Posicionamento

Publicar em inglês ou não existir: o dilema real

A pressão para publicar em inglês é real na academia brasileira. Mas o que exatamente estamos cedendo quando aceitamos que ciência só conta se for em inglês?

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A frase que você já ouviu

Vamos lá. Em algum momento da pós-graduação, alguém disse para você algo como: “publica em inglês ou não existe”. Talvez fosse um professor. Talvez fosse um colega mais avançado na carreira. Talvez você mesma tenha chegado a essa conclusão lendo os editais de financiamento ou os critérios de avaliação da CAPES.

A frase é dura. E tem muito de verdade dentro dela. Mas tem também uma simplificação que vale examinar.

Porque “não existe” para quem? Para qual sistema? Para qual noção de ciência?

A mecânica da hegemonia linguística

A hegemonia do inglês na publicação científica não é natural. Ela é histórica e tem data de nascimento. Durante boa parte do século XIX e início do XX, o alemão era o idioma dominante em física, química e medicina. O francês tinha prestígio equivalente em matemática e ciências sociais. O russo era fundamental em algumas áreas das ciências exatas.

O que mudou foi geopolítico. O pós-Segunda Guerra consolidou o domínio americano e britânico nas estruturas de financiamento e publicação científica. Os grandes periódicos, as editoras, os sistemas de indexação como o Science Citation Index, todos foram criados em contexto anglo-saxão.

Como resultado, as métricas de impacto acadêmico foram construídas medindo principalmente o que circula em inglês. Fator de impacto, índice H, citações no Scopus: todos esses indicadores tendem a valorizar mais o que está em inglês porque é nessa língua que a maioria das citações acontece no circuito internacional.

Quando a CAPES usa esses indicadores para avaliar programas, ela importa a lógica da hegemonia para dentro do sistema brasileiro. O pesquisador que publica em português em periódico brasileiro, mesmo que a pesquisa seja excelente, recebe menos crédito pelo sistema do que quem publica o mesmo trabalho em inglês numa revista internacional.

Isso não é conspiração. É mecânica de sistema. E entender a mecânica é o primeiro passo para não se sentir individualmente culpada quando navega dentro dela.

O que se perde ao escrever em língua não-materna

Aqui tem algo que raramente entra na conversa sobre publicação em inglês: o custo cognitivo e expressivo de escrever em língua não-materna.

Escrever academicamente em inglês quando o inglês não é seu idioma de pensamento exige uma camada extra de trabalho. Não é só traduzir palavras. É pensar em termos que às vezes não têm equivalente preciso. É perder nuances que existem em português e não existem em inglês. É adaptar formas de construir argumento para um modo de raciocínio que foi formatado por uma tradição intelectual anglófona.

Pesquisadores que pensam em português, árabe, swahili, mandarim, quando escrevem em inglês para publicar, estão passando por um filtro. Parte do que é específico, local, contextualizado, passa pelo filtro e chega diminuído ou distorcido.

Não estou dizendo que isso torna a pesquisa inválida. Estou dizendo que existe um custo que o sistema não contabiliza e que tende a ser invisível para quem pensa em inglês por padrão.

A pressão sobre estudantes de pós-graduação especificamente

Aqui vai um recorte que importa. A pressão por publicação em inglês não afeta igualmente todos os pesquisadores.

Professores sênior com carreira consolidada podem equilibrar publicações em inglês e em português de acordo com os objetivos de cada trabalho. Eles têm histórico, têm visibilidade prévia, têm rede.

Estudantes de mestrado e doutorado estão construindo currículo. Estão em programas que são avaliados pela CAPES com métricas que valorizam publicações em inglês. Estão buscando bolsas de pós-doutorado ou vagas de docência onde o currículo vai ser comparado com o de outros candidatos.

Para esse grupo, a pressão não é abstrata. É concreta: se você não publicar em inglês, vai estar em desvantagem em comparações diretas com candidatos que publicaram. O sistema cria um incentivo real que precisa ser nomeado como tal, não disfarçado de escolha pessoal.

O que muda quando você entende isso é que a decisão de quando e onde publicar em inglês passa a ser estratégica, não compulsória. Você pensa em qual trabalho tem mais alcance internacional, qual traduz melhor para o contexto anglófono, qual faz sentido submeter para fora. E sobre qual trabalho serve melhor à comunidade brasileira sendo publicado em português, em acesso aberto, em um periódico que os professores da educação básica conseguem ler.

