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Primeira Geração na Pós: Ninguém da Família Fez

O que significa ser o primeiro da família na pós-graduação: os não-ditos, as dificuldades reais e o que a academia ainda não entendeu sobre quem chega nessas condições.

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Quando você chega sabendo que chegou de longe

Vamos lá. Tem uma experiência muito específica que acontece com pesquisadores que são os primeiros da família na pós-graduação. É a sensação de estar em um lugar que parece funcionar por regras que todo mundo ao redor parece conhecer de cor — e você ainda está tentando entender quais são essas regras.

Não é sensação de inferioridade. Não é insegurança “normal” de principiante. É algo mais estrutural do que isso. É a percepção de que as pessoas ao redor trazem para a universidade um tipo de bagagem — de conversas em família, de referências culturais, de experiências prévias — que você simplesmente não tem, porque ninguém da sua família esteve aqui antes.

Pierre Bourdieu nomeou isso com o conceito de capital cultural. Não é só o conhecimento formal acumulado — é a familiaridade com as formas, os rituais, os códigos de um campo. Quem cresce em família com história universitária chega com esse capital acumulado por osmose. Quem chega de primeira geração precisa construir esse capital ao mesmo tempo em que tenta fazer a pesquisa.

Isso não é desvantagem permanente. Mas é um contexto que a academia raramente nomeia e quase nunca apoia de forma sistemática.

O que ninguém te explica porque parece óbvio

Uma das coisas mais difíceis de ser de primeira geração na pós é lidar com o que não é dito — porque parece óbvio demais para ser explicado.

Como funciona a relação com o orientador. Que você pode (e deve) marcar reuniões quando está com dúvida, sem esperar ser chamado. Que discordar do orientador é academicamente legítimo desde que você sustente seu argumento. Que o silêncio do orientador nem sempre significa aprovação.

Como funcionam as redes de oportunidade. Que estar nos corredores certos, conversar com as pessoas certas, aparecer nos eventos (mesmo os optativos) — tudo isso conta de formas que não aparecem em nenhum regulamento de programa.

Como se escreve acadêmico. Não no sentido formal da ABNT, que alguém eventualmente te explica. Mas no sentido de que há um registro, um modo de argumentar, um tipo de objetividade performativa que o texto acadêmico exige e que vai se aprendendo por imersão — mas só se você tem com quem se imergir.

O que costuma acontecer com pesquisadores de primeira geração é que eles chegam com talento, com esforço, com motivação genuína — e encontram um conjunto de regras não escritas que ninguém se dá ao trabalho de escrever porque assume que todo mundo já sabe.

O peso de carregar uma expectativa que não é só sua

Tem uma dimensão da experiência de primeira geração que quem não viveu raramente entende: o peso da expectativa coletiva.

Quando ninguém da família fez pós-graduação, você não está só fazendo sua pesquisa. Você está provando que é possível. Para sua família. Para sua comunidade. Para você mesmo, às vezes.

Isso pode ser combustível. Pode ser uma fonte de sentido muito poderosa, a sensação de estar fazendo algo que tem significado além de você.

Mas também pode ser um peso considerável. A pressão de não decepcionar. A dificuldade de nomear as dificuldades — porque admitir que está difícil pode parecer ingratidão ou fraqueza para quem investiu esperança na sua trajetória. O medo do fracasso que, nesse contexto, não parece só pessoal.

A pesquisa acadêmica já é exigente para todo mundo. Para quem carrega esse peso adicional, a exigência se multiplica.

Capital cultural e a academia que finge ser meritocrática

A narrativa dominante na academia é a da meritocracia: o que conta é a qualidade da pesquisa, e a qualidade da pesquisa é determinada pelo esforço e pelo talento do pesquisador.

Essa narrativa tem uma relação complicada com a realidade.

O pesquisador que cresceu com acesso a livros, que passou as férias conversando com pais com formação universitária, que frequentou escolas que estimulavam o pensamento crítico e a argumentação, que tem referências próximas de como navegar no mundo acadêmico — esse pesquisador chega na pós com vantagens que não aparecem em nenhum currículo, mas que são muito concretas.

O pesquisador de primeira geração que chega com talento equivalente não parte do mesmo ponto. Isso não é determinismo — trajetórias de primeira geração existem e são abundantes. Mas é desonesto fingir que o campo de jogo é igual.

Quando a academia fala em meritocracia sem nomear as condições desiguais de partida, ela está, queira ou não, reproduzindo as desigualdades que a sociedade produz fora dela. E quando ela não cria mecanismos de nivelamento e suporte, está escolhendo manter essas desigualdades dentro dos seus muros.

