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O que é preprint e quando vale a pena publicar um

Entenda o que é preprint, como funciona, as vantagens e riscos para pesquisadores brasileiros e quando faz sentido usar plataformas como SciELO Preprints.

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Uma nova forma de compartilhar pesquisa (que não é tão nova assim)

Vamos lá. Antes de falar sobre o que um preprint é, vale desfazer uma ideia equivocada: preprint não é uma novidade da era digital. Em física e matemática, a prática de circular manuscritos antes da publicação formal existe desde os anos 1990, com o arXiv. O que mudou nas últimas décadas é que ela se expandiu para outras áreas e se tornou parte do debate sobre como a ciência deveria circular.

A pandemia de COVID-19 acelerou muito essa expansão. Em um momento em que pesquisadores do mundo inteiro precisavam de acesso rápido a dados e resultados sobre um problema urgente, os preprints permitiram que pesquisas circulassem em dias em vez de meses. Isso teve benefícios reais e também expôs riscos que precisam ser entendidos.

O que é um preprint, de fato

Um preprint é a versão do seu manuscrito que você deposita em uma plataforma pública antes de submetê-lo a um periódico para revisão por pares, ou enquanto o processo de revisão está acontecendo (dependendo da política do periódico escolhido).

O documento que você deposita é, geralmente, o mesmo texto que você vai submeter ao periódico: com metodologia, resultados e referências completos. Não é um resumo nem um rascunho inicial.

O que diferencia o preprint do artigo publicado é um ponto crucial: ele não passou por revisão por pares formal. Isso tem implicações diretas para como ele deve ser lido, citado e usado.

Por que publicar um preprint?

As razões mais comuns que levam pesquisadores a publicar preprints são concretas.

Velocidade. O processo de publicação em periódicos científicos pode levar de seis meses a mais de dois anos entre a submissão e a publicação final. Um preprint coloca os resultados disponíveis imediatamente. Para pesquisas em áreas onde o ritmo de produção é alto, isso pode ser a diferença entre ser uma referência pioneira ou chegar depois que o campo já avançou.

Feedback antecipado. Ao tornar o manuscrito público, você abre a possibilidade de receber comentários de pesquisadores que não fazem parte do processo formal de revisão. Às vezes, esse feedback externo identifica problemas ou aponta para literatura relevante que você não tinha visto.

Acesso e visibilidade. Preprints ficam disponíveis gratuitamente. Se você vai submeter a um periódico de acesso fechado, o preprint garante que qualquer pesquisador, independentemente de ter acesso institucional, possa ler o que você produziu.

Estabelecer prioridade. Se você está preocupado com a possibilidade de outra equipe publicar um resultado similar antes de você, um preprint com data carimbada estabelece publicamente que aquela pesquisa existia naquele momento. Isso tem relevância para questões de prioridade científica, embora o sistema formal ainda reconheça a publicação revisada por pares como a versão definitiva.

Registro de produção em andamento. Para pesquisadores que estão em estágios iniciais de carreira, ter preprints disponíveis mostra que a pesquisa existe e está sendo produzida, mesmo antes da publicação formal.

Os riscos que precisam ser ditos

Preprints têm um conjunto de riscos que qualquer pesquisador precisa conhecer antes de decidir usá-los.

Não foram revisados por pares. Esse é o ponto mais importante. O processo de revisão por pares, por mais imperfeito que seja, existe para identificar erros metodológicos, interpretações equivocadas e problemas que o autor pode não ter percebido. Um preprint pode conter erros que a revisão formal detectaria e que, uma vez circulando amplamente, são difíceis de desfazer.

Podem ser citados antes de passar por revisão. Se seu preprint circula amplamente e alguém o cita como se fosse a versão final, e depois a versão revisada tem alterações significativas, existe um problema de rastreabilidade e confiabilidade das informações que circularam.

