Qualis Acabou: O Que Muda para Sua Publicação
O Qualis como sistema de estratificação de periódicos mudou. Entenda o que aconteceu, o que ainda está em aberto e como isso afeta quem precisa publicar.
Um sistema que moldou gerações de pesquisadores está mudando
Vamos lá. Se você está na pós-graduação ou já passou por ela, sabe o que é o Qualis. O sistema de classificação de periódicos científicos criado pela CAPES, com seus estratos A1, A2, B1, B2, B3, B4 e C, foi durante décadas o principal critério de avaliação da produção bibliográfica de programas de pós-graduação no Brasil.
Publicar num A1 valia mais do que publicar num B3. Programas com boa avaliação precisavam de certa quantidade de publicações nos estratos mais altos. Orientadores direcionavam alunos para periódicos específicos com base no estrato. O Qualis organizava, de forma explícita, a hierarquia da produção científica brasileira.
Esse sistema está mudando. E vale entender o que está acontecendo, porque vai afetar suas decisões de publicação.
O que o Qualis foi e por que gerou tantas críticas
O Qualis foi criado com um objetivo legítimo: tornar a avaliação da pós-graduação mais transparente e comparável. Antes de um sistema unificado, era difícil comparar a produção de programas de áreas diferentes usando um critério comum.
A classificação por estrato resolveu parte desse problema. Mas criou outros.
A principal crítica era que o sistema incentivava a quantidade em detrimento da qualidade. Um artigo mediano num A1 valia mais, para fins de avaliação do programa, do que um artigo importante num B1. Pesquisadores aprenderam a estrategizar: onde publicar para maximizar a pontuação, não onde publicar para impactar a área.
Uma segunda crítica era a desvalorização de conhecimento produzido em português, especialmente em campos como educação, direito, ciências sociais e saúde coletiva, onde há produção relevante em periódicos nacionais que não alcançavam estratos altos no sistema Qualis porque o critério de internacionalização era preponderante.
Uma terceira crítica dizia respeito à desatualização. As listas Qualis tinham defasagem: um periódico que cresceu em qualidade e impacto nos últimos anos podia ainda estar num estrato baixo da lista que não foi revisada.
O que mudou com o Qualis Referência
A CAPES, no processo de revisão que culminou no quadriênio 2021-2024, anunciou uma transição para o chamado Qualis Referência. A ideia central é que, em vez de uma lista única nacional por estrato, cada área de conhecimento define seus próprios critérios e elabora uma lista de periódicos de referência.
Isso tem vantagens potenciais. Permite que cada área reconheça os periódicos que realmente importam para o seu campo, incluindo nacionais de alta relevância que o sistema antigo desvalorizava. Reduz a pressão por publicação em inglês em todos os campos, independentemente da natureza da pesquisa.
Mas também gera incerteza. Com menos uniformidade entre áreas, pesquisadores que transitam entre campos ou que estão começando têm mais dificuldade de entender como sua produção vai ser avaliada.
O que ainda está em aberto
Olha só: parte da incerteza que existe sobre o Qualis atual é real, não percepção equivocada. Os critérios de avaliação por área foram sendo estabelecidos ao longo do processo e nem todos os pesquisadores têm clareza sobre como sua produção será avaliada no próximo quadriênio.
A recomendação prática que dou para pesquisadoras nesse momento de transição: consulte os documentos de área da CAPES para o seu campo específico. Esses documentos descrevem os critérios de avaliação que aquela área vai usar, incluindo como a produção bibliográfica é considerada. Eles estão disponíveis no portal da CAPES.
Converse com seu orientador e com pesquisadores sêniores da sua área sobre quais periódicos são valorizados. O conhecimento informal da comunidade científica frequentemente antecede a formalização nas listas oficiais.
Se você está avaliando onde publicar um artigo, considere três critérios além do estrato: a adequação do escopo (a revista publica sobre o seu tema?), o alcance (quem lê aquela revista?), e a revisão por pares (o processo de avaliação é rigoroso?). Um artigo publicado num periódico bem alinhado com seu tema, lido pelas pessoas certas na sua área, vai ter mais impacto real do que um artigo num periódico de estrato alto mas com escopo deslocado.
Por que essa mudança importa além da pontuação
Existe uma dimensão mais ampla nessa transição que vale mencionar.
O sistema Qualis moldou a cultura de publicação na academia brasileira por décadas. Ele criou um vocabulário compartilhado (todo pesquisador brasileiro sabe o que é um A1), um conjunto de incentivos e, junto com eles, um conjunto de distorções.
A transição para um sistema mais descentralizado, por área, é uma oportunidade para que as comunidades científicas definam com mais autonomia o que é produção de qualidade no seu campo. Isso pode ser mais honesto e mais adequado à diversidade da pesquisa brasileira.
Mas oportunidades não se convertem automaticamente em mudanças reais. A forma como as áreas definem seus critérios, quem participa dessas decisões, como a transição é comunicada para pesquisadores em formação, tudo isso vai determinar se o novo sistema é melhor do que o anterior.
É um momento de atenção e de participação. Pesquisadores que entendem como o sistema funciona estão em melhor posição para influenciar como ele evolui.
O que eu diria para quem está publicando agora
Se você está no mestrado ou doutorado e precisa publicar, não entre em pânico com as mudanças no Qualis. O sistema está em transição, mas isso não significa que a avaliação desapareceu ou que qualquer periódico serve.
Foque em publicar bem, em periódicos relevantes para sua área, em trabalhos que representem sua pesquisa de forma honesta e rigorosa. Um artigo bem colocado na revista certa vale mais, a longo prazo, do que um artigo empurrado para um estrato alto de qualquer jeito.
E consiga informação atual da sua área específica. A realidade do Qualis Referência varia muito entre, digamos, engenharia biomédica e letras. Generalizações sobre “o Qualis novo” sem considerar sua área vão te levar a decisões equivocadas.
A academia está sempre em transformação. Entender como os sistemas de avaliação funcionam e por que mudam é parte de navegar essa transformação com inteligência. Faz sentido?
Uma última observação sobre sistemas de avaliação
Sistemas de avaliação importam porque eles moldam comportamento. O Qualis moldou como pesquisadores brasileiros decidiram onde publicar por décadas. O novo sistema vai moldar de formas diferentes.
Por isso, entender o sistema não é opcional para quem quer navegar a carreira acadêmica com inteligência. Não para se curvar a ele cegamente, mas para tomar decisões conscientes dentro dos constrangimentos reais que ele cria.
Pesquisadores que entendem como a avaliação funciona têm mais capacidade de fazer escolhas estratégicas sem perder de vista o que importa: contribuir para o conhecimento da sua área de forma honesta e rigorosa.
O Qualis como sistema rígido de estratos está mudando. O que não muda é a necessidade de publicar bem, em lugares relevantes, sobre perguntas que importam. Isso é o que vai construir sua reputação na área, independentemente de como o sistema de classificação evolui.
E no final das contas, é isso que você vai querer ter construído quando olhar para trás.
Ah, e uma coisa prática: se você está em dúvida sobre um periódico específico hoje, o caminho mais rápido é verificar diretamente no portal de periódicos da CAPES e na base Qualis Periódicos, que ainda mantém histórico das classificações por área. Esses dados te dão uma base de comparação enquanto o novo sistema se consolida.