Produtivismo Acadêmico: Como Publicar Sem Adoecer
O produtivismo acadêmico adoece pesquisadores. Mas publicar bem ainda é necessário. Veja como manter produção sem entrar no ciclo que esgota a maioria.
Publicar e adoecer não deveriam ser a mesma coisa
Vamos lá. Tem uma frase que circula bastante no ambiente de pesquisa: “publish or perish” - publique ou pereça. Ela descreve uma realidade real. Em concursos, avaliações de programa, renovação de bolsas e progressão na carreira, a produção publicada é critério central.
Mas essa frase esconde uma confusão importante. Ela mistura a necessidade real de publicar com a lógica do produtivismo, que são coisas diferentes. Publicar bem, com qualidade e regularidade, é parte da atividade científica. Publicar a qualquer custo, com cronograma impossível e no piloto automático da ansiedade, é outra coisa.
Este post é sobre como separar as duas. Como manter uma produção que funcione para a carreira sem entrar no ciclo que faz com que tantos pesquisadores cheguem ao fim do doutorado exauridos.
O que o produtivismo faz com quem pesquisa
O produtivismo acadêmico opera por uma lógica simples: mais é melhor. Mais artigos, mais orientações, mais projetos aprovados. Os sistemas de avaliação - Qualis, índice H, fator de impacto - reforçam essa lógica porque são fáceis de medir e difíceis de questionar.
O problema não é que esses critérios existam. É quando eles se tornam o único critério relevante, e quando a pressão para atendê-los passa a governar decisões que deveriam ser guiadas por outras coisas: relevância do problema de pesquisa, qualidade metodológica, contribuição real ao campo.
Quando um pesquisador passa mais tempo se perguntando “isso vai gerar artigo?” do que “isso vai gerar conhecimento?”, algo foi invertido. E quando a resposta para aquela primeira pergunta começa a determinar o que vale a pena estudar, a pesquisa perde qualidade antes mesmo de ser escrita.
O efeito na saúde é bem documentado. Pesquisadores relatam regularmente sintomas de burnout, ansiedade e sensação crônica de inadequação. Não porque a pesquisa seja intrinsecamente adoecedora, mas porque a pressão de quantidade constante não dá espaço para o trabalho intelectual amadurecer no ritmo que ele precisa.
A diferença entre produção sustentável e corrida
Produção sustentável e corrida produtivista podem parecer iguais de fora - ambas resultam em artigos publicados. A diferença está no processo interno.
Na produção sustentável, você sabe o que está fazendo e por quê. Tem clareza do que cada publicação contribui, do que vem antes e do que vem depois. O texto é revisado com cuidado porque você se importa com o que está dizendo.
Na corrida produtivista, você está respondendo a uma pressão externa que não passou por nenhum filtro seu. O prazo de submissão dita o ritmo. A pergunta é “o que dá para enviar agora?” em vez de “o que está pronto para ser lido?”.
A distinção importa porque o segundo modo produz volume mas cria desperdício: artigos que ficam em desk rejection, revisões que exigem reescrita quase total, trabalhos que saem mas que o próprio autor preferiria não ter assinado. Isso não é apenas um problema de qualidade - é um problema de eficiência. A mesma energia que produz três artigos mediocres teria produzido um bom artigo que circula de verdade.
Como o Método V.O.E. protege contra o produtivismo
Há uma lógica do Método V.O.E. que se aplica diretamente aqui: a qualidade do texto começa antes do texto. Voz, Organização e Escrita - na ordem. Quem pula a etapa de organização para chegar logo na escrita produz mais rápido no curto prazo e revisa mais no longo.
O produtivismo empurra exatamente para essa armadilha: escrever antes de organizar, submeter antes de revisar, publicar antes de ter certeza. A pressão de quantidade age contra o processo que produz qualidade.
Resistir a isso não é falta de produtividade. É proteção do processo que, no final, produz mais e melhor.
Estratégias que funcionam na prática
Algumas formas de manter produção sem entrar no ciclo destrutivo:
Trabalhe com o que já tem. Uma dissertação bem escrita pode render dois ou três artigos. O referencial teórico pode virar artigo de revisão. A metodologia pode ser publicada separadamente como nota metodológica. Transformar o que você já produziu em publicações é eficiência, não produtivismo - você não está duplicando trabalho, está maximizando o que já fez.
Defina janelas de escrita, não metas de quantidade. “Vou escrever 2 horas todo dia” é mais sustentável do que “vou publicar 3 artigos esse semestre”. As horas são controláveis. Os artigos dependem de revisores, editores e processos que não estão na sua mão. Controlar o que você pode controlar - o tempo dedicado - é mais saudável do que ser refém de resultados que têm variáveis externas.
Priorize qualidade sobre qualis. Um artigo bem argumentado em um periódico B2 que realmente avança uma discussão vale mais, em muitos sentidos, do que um artigo no piloto automático em um A1. Os critérios de avaliação não capturam tudo, e pesquisadores que publicam com qualidade consistente constroem reputação que vai além das métricas.
Aprenda a dizer não para colaborações oportunistas. Não toda coautoria que aparece merece o seu tempo. Uma colaboração vale a pena quando há contribuição intelectual real da sua parte e ganho real para a sua pesquisa. Assinar artigo por assinar - para aparecer em mais listas - é exatamente o tipo de comportamento que o produtivismo gera e que não serve à ciência.
Quando a cobrança vem do orientador
Esse é o ponto mais difícil de abordar porque envolve uma relação de poder real.
Orientadores com alta produção e alta expectativa de publicação dos orientandos não são, automaticamente, orientadores ruins. Mas quando a pressão por publicação vem sem suporte metodológico adequado, sem feedback de qualidade nos textos e sem espaço para o orientando entender o processo, ela gera angústia sem aprendizado.
Se você está nessa situação, vale nomear isso - para si mesma primeiro: o que está sendo pedido de mim? Tenho as ferramentas para atender? Se não tenho, o que preciso desenvolver? E, se possível, levar essa conversa para o orientador de forma direta, focada no que você precisa para produzir com mais qualidade.
Nem sempre essa conversa é possível. Mas muitas vezes ela é, e não acontece porque o orientando assume que a expectativa é intransigente. Às vezes não é.
O que fica depois do doutorado
Há uma ironia no produtivismo: o pesquisador que chegou ao fim do doutorado com muitos artigos mas sem saúde frequentemente precisa de um período de recuperação antes de conseguir produzir com qualidade de novo. O pesquisador que chegou com menos artigos mas com o processo intelectual sólido e a saúde preservada costuma ter uma trajetória de produção mais consistente na carreira.
Publicar bem é uma habilidade. Ela se desenvolve com prática e com espaço para aprender com os erros. Esse espaço é o que o produtivismo retira - e é o que você precisa defender, não por conforto, mas porque é isso que vai sustentar a carreira no longo prazo.
Faz sentido? Você não precisa escolher entre publicar e se preservar. Você precisa construir um processo que faça as duas coisas ao mesmo tempo. Isso demora para se consolidar, mas é isso que distingue carreiras longas de trajetórias interrompidas pelo desgaste. A pesquisa boa é feita por pessoas inteiras, não por pessoas exauridas.