O que ajuda na prática

Dito isso, o que concretamente ajuda pesquisadores de primeira geração a navegar esse contexto? Algumas coisas que aparecem com frequência nos relatos de quem passou por isso.

Encontrar outros pesquisadores de primeira geração — dentro ou fora do programa. Não para reclamar junto, mas para reconhecer que determinadas dificuldades não são individuais. Isso, por si só, muda a relação com as dificuldades.

Fazer perguntas que parecem “bobas”. As regras não escritas da academia existem porque ninguém pergunta sobre elas. Quando você pergunta, frequentemente descobre que ninguém tinha uma boa razão para elas além do “sempre foi assim”. E aprende alguma coisa útil.

Buscar mentoria fora da relação formal de orientação. Professores de outras linhas de pesquisa, pesquisadores mais avançados do programa, egressos que ainda têm contato com a instituição. Essas relações informais frequentemente ensinam mais sobre como funcionar na academia do que os processos formais.

Nomear a experiência de primeira geração sem vergonha. Isso pode parecer irrelevante, mas não é. Nomear o contexto de onde você vem — inclusive dentro do seu próprio texto de apresentação em eventos, inclusive nas conversas com o orientador — ajuda a estabelecer uma base de honestidade sobre o ponto de partida.

O que a academia precisa fazer

Isso não é só responsabilidade individual de cada pesquisador de primeira geração que chega. Há o que as instituições podem e deveriam fazer.

Programas de mentoria estruturados. Não voluntários e informais, mas sistemáticos, com pesquisadores mais experientes designados para apoiar pesquisadores de primeira geração nos primeiros semestres. Incluindo orientação sobre as regras não escritas.

Transparência radical sobre como as coisas funcionam. Documentar e explicitar — em manuais, em eventos de recepção, em conversas regulares — o que costuma ficar implícito. Como funciona a relação de orientação. Como se acessam oportunidades de estágio docência, publicação, participação em eventos. O que se espera de um pesquisador em cada etapa do mestrado ou doutorado.

Reconhecimento explícito de que capital cultural desigual é um dado, não um problema do estudante. Isso muda a forma como professores e coordenadores se relacionam com pesquisadores que chegam sem algumas das referências tácitas que se assumem como universais.

Bolsas que permitem dedicação real. Pesquisadores de primeira geração frequentemente precisam de bolsas não apenas para estudar, mas para não precisar trabalhar em paralelo. Quando não há bolsa, a pesquisa divide espaço com a necessidade de renda — e quem paga o preço é a pesquisa.

A pesquisa que só você pode fazer

Tem uma coisa que ser de primeira geração dá que vale nomear, porque raramente é nomeada.

A perspectiva que você traz para a academia é única. Suas perguntas de pesquisa são informadas por uma experiência de mundo que pesquisadores com trajetórias mais protegidas não têm. O olhar que você lança sobre determinados fenômenos sociais, educacionais, culturais — esse olhar tem nuances que vêm de onde você viveu antes de chegar aqui.

Isso não é sentimentalismo. É epistemicamente relevante. A diversidade de experiências entre pesquisadores produz diversidade de perguntas, e diversidade de perguntas é o que faz a ciência avançar.

A academia precisa de você — não apesar de onde você veio, mas também por causa disso.

Se você está nesse processo e quer estruturar melhor sua trajetória acadêmica, o Método V.O.E. e os recursos disponíveis aqui podem ajudar a organizar o caminho com mais clareza.

Perguntas frequentes

O que significa ser pesquisador de primeira geração na pós-graduação?
Ser pesquisador de primeira geração significa ser o primeiro da família a chegar à pós-graduação, e frequentemente ao ensino superior. Isso implica navegar sem referências próximas de como funciona esse mundo: o que é normal, o que se espera, como se comportar, o que perguntar e para quem.
Pesquisadores de primeira geração têm mais dificuldades na pós-graduação?
Pesquisas na área apontam que pesquisadores de primeira geração frequentemente enfrentam desafios adicionais relacionados ao que Pierre Bourdieu chamou de capital cultural: familiaridade com as normas tácitas do campo acadêmico, acesso a redes informais de oportunidade, e facilidade de navegação nas regras não escritas da universidade.
Existe apoio específico para pesquisadores de primeira geração na pós-graduação brasileira?
Alguns programas e universidades têm iniciativas de mentoria e acolhimento. A política de bolsas de pós-graduação da CAPES e CNPq tem papel fundamental para viabilizar a permanência. Mas o suporte sistemático para pesquisadores de primeira geração ainda é escasso e muito desigual entre instituições.
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