Pós-Graduação e Uso de Álcool: Tabu Acadêmico
O uso de álcool na pós-graduação é mais comum do que se fala. Entenda por que isso acontece, quando vira um problema e como ter uma relação mais honesta com isso.
Um assunto que a academia não quer ter
Vamos lá. Existe um conjunto de conversas que a pós-graduação não sabe ter. Saúde mental está começando a aparecer, com dificuldade, mas está. Solidão, também, devagar. Uso de álcool? Ainda é quase totalmente silenciado.
E não é por falta de incidência. Qualquer pessoa que tenha passado por um laboratório, uma república de mestrandos, um evento acadêmico com cerveja patrocinada, sabe que o álcool está presente. A questão não é se ele está. É o que acontece quando ele para de ser social e vira coping.
Este post é sobre isso. Sem julgamento. Com honestidade.
Por que a pós-graduação é terreno fértil para isso
A pós-graduação reúne, de forma sistemática, vários fatores que pesquisas sobre comportamento associam a maior consumo de álcool.
Tem a pressão crônica. Não é uma pressão pontual, como uma prova. É uma pressão que não tem data para acabar, que varia de intensidade mas nunca some completamente. A banca, o artigo, o orientador, a bolsa, a próxima etapa. Pressão crônica e consumo de álcool têm uma relação documentada.
Tem o isolamento. A pós-graduação é solitária de formas específicas. Você pode morar longe da família, pode ter perdido o contato com amigos de antes, pode estar em uma cidade que não é a sua. As amizades dentro da pós muitas vezes são funcionais mais do que afetivas. Isolamento social também tem relação conhecida com consumo problemático.
Tem a perda de estrutura. A graduação tem horários. A pós-graduação, especialmente em fases de escrita, não. Quando a estrutura some, é mais difícil criar limites para qualquer comportamento, incluindo beber.
E tem a cultura. Parte da cultura acadêmica ainda glorifica quem aguenta mais, quem trabalha mais horas, quem não pede ajuda. Beber depois de um dia pesado é visto como descanso merecido, não como sinal de que algo pode estar errado.
A diferença entre beber socialmente e beber para escapar
Essa distinção é mais sutil do que parece, mas é importante.
Beber socialmente acontece em contextos específicos, é uma escolha que você faria mesmo sem estresse, e você conseguiria não beber sem sentir falta. A cerveja no happy hour existe porque é prazeroso, não porque é necessário.
Beber para escapar é diferente. A bebida entra como resposta a um estado emocional que você não quer sentir. Ansiedade, tristeza, tédio, angústia, sensação de fracasso. Você não está bebendo porque quer. Está bebendo para não sentir.
Essa função de escape é onde o problema começa. Porque funciona. No curto prazo, o álcool realmente alivia. O problema é que o alívio não resolve o que criou a necessidade de escapar. E a tolerância aumenta. E a dose precisa ser maior para o mesmo efeito. E vai virando um ciclo.
Alguns sinais que merecem atenção: beber sozinho regularmente; beber para conseguir dormir; beber antes de reuniões ou apresentações para “tirar o nervoso”; sentir que precisa da bebida para relaxar após o trabalho; esconder quanto está bebendo de pessoas próximas.
Esses sinais não diagnosticam nada. Mas pedem atenção.
O que a academia faz (e o que não faz)
Pouquíssimas universidades brasileiras têm programas específicos de apoio para pós-graduandos com uso problemático de álcool ou outras substâncias. Os serviços de saúde existentes geralmente focam em saúde mental de forma ampla, quando existem.
O que existe com mais frequência são eventos que incluem bebida, grupos informais onde beber junto é parte da dinâmica, e uma cultura que não estimula conversas abertas sobre isso.
Não estou dizendo que as universidades deveriam proibir álcool. Estou dizendo que a falta de espaço para essa conversa deixa quem está em sofrimento mais sozinho.
