Posicionalidade do Pesquisador: Como Declarar na Tese
Entenda o que é posicionalidade do pesquisador, por que ela importa para a sua tese e como declarar de forma clara, honesta e metodologicamente sólida.
Por que você precisa falar sobre quem você é na sua pesquisa
Olha só: tem uma coisa que a maioria dos programas de pós-graduação ensina de forma incompleta, e que faz muita gente pirar na hora de escrever a metodologia. É a posicionalidade do pesquisador.
Você provavelmente já ouviu o termo. Talvez o seu orientador tenha pedido uma “declaração de posicionalidade” ou a banca tenha comentado que faltava “reflexividade” no seu trabalho. Mas o que isso significa na prática? E como você escreve isso sem soar vago ou exibicionista?
Vamos lá.
O que é posicionalidade, afinal
Posicionalidade é o reconhecimento de que você, como pesquisador, não é um observador neutro. Você tem uma história, uma identidade, valores, experiências que inevitavelmente influenciam o que você escolhe estudar, como você coleta os dados, como interpreta e o que decide apresentar.
Isso não é um defeito. É uma característica de qualquer pesquisa humana.
A posicionalidade surge com força nas pesquisas qualitativas, especialmente nas etnografias, pesquisas-ação, estudos de caso e abordagens interpretativas. Nesses contextos, o pesquisador é o próprio instrumento de coleta e análise. Ignorar quem ele é seria metodologicamente ingênuo.
A pesquisadora Kimberlé Crenshaw, ao desenvolver o conceito de interseccionalidade, já apontava que o lugar social de quem pesquisa importa. Uma mulher negra e uma mulher branca podem estudar a mesma comunidade e enxergar coisas completamente diferentes. Não porque uma está errada, mas porque partem de lugares diferentes.
A posicionalidade não elimina o viés. Ela o torna visível, o que é infinitamente mais honesto do que fingir que ele não existe.
Por que você precisa declarar isso na tese
Há pelo menos três razões concretas para incluir a posicionalidade na sua metodologia.
Credibilidade metodológica. Bancas e revisores de revistas internacionais de alto impacto exigem transparência sobre quem é o pesquisador, especialmente em pesquisas qualitativas. Ausência de reflexividade pode ser interpretada como ingenuidade metodológica.
Ética com os participantes. Quando você pesquisa grupos vulneráveis, minorias, comunidades específicas, declarar sua posição ajuda o leitor a entender a relação de poder entre pesquisador e pesquisado. Quem está olhando para quem? Com qual autoridade?
Coerência com o paradigma. Se você adotou uma perspectiva construtivista ou interpretativista, não declarar posicionalidade é uma contradição interna grave. Você não pode afirmar que o conhecimento é socialmente construído e ao mesmo tempo agir como se você, o pesquisador, estivesse acima disso.
Faz sentido?
O que incluir na declaração de posicionalidade
Aqui está onde muita gente trava. Quanto contar? O que é relevante? Parece que vou falar sobre minha vida pessoal dentro de uma tese científica?
Calma. Posicionalidade não é autobiografia. É um recorte intencional das características que têm relação direta com o seu objeto de pesquisa.
Pense assim: se você está pesquisando o abandono escolar entre jovens de periferia e você mesmo cresceu em uma região de periferia, isso é relevante. Se você está estudando religiões afro-brasileiras e você é praticante de candomblé, isso importa. Se você é médico e está pesquisando a relação médico-paciente, declare isso.
O que você geralmente inclui:
- Sua trajetória acadêmica e profissional relacionada ao tema
- Sua relação prévia com o campo ou os participantes
- Sua identidade social relevante ao tema (gênero, raça, classe, religião, profissão)
- Como você reconhece que essas características podem ter influenciado suas escolhas metodológicas, a coleta, a análise
O que você não precisa incluir:
- Detalhes da sua vida pessoal que não têm relação com o tema
- Julgamentos de valor sobre si mesmo
- Longas narrativas que desviam do foco metodológico
Como escrever a posicionalidade na prática
Você não precisa de uma seção enorme. Em muitos trabalhos, dois a quatro parágrafos bem escritos são suficientes. Em pesquisas etnográficas mais imersivas, pode ser mais extenso.
Aqui está uma estrutura que funciona bem:
Primeiro parágrafo: quem você é em relação ao tema. Sua formação, sua experiência com o campo, sua identidade relevante ao objeto.
