Posicionamento

Pós e Classe Social: Quem Consegue Ficar?

A pós-graduação brasileira tem um problema de classe que raramente é nomeado. Quem consegue permanecer no mestrado e doutorado não é quem tem mais mérito.

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A pergunta que os relatórios de produtividade não respondem

Vamos lá. Os programas de pós-graduação brasileiros publicam relatórios anuais de produtividade. Artigos publicados. Teses defendidas. Projetos financiados. Parcerias internacionais.

O que esses relatórios não publicam: de onde vieram os alunos que defenderam. Qual era a renda familiar deles. Quantos precisaram abandonar o programa por razões financeiras. Quantos atrasaram a conclusão porque trabalhavam em paralelo.

Esses dados existem, em parte, nos sistemas da CAPES. Mas não compõem o ranking que define a nota dos programas.

E quando os dados não entram no ranking, eles não entram na cultura institucional.

O que “classe social” significa na pós-graduação

Quando uso o termo classe social aqui, não estou falando de uma variável sociológica abstrata. Estou falando de coisas concretas que determinam se você consegue permanecer fazendo pesquisa.

Capital econômico: renda para pagar aluguel, alimentação, transporte, plano de saúde. Para quem estuda fora da cidade natal, para quem tem filhos, para quem sustenta ou cofinancias família, a bolsa de mestrado, quando existe, não cobre.

Capital cultural: familiaridade com a linguagem acadêmica, com os códigos de como se comportar em orientações e bancas, com o que significa “escrever com rigor”, com as redes de contato que abrem portas para publicações e eventos. Quem cresceu em casa com livros, quem teve professores de inglês desde criança, quem tem pais com ensino superior, entra na pós com um repertório que os outros precisam construir ao longo do caminho.

Capital social: as redes de contato. Conhecer pesquisadores, ter ex-professores que fazem parte de bancas, ter orientador que apresenta você para colaboradores internacionais. Essas redes são distribuídas desigualmente.

Nenhum desses capitais determina a capacidade intelectual de pesquisar. Mas todos determinam as condições de permanecer pesquisando.

A seleção que acontece depois da seleção

O processo de seleção para o mestrado e doutorado no Brasil tem critérios formais: projeto de pesquisa, currículo, prova escrita, entrevista. Esses critérios já carregam vieses, quem teve mais tempo para construir o Lattes, quem teve orientação de pesquisa na graduação, quem aprendeu a escrever projeto no formato que o edital pede.

Mas o que me interessa aqui é a seleção que acontece depois. A seleção que não tem nome nem data: a que elimina quem não consegue permanecer.

Essa seleção tem um critério principal, mesmo que nunca seja verbalizado: a capacidade de sobreviver financeiramente durante o mestrado ou doutorado sem depender só de bolsa, ou com bolsa precária.

Quem passa por essa seleção não é necessariamente quem pesquisa melhor. É quem tem mais colchão.

Pode ser renda própria de emprego paralelo (que compra sobrevivência à custa de tempo para pesquisa). Pode ser suporte familiar. Pode ser poupança acumulada antes de entrar. Pode ser parceiro com renda suficiente para os dois. Cada uma dessas condições está distribuída de forma desigual na sociedade.

O que dizem os dados, e o que silenciam

O Brasil avançou na democratização da pós-graduação nos últimos anos. Há mais programas, mais vagas, mais bolsas do que em 2000. O número de negros e pardos na pós-graduação cresceu, ainda que de forma insuficiente.

Mas os dados de evasão são mal coletados e mal divulgados. A CAPES registra conclusões e desligamentos, mas não captura sistematicamente as razões dos desligamentos. “Desistência do discente” pode significar qualquer coisa: mudança de projeto de vida, impossibilidade financeira, adoecimento, conflito com orientador.

Quando os dados são vagos, é mais fácil culpar o indivíduo. “Não tinha perfil para a pós.” “Não estava preparado.” E mais difícil questionar o sistema que não garantiu condições para que esse aluno ficasse.

Minha posição: permanência não é mérito individual

Aqui vou dizer diretamente o que penso.

A narrativa de que quem termina o mestrado “tinha o que precisava” e quem abandonou “não tinha” é uma forma de naturalizar desigualdade estrutural como diferença de capacidade individual.

Pesquisadoras excelentes saíram da pós-graduação brasileira porque não tinham como pagar o aluguel quando a bolsa foi cortada. Pesquisadores com potencial saíram porque tinham filhos pequenos, sem creche, sem suporte. Pessoas capazes desistiram porque a academia não foi capaz de criar as condições mínimas para que ficassem.