Quando o assunto aparece, geralmente é em formato de humor: “ah, a pós é um inferno, precisa beber para aguentar”. O humor funciona como válvula, mas também funciona como normalizador. Você ri, a conversa passa, e quem precisava de um momento sério não teve.
Quando é hora de buscar ajuda
Essa é a pergunta que mais gera paralisação. Porque pedir ajuda significa admitir que está difícil. E admitir que está difícil, na academia, ainda soa como fraqueza para muita gente.
Mas há uma outra forma de pensar: buscar ajuda cedo é mais eficiente do que buscar quando a situação já está complicada. Se você se identifica com algum dos sinais descritos acima, não precisa esperar piorar para buscar conversa com alguém.
O primeiro passo pode ser um serviço de saúde da própria universidade, se existir. Pode ser um psicólogo ou psiquiatra particular com experiência em comportamentos compulsivos ou dependência. Pode ser o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que oferece atendimento gratuito pelo SUS. Grupos de apoio também são recursos reais para muitas pessoas.
O que vale deixar claro: o uso problemático de álcool é um problema de saúde, não de caráter. Tratar como problema de saúde muda completamente o tipo de ajuda que faz sentido.
Cuidar da cabeça é parte da pesquisa
Existe uma ideia implícita na pós-graduação de que o sofrimento faz parte do pacote. Que passar mal é o preço da seriedade acadêmica. Que quem não está ansioso não está trabalhando suficiente.
Isso é equivocado. Pesquisa boa precisa de pesquisadora funcionando. Não funcionando apesar de si mesma, ou funcionando com a ajuda de substâncias que tapam sintomas sem resolver causas. Funcionando de verdade.
Cuidar da saúde mental, dos hábitos de sono, da alimentação, das relações sociais e de como você está lidando com o estresse não é luxo. É condição para produzir bem.
Se você está usando álcool ou qualquer outra coisa para conseguir passar pelos dias do mestrado ou doutorado, isso é um sinal de que algo no sistema não está certo. Pode ser o sistema externo (orientação ruim, pressão excessiva, falta de apoio). Pode ser o sistema interno (como você lida com estresse, seus limites, sua relação com fracasso). Provavelmente é os dois.
O passo não é julgamento. É honestidade. Com você mesma, primeiro.
O que pode ajudar no dia a dia
Não vou listar uma série de hábitos saudáveis como se fossem solução para tudo. Mas algumas coisas funcionam como ponto de apoio quando o estresse está alto.
Ter estrutura de horários ajuda. Mesmo que a pós não imponha, criar blocos de trabalho e de descanso faz diferença. Quando o dia tem começo e fim, o uso de álcool fica mais fácil de localizar e de perceber se está crescendo fora do lugar.
Ter pessoas com quem falar, de verdade, também ajuda. Não necessariamente sobre o tema específico do álcool. Mas ter relações onde você pode dizer “estou mal” sem precisar performar força. Isolamento é um dos fatores que mais alimenta padrões de consumo problemático.
E perceber que os recursos de saúde mental existem. Muitas universidades públicas têm núcleos de apoio psicológico. Podem ter fila, podem ser insuficientes, mas existem. Conhecer o que está disponível antes de precisar urgentemente é melhor do que descobrir em crise.
Fechando: falar sobre isso já é começar
Só o fato de você ter chegado aqui e lido isso até o fim é alguma coisa.
Esse é um assunto que a maioria das pessoas na academia evita. Evitar não resolve. O silêncio em torno do uso problemático de álcool na pós-graduação protege a imagem do ambiente acadêmico, mas não protege as pessoas que estão dentro dele.
Se você se identificou com alguma parte do que foi descrito aqui, considere essa conversa com alguém de confiança. Um colega, uma terapeuta, um familiar. Não precisa ter certeza de que “é sério o suficiente” para merecer atenção. O suficiente é você se importar com o assunto.