Primeira Rejeição de Artigo: Como Eu Superei
A primeira rejeição de artigo científico dói de um jeito particular. Conto como foi a minha, o que aprendi com os pareceristas e por que isso mudou minha escrita.
O e-mail que eu não queria abrir
Vamos lá. Você sabe aquele e-mail que fica na caixa de entrada por três dias porque você não tem coragem de abrir? O meu era de um periódico A2 de saúde coletiva. Eu sabia pelo assunto, “Decision on your manuscript”, que alguma coisa havia acontecido. Mas o meu cérebro preferiu fingir que não.
Quando finalmente abri, a palavra estava lá: “rejected”.
Minha primeira rejeição de artigo. Eu tinha vinte e seis anos, estava no segundo ano do mestrado, e aquilo doeu de um jeito que eu não esperava. Porque não era só o artigo que tinha sido rejeitado. Era a minha hipótese. Era meses de coleta de dados. Era a ideia de que eu talvez tivesse capacidade de fazer ciência de verdade.
Esse texto é sobre o que aconteceu depois.
Por que a primeira rejeição é diferente
Não é que a segunda, a terceira ou a décima não doam. Doem. Mas a primeira tem uma qualidade específica porque é a primeira vez que você recebe o feedback de que algo que você produziu, com toda a sua melhor intenção, não passou no crivo de especialistas.
Antes da primeira rejeição, a publicação científica existe como abstração. Você sabe que periódicos têm critérios, que pareceristas existem, que nem tudo é aceito. Mas é teórico. Depois da primeira rejeição, você entende visceralmente o que significa fazer ciência num campo onde outras pessoas têm o direito de dizer que o que você fez não é suficiente. E precisam de razões para isso.
O que me surpreendeu não foi a rejeição em si. Foi o parecer.
Os pareceres que me ensinaram mais do que o mestrado
O periódico tinha dois pareceristas cegos. Um foi relativamente direto: apontou inconsistências metodológicas específicas, sugeriu referências que eu não havia usado, e recomendou rejeição com possibilidade de submissão futura de versão substancialmente revisada.
Esse eu consegui ler. Deu raiva, mas consegui ler.
O segundo me destruiu de um jeito mais sofisticado. Começou elogiando o tema, que era “relevante e necessário”, e depois desmantelou linha por linha a minha seção de análise. Cada parágrafo. Com citações.
Precisei de dois dias para perceber que ele estava certo.
Não em tudo, porque pareceristas também erram e têm vieses. Mas em boa parte. Minha análise tinha um problema real que eu não havia conseguido ver sozinha porque estava perto demais dos dados. Eu sabia o que queria encontrar e havia escrito a análise como se os dados confirmassem isso com mais clareza do que realmente confirmavam.
Aquele parecer me ensinou algo que nenhuma disciplina do mestrado havia ensinado: a distância necessária entre o que você espera encontrar e o que os dados realmente mostram.
O que eu fiz de errado (e o que aprendi)
Olha só: eu havia escolhido o periódico errado. O escopo daquele periódico era mais amplo do que o tema específico do meu artigo. Eu havia escolhido porque era bem avaliado na área e eu queria publicar num periódico bem avaliado. Estratégia equivocada.
Um artigo tem mais chances num periódico onde ele se encaixa naturalmente, onde os leitores têm interesse direto no tema e onde os editores vão reconhecer o artigo como relevante para aquela comunidade específica. Publicar num periódico de prestígio geral, com uma pesquisa de nicho específico, é como entregar um trabalho para a banca errada.
Além disso, a seção de análise estava fraca porque eu havia passado mais tempo escrevendo do que relendo. Existe uma diferença entre escrever para organizar o pensamento e escrever para comunicar o pensamento. Eu havia feito a primeira e chamado de segunda.
Esse é um erro que o Método V.O.E. aborda diretamente. A etapa de Organização inclui justamente o processo de distanciamento crítico do texto, de reler como se fosse um parecerista, de identificar os pontos onde o argumento é frágil antes de submeter.