Isso não é questão de mérito. É questão de acesso a recursos. E confundir os dois é conveniente para um sistema que prefere selecionar naturalmente a criar política pública.

O que dizem os dados internacionais

A discussão sobre classe social e permanência na pós-graduação não é exclusivamente brasileira. Pesquisas realizadas no Reino Unido, nos Estados Unidos e em outros países europeus documentam padrões parecidos: estudantes de primeira geração (primeiros da família a chegar ao ensino superior) têm taxas mais altas de abandono no doutorado, relatam mais dificuldade de se identificar com o ambiente acadêmico, e progridem mais lentamente para posições permanentes na carreira acadêmica.

O que esses estudos mostram é que o problema não é de capacidade individual. É de inserção num ambiente que foi construído por e para um perfil específico de pessoa, e que adapta seus códigos, expectativas e suportes a esse perfil.

A diferença entre o Brasil e esses países está, muitas vezes, na disposição de nomear o problema. Nos EUA, “first-generation scholar” virou categoria de análise e objeto de políticas. Há programas de mentoria, de nivelamento, de suporte financeiro específico para esse perfil.

No Brasil, o discurso predominante ainda é de meritocracia individual. Quem ficou, ficou por esforço. Quem saiu, saiu por escolha.

Essa narrativa é mais confortável para o sistema do que qualquer dado de permanência.

O papel do orientador nessa equação

Quero abrir um parêntese aqui porque é algo que raramente aparece: o orientador tem papel nessa dinâmica de classe.

Orientadores que vêm de contextos socioeconômicos privilegiados, o que é a maioria, dada a reprodução histórica do campo, podem não perceber o que é óbvio para eles mas não é para o orientando. Que viajar para um congresso implica pagar passagem, hotel, inscrição. Que fazer pesquisa de campo implica custo de deslocamento. Que ter equipamentos de qualidade tem custo.

Um orientador atento pergunta. “Você tem condições de ir ao congresso esse ano?” “Existe bolsa disponível para você?” “O que você precisa para avançar?”

E um orientador com poder faz algo com essas informações: aciona recursos do projeto, indica editais de mobilidade, ajuda a viabilizar.

Isso não resolve o problema estrutural. Mas reduz o dano no nível individual.

Diversidade de origem como qualidade científica

Vou terminar com um argumento que às vezes é esquecido: a diversidade de origem socioeconômica (e racial, e regional) na pós-graduação não é só uma questão de justiça. É uma questão de qualidade científica.

Pesquisadores que vieram de contextos de vulnerabilidade trazem perguntas que quem sempre teve acesso não faz. Eles conhecem de dentro problemas que outros estudam de fora. Eles têm uma perspectiva que enriquece o campo, não que o contamina.

Quando o sistema seleciona por quem consegue ficar financeiramente, ele seleciona contra essa diversidade. E perde.

A pós-graduação brasileira não vai ser melhor por ter mais pesquisadores iguais aos que já tem. Vai ser melhor quando conseguir guardar os diferentes.

Isso exige política pública. Exige financiamento. Exige reconhecer o problema antes de pretender resolvê-lo.

E exige parar de chamar de mérito o que é, na maioria das vezes, circunstância.

Perguntas frequentes

A pós-graduação brasileira é acessível para estudantes de baixa renda?
O acesso à pós-graduação ampliou nos últimos anos, mas a permanência ainda depende de condições materiais que nem sempre existem. Sem bolsa suficiente para cobrir as despesas básicas, quem vem de família sem renda complementar, quem tem filhos ou quem veio de outra cidade enfrenta uma barreira que o mérito acadêmico não elimina.
O sistema de bolsas da pós-graduação é suficiente para garantir permanência?
Não, na configuração atual. O número de bolsas disponíveis (CAPES, CNPq, FAPs) é menor do que o número de alunos em muitos programas. Isso significa que uma parcela dos mestrandos e doutorandos precisa se manter com trabalho paralelo ou com suporte familiar, o que impacta diretamente o tempo disponível para pesquisa e as condições de concluir dentro do prazo.
Como a origem de classe afeta a trajetória acadêmica?
A origem de classe afeta a pós-graduação de formas visíveis e invisíveis. Formas visíveis: capacidade financeira de permanecer sem bolsa, de pagar participação em eventos, de ter equipamentos adequados. Formas invisíveis: capital cultural acumulado (familiaridade com a linguagem acadêmica, redes de contato, confiança para interagir com orientadores e bancas), que favorece quem já veio de ambientes com mais escolaridade.
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