Jornalismo científico e divulgação desinformada. Durante a pandemia, vimos casos em que preprints foram amplamente divulgados pela mídia como se fossem verdades científicas estabelecidas. Quando a revisão por pares identificou problemas graves, a correção raramente alcançou o mesmo público. Isso não é culpa do preprint como formato, mas é um risco real de como ele é usado.

Política dos periódicos. Nem todos os periódicos aceitam a submissão de artigos que já foram depositados como preprint. Antes de depositar, verifique se o periódico onde você planeja submeter permite preprints. A maioria dos periódicos científicos grandes hoje aceita, mas há exceções.

Plataformas principais para pesquisadores brasileiros

SciELO Preprints (preprints.scielo.org)

É a plataforma mais indicada para pesquisadores brasileiros e de outras regiões da América Latina. Aceita manuscritos em português, espanhol e inglês. Tem moderação básica para garantir que o conteúdo tem caráter científico (mas não faz revisão por pares). É vinculada à infraestrutura SciELO, que tem credibilidade consolidada no contexto latino-americano.

arXiv

A plataforma mais antiga e mais usada globalmente, mas focada em ciências exatas, física, matemática, ciência da computação e áreas correlatas. Se sua pesquisa se encaixa nessas áreas, o arXiv tem um volume de tráfego enorme e uma comunidade consolidada.

bioRxiv e medRxiv

Para ciências da vida e saúde, respectivamente. São as plataformas dominantes nessas áreas e têm tráfego muito alto. O medRxiv, em particular, cresceu enormemente durante a pandemia.

PsyArXiv e SocArXiv

Para psicologia e ciências sociais, respectivamente. São plataformas mais recentes mas com comunidades ativas.

Como citar um preprint corretamente

Quando você usa um preprint como referência em seu artigo, existem algumas boas práticas.

Identifique claramente que é um preprint: “Silva, J. (2025). Título do trabalho. SciELO Preprints. doi:xxxx [Preprint].”

Prefira citar a versão publicada final, quando ela existir. Se você citou o preprint de um artigo que depois foi publicado em periódico, atualize a referência na versão final do seu texto.

Tenha cautela com preprints de pesquisas em áreas sensíveis, como saúde pública ou segurança alimentar, onde um resultado não validado por revisão pode ter consequências práticas.

Faz sentido para você?

A decisão de depositar um preprint depende da sua área, do seu momento de carreira e dos seus objetivos com aquela pesquisa específica.

Em áreas onde a prática já é estabelecida (física, biomedicina, psicologia), não depositar um preprint pode significar desvantagem real de velocidade e visibilidade. Em áreas onde a prática é menos comum (algumas humanidades, direito, artes), o impacto do preprint é menor.

Para quem está terminando o mestrado ou o doutorado e tem um capítulo que já está pronto para circular, o preprint pode ser uma forma de dar visibilidade ao trabalho enquanto o processo de publicação formal ainda está em andamento.

Para quem está no início da carreira e quer mostrar produção, o preprint de um artigo em revisão é legítimo e pode ser incluído no Lattes na categoria correta.

O preprint é uma ferramenta. Como qualquer ferramenta, funciona bem quando você entende para que serve e quando não serve. A decisão de usá-lo deve ser informada, não impulsiva.

Preprint e a relação com periódicos: o que você precisa verificar

Antes de depositar seu manuscrito como preprint, há um passo prático indispensável: verificar a política do periódico onde você pretende submeter.

A maioria dos periódicos científicos relevantes hoje aceita submissões de artigos que já foram depositados como preprint. O Sherpa/Romeo (sherpa.ac.uk/romeo) tem informações atualizadas sobre as políticas de autoarquivamento e preprints dos principais periódicos. É uma consulta rápida que pode evitar uma surpresa desagradável depois.

Algumas políticas específicas que você pode encontrar:

Aceita preprint e não exige remoção. O caso mais comum. Você deposita o preprint, submete ao periódico, e quando o artigo é publicado, mantém o preprint disponível (geralmente com nota de que a versão revisada foi publicada em determinado periódico e DOI).