Eu havia pulado essa etapa porque tinha pressa e estava confiante demais.
O processo de reescrita
Deixei o artigo quieto por duas semanas. Isso foi difícil porque minha orientadora queria que eu submetesse logo para outro periódico. Mas eu precisava daquele tempo para desfocar, para não ler os dados com os olhos da versão anterior.
Depois voltei com os comentários dos dois pareceristas impressos. Literalmente impressos, com caneta na mão. Fiz três colunas: o que era crítica construtiva, o que era estilo do parecerista que eu podia discordar, e o que era genuinamente questionável como sugestão.
A maioria caiu na primeira coluna. Aquilo foi difícil de admitir.
Reescrevi a seção de análise do zero. Não editei. Reescrevi, partindo dos dados, sem olhar para o texto anterior. Isso me custou duas semanas, mas o resultado foi completamente diferente.
O artigo final tinha uma tese mais clara, uma análise menos contaminada pelo que eu esperava encontrar e uma conclusão mais honesta sobre o que aquele recorte de pesquisa podia e não podia afirmar.
A segunda submissão e o que aconteceu
Escolhi um periódico diferente, menor em fator de impacto, mas com escopo exato para o tema. Pesquisei os artigos publicados nos últimos dois anos. Vi que havia lacuna justamente no tipo de recorte que eu estava fazendo.
Três meses depois, recebi a resposta: aceito com revisões menores.
Aquelas revisões menores foram fáceis. Porque a base do artigo estava sólida, porque eu havia feito o trabalho difícil depois da primeira rejeição.
Não sei se teria chegado lá sem aquele e-mail que fiquei com medo de abrir.
O que a rejeição faz com a gente (se a gente deixa)
A rejeição de artigo pode fazer duas coisas muito diferentes. Pode paralisar, e aí vira aquele manuscrito que fica na pasta por anos porque você nunca mais tem coragem de submeter. Ou pode revelar algo que estava frágil, e aí vira instrumento de melhoria.
A diferença não está no parecer. Está no que você decide fazer com ele.
Isso eu entendi depois de alguns anos e algumas outras rejeições. A primeira é a mais difícil não porque é a pior, mas porque é a que desconstrói a ilusão de que produzir conhecimento é um processo linear de esforço-recompensa. Não é. É um processo de tentativa, resistência, revisão e tentativa de novo.
E isso, no fundo, é o que faz a ciência ser ciência.
Se você está no começo dessa jornada e acabou de receber sua primeira rejeição, a única coisa que eu posso dizer com certeza é: você não está sendo rejeitada. O texto está sendo devolvido para ser melhorado. São coisas muito diferentes.
Vá lá e melhore o texto.
Uma nota sobre os periódicos e o sistema de avaliação
Enquanto estou aqui, vale dizer uma coisa que levei tempo para entender: o sistema de revisão por pares não é perfeito. Pareceristas têm vieses. Às vezes recebem manuscritos em áreas que não dominam completamente. Às vezes têm preferências teóricas que influenciam o julgamento. Às vezes simplesmente não entenderam o que você quis dizer.
Isso não invalida o processo. Mas significa que uma rejeição não é sentença definitiva sobre a qualidade do seu trabalho.
O que é sentença definitiva é você não revisar, não submeter de novo, não continuar. Isso sim encerra a história do artigo.
Eu conheço pesquisadoras extraordinárias que publicaram em periódicos de alto impacto depois de rejeições em periódicos menores. O contrário também existe: artigos aceitos rapidamente que, em retrospecto, eram fracos. O sistema é imperfeito, mas ainda é o melhor mecanismo que temos para validação do conhecimento científico.
A minha rejeição me ensinou, entre outras coisas, a respeitar esse sistema sem reverenciá-lo cegamente. A levar os pareceres a sério sem me dissolver neles. A entender que publicar é uma habilidade que se aprende, não um talento que se tem ou não se tem.
E aprende-se, em boa parte, com as rejeições.