A pesquisa que só faz sentido em português

Existe um tipo de pesquisa que a hegemonia do inglês simplesmente não sabe o que fazer.

Pesquisas sobre língua portuguesa, suas variações, sua história, sua literatura. Pesquisas sobre história do Brasil, sobre políticas públicas brasileiras, sobre dinâmicas sociais específicas do contexto nacional. Pesquisas com comunidades que se comunicam em português e cujos dados primários estão nessa língua.

Para esse tipo de pesquisa, publicar em inglês é uma operação de tradução que vai além de trocar palavras. É recontextualizar para um leitor que não compartilha os pressupostos básicos do trabalho. Em alguns casos, isso enriquece a pesquisa ao forçar uma explicação mais cuidadosa do contexto. Em outros, ela perde justamente o que a tornava relevante.

A questão não é “o periódico é em inglês”, mas “para quem essa pesquisa precisa chegar?” Se a resposta for professores do ensino básico no Nordeste, publicar em periódico internacional em inglês com acesso fechado é publicar para ninguém.

A posição que tenho e por quê

Aqui vai minha posição direta, porque esse é o pilar de posicionamento e não o momento de ser ambígua.

O critério de qualidade científica não deve ser a língua. Pesquisa rigorosa, bem fundamentada, com contribuição genuína ao campo, tem valor independente do idioma em que foi escrita. Reduzir visibilidade a publicação em inglês é uma escolha política, não epistemológica.

Ao mesmo tempo, negar que o sistema funciona assim seria ingênuo. Quem precisa de bolsa, de vaga em programa de excelência, de reconhecimento dentro das métricas vigentes, precisa jogar com as regras que existem. Isso é estratégia, não capitulação.

O que recuso é a naturalização do critério. A ideia de que publicar em inglês é objetivamente melhor, e não que é mais visível dentro de um sistema específico. Essa distinção importa porque muda como você percebe o trabalho que faz em português e o valor que ele tem para a comunidade que ele serve.

Uma saída possível: publicar nas duas línguas

Existe uma prática crescente chamada bilingual publication ou publicação bilíngue, onde o artigo é disponibilizado tanto em inglês quanto na língua original dos autores. Alguns periódicos brasileiros já adotam isso.

Além disso, o movimento de ciência aberta tem pressionado por mais diversidade linguística nas publicações científicas, reconhecendo que a concentração no inglês cria barreiras ao acesso ao conhecimento em regiões onde o inglês não é amplamente falado.

Isso não resolve o problema estrutural das métricas, mas cria caminhos para que o mesmo trabalho seja acessível tanto para a comunidade internacional quanto para a comunidade local que mais se beneficia dele.

Publicar estrategicamente significa entender esses caminhos e escolher onde publicar pensando no impacto real que você quer ter, não só no impacto que o sistema vai contabilizar.

A tensão entre publicar para o sistema e publicar para quem precisa da pesquisa não vai desaparecer enquanto os sistemas de avaliação não mudarem. E eles mudam muito devagar, com resistência institucional em vários níveis. Enquanto isso, a clareza sobre onde você está, o que está em jogo e por que está fazendo cada escolha de publicação já é uma forma real de autonomia dentro de um sistema que nem sempre deixa muita margem para ela.

Quer discutir mais sobre posicionamento na academia? Veja o que é o Método V.O.E. e sobre quem é a Dra. Nathalia.

Perguntas frequentes

Publicar em português prejudica minha carreira acadêmica?
Depende muito da área e dos objetivos da carreira. Em ciências exatas e biológicas, publicar em inglês em periódicos internacionais é praticamente obrigatório para ter visibilidade internacional. Em humanidades, há espaço maior para publicações em português com relevância acadêmica reconhecida. O ponto é que o critério de qualidade não deveria ser a língua, mas o rigor e a contribuição do trabalho.
Por que a academia valoriza mais publicações em inglês?
Os sistemas de indexação e métricas de impacto (JIF, h-index, Qualis) foram criados em contexto anglo-saxão e privilegiam periódicos em inglês. Como as avaliações de programas e pesquisadores usam essas métricas, cria-se um incentivo estrutural para publicar em inglês que vai além da escolha individual.
É possível fazer ciência de qualidade publicando em português?
Sim, absolutamente. Muita ciência fundamental em física, matemática, linguística e ciências humanas foi produzida em francês, alemão, russo e outras línguas antes da hegemonia do inglês. A qualidade da ciência não tem língua. A visibilidade dentro dos sistemas hegemônicos, sim.
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