Aceita preprint mas exige que seja removido após aceitação. Menos comum, mas existe. Nesse caso, quando o artigo é aceito, você precisa remover ou marcar o preprint como substituído pela versão final.

Não aceita submissões que já foram depositadas como preprint. Situação cada vez mais rara, mas ainda existe em alguns periódicos mais conservadores. Se você planeja submeter a um desses periódicos, não deposite o preprint antes.

A questão do embargo: alguns periódicos que publicam em acesso fechado permitem o preprint mas com embargo: você só pode depositar após um período de exclusividade (geralmente 6 a 12 meses). Nesse caso, o preprint pode ser depositado antes da submissão, mas a versão pós-revisão só pode ser compartilhada depois do embargo.

O que acontece com o preprint depois que o artigo é publicado

Quando a versão revisada por pares é publicada, o protocolo recomendado é atualizar o preprint com uma nota indicando que o artigo foi publicado, com o DOI da versão final. A maioria das plataformas de preprint permite essa atualização.

Algumas plataformas, como o SciELO Preprints, permitem também que você deposite a versão revisada final como uma nova versão do preprint, com os dois documentos vinculados. Isso é importante para rastreabilidade: quem acessou o preprint original pode saber que existe uma versão final revisada.

Quem cita o seu trabalho depois que ele foi publicado formalmente deve citar a versão do periódico, não o preprint. Se você vê citações à versão preprint depois da publicação formal, pode entrar em contato com os autores dos trabalhos que te citaram e indicar a referência correta.

O debate sobre o futuro da revisão por pares

Por último, o contexto mais amplo que a popularização dos preprints colocou na mesa.

O preprint não é só uma estratégia de publicação. Ele faz parte de um debate maior sobre se o modelo tradicional de revisão por pares fechada, com processo opaco e lento, ainda serve bem à ciência como ela existe hoje.

Modelos alternativos estão sendo testados: revisão por pares aberta (onde os revisores são identificados e seus comentários são publicados junto com o artigo), revisão por pares pós-publicação (onde o preprint é o artigo de fato e a revisão acontece publicamente depois), e modelos híbridos.

Não existe consenso sobre qual modelo é melhor. O que é certo é que o preprint tornou visível algo que a ciência precisava reconhecer: o sistema de publicação tradicional tem problemas de velocidade, opacidade e acesso que não servem bem à produção e ao uso do conhecimento científico.

Para o pesquisador individual, o preprint é uma escolha táctica dentro de um siste

Perguntas frequentes

O que é um preprint na ciência?
Um preprint é uma versão do manuscrito científico que o autor disponibiliza publicamente antes de passar pelo processo formal de revisão por pares e publicação em um periódico. Ele permite que a pesquisa circule mais rapidamente, receba comentários da comunidade e seja acessada antes da publicação final. Não é a versão final do artigo e não substitui a publicação revisada por pares.
Preprint conta como publicação científica para o Lattes e CAPES?
Preprint é uma categoria diferente de publicação e deve ser registrado como tal no Lattes, não como artigo em periódico. A CAPES não pontua preprints da mesma forma que artigos publicados em periódicos com revisão por pares. Porém, preprints em plataformas reconhecidas como SciELO Preprints e bioRxiv são aceitos como evidência de produção em andamento em alguns contextos.
Qual plataforma de preprint usar para pesquisa em português?
O SciELO Preprints é a principal plataforma para pesquisadores brasileiros e latino-americanos. Aceita manuscritos em português, espanhol e inglês, é vinculado a uma infraestrutura científica reconhecida e tem moderação básica para garantir que o conteúdo seja de natureza científica. Para áreas específicas, vale verificar plataformas temáticas como bioRxiv (ciências da vida), medRxiv (saúde), PsyArXiv (psicologia) e SocArXiv (ciências sociais).
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