar com o que aconteceu, os dados, e a pergunta “o que você acha que aconteceu e qual é o próximo passo?”
Quando o Problema É a Execução
Se o experimento falhou por um problema de execução, há que ter honestidade sobre o que ocorreu. Contaminação? Falha de equipamento? Erro no preparo da solução? Seguimento incorreto do protocolo?
Identificar a causa exata não é punição. É diagnóstico. E sem diagnóstico, o experimento pode ser refeito com o mesmo erro.
Há pesquisadores que enfrentam isso e sentem que a falha de execução é uma falha pessoal grave. Não é. Falhas de execução acontecem em todos os laboratórios, com pesquisadores de todos os níveis de experiência. O que diferencia pesquisador de pesquisador não é nunca errar na execução. É saber identificar o erro, entender por que aconteceu e criar condições para que não se repita.
Às vezes o “erro” revela um ponto cego no protocolo que ninguém havia identificado antes. Isso pode até ser registrado como resultado relevante do processo.
Quando o Problema É o Desenho Experimental
Mais delicado é quando o resultado inesperado não vem de um erro de execução, mas de um problema no próprio desenho do experimento. A hipótese era razoável, o protocolo foi seguido corretamente, mas a variável que você escolheu para medir não é a que melhor captura o fenômeno que você quer entender.
Isso acontece. E costuma aparecer depois de muita leitura adicional, de conversas com outros pesquisadores, de um seminário em que alguém apresentou uma metodologia que você não conhecia.
Quando o problema é o desenho, a conversa com o orientador se torna ainda mais importante. Dependendo de em que fase da pesquisa você está, pode ser necessário reformular a metodologia, o que tem impacto no cronograma e precisa de alinhamento com o programa.
Não é o fim da pesquisa. Mas é um ponto de inflexão que exige clareza sobre o que pode ser ajustado e o que está fixado pelo tempo e pelos recursos disponíveis.
Resultado Negativo: Quando Publicar e Quando Não
Existe um debate importante na ciência sobre o viés de publicação de resultados positivos. A tendência histórica de periódicos aceitarem mais trabalhos que confirmam hipóteses do que trabalhos que as refutam cria um problema real: a literatura científica superestima efeitos e subdocumenta falhas de replicação.
Há periódicos que especificamente acolhem resultados negativos e de replicação. Há uma mudança lenta mas real na cultura científica em direção a valorizar mais a transparência sobre o que não funciona.
Para o mestrando ou doutorando que está lidando com resultado inesperado, isso significa que publicar o que você encontrou, mesmo que contrarie a hipótese, pode ser uma contribuição legítima e relevante para o campo. Desde que a metodologia seja rigorosa e o resultado seja discutido com honestidade.
A decisão sobre isso é do orientador e do pesquisador juntos, considerando o contexto do trabalho, os prazos e os objetivos da pesquisa.
O Que a Experiência de Dar Errado Ensina
Nenhum pesquisador sai da experiência de um experimento falho sem aprender algo. Às vezes o aprendizado é técnico: sobre o equipamento, sobre o protocolo, sobre as condições ambientais que afetam o resultado.
Às vezes é metodológico: sobre o desenho do experimento, sobre as variáveis que você escolheu controlar e as que você deixou de controlar, sobre a relação entre a pergunta que você fez e a forma como tentou respondê-la.
Às vezes é sobre a própria pesquisa: sobre por que a hipótese era mais frágil do que parecia, sobre o que a literatura realmente suportava e o que você estava supondo além dela.
Nenhum desses aprendizados é pequeno. Eles compõem a competência de pesquisador que você está construindo ao longo do mestrado e do doutorado. O resultado que não saiu como esperado faz parte disso tanto quanto o resultado que saiu bem.
A diferença entre o pesquisador que cresce com o erro e o que empaca nele não é a sensibilidade emocional. É a capacidade de usar o erro como dado, não como veredicto.
Se quiser entender mais sobre como organizar o processo de pesquisa para lidar melhor com as surpresas do percurso, explore os recursos disponíveis e saiba mais sobre o Método V.O.E..