Segundo parágrafo: como isso pode ter influenciado o processo. O que você viu de forma diferente porque é quem você é? Que perguntas você fez (ou não fez) por causa do seu lugar?
Terceiro parágrafo (opcional): quais estratégias você usou para manter o rigor metodológico a despeito dessas influências. Isso pode incluir triangulação, validação com os participantes, uso de diário de campo reflexivo, supervisão de orientação, entre outras práticas.
Um exemplo simplificado:
Como pesquisadora branca de classe média pesquisando mulheres negras trabalhadoras domésticas, reconheço que minha posição social criou distâncias que precisaram ser ativamente negociadas ao longo da pesquisa de campo. A relação com as participantes foi construída ao longo de seis meses de imersão, e minhas interpretações foram validadas com três interlocutoras-chave antes da análise final.
Viu? Não é confissão, é transparência metodológica.
Erros comuns ao declarar posicionalidade
Ser superficial. Escrever “sou pesquisadora e tenho interesse no tema” não é declarar posicionalidade. Isso é vago e diz pouco sobre como sua perspectiva influencia o trabalho.
Ser excessivamente pessoal. Posicionalidade não é o lugar de narrar traumas ou experiências pessoais que não têm relação direta com a pesquisa.
Achar que basta listar características. Dizer “sou mulher, branca, de São Paulo” sem conectar isso ao seu objeto e processo de pesquisa não serve para nada metodologicamente.
Esquecer de revisitar. A posicionalidade não é algo que você escreve uma vez e esquece. Ela deveria informar toda a sua discussão dos resultados.
Reflexividade: a posicionalidade em movimento
Se a posicionalidade é a foto de quem você é no início da pesquisa, a reflexividade é o vídeo do processo. É a prática contínua de se perguntar: como minhas posições estão moldando o que estou vendo e interpretando?
Pesquisadores reflexivos mantêm diários de campo onde registram não só o que observaram, mas como se sentiram, o que os surpreendeu, o que os incomodou. Esses registros alimentam a análise e aparecem nos resultados como parte legítima do processo metodológico.
Se você usa o Método V.O.E. como ferramenta de organização da escrita, a reflexividade pode ser incorporada à fase de Organização, quando você revisita suas notas e interpreta os dados à luz do seu próprio olhar.
O que as bancas esperam ver
Bancas de pesquisas qualitativas experientes procuram evidências de que o pesquisador pensou sobre seu próprio papel no processo. Elas querem ver:
Que você reconhece a influência do seu lugar social sem tratar isso como um erro a ser corrigido. Que você adotou estratégias para manter o rigor apesar (e por causa) do seu envolvimento. Que sua interpretação dos dados não ignora os limites do seu ponto de vista.
A falta de posicionalidade em uma pesquisa qualitativa é sinal de que o pesquisador ainda está operando com uma lógica positivista, como se a objetividade total fosse possível. E isso, sim, preocupa as bancas.
Posicionalidade em pesquisas quantitativas
Você pode estar pensando: “mas minha pesquisa é quantitativa, isso não se aplica a mim”.
Quase. Em pesquisas puramente quantitativas com amostras aleatórias e instrumentos padronizados, a posicionalidade tem um peso menor. Mas em pesquisas mistas, em estudos com grupos vulneráveis, em pesquisas participativas com componente quantitativo, ela é cada vez mais exigida.
E mesmo nas quantitativas tradicionais, as escolhas metodológicas refletem posições. Por que esse recorte? Por que esse instrumento? Por que esses participantes? Não há pesquisa sem escolhas, e escolhas refletem quem faz.
Conclusão: honestidade como rigor
A posicionalidade não enfraquece sua pesquisa. Ela a fortalece, porque deixa claro que você entende como o conhecimento é produzido.
Quando você declara sua posição, você está dizendo ao leitor: eu sei que não sou neutro, e estou sendo honesto sobre isso. Isso é mais sólido metodologicamente do que fingir uma objetividade que não existe.
Se você ainda está elaborando sua metodologia e tem dúvidas sobre como articular sua posicionalidade com as demais escolhas metodológicas, dá uma olhada nos recursos disponíveis no blog. E se quiser se aprofundar em como escrever cada seção da sua dissertação ou tese com clareza e coerência, o Método V.O.E. foi desenvolvido exatamente para isso.
Escrever bem a metodologia não é burocracia. É cuidado com o que você está construindo.