Por que pesquisadores têm medo das redes sociais
Pesquisadores evitam aparecer nas redes sociais por medo de julgamento, simplificação e perda de credibilidade. Entenda o que está por trás desse receio e o que ele custa.
O silêncio que ninguém questiona
Faz sentido? Um pesquisador passa anos desenvolvendo conhecimento especializado sobre um tema. Esse conhecimento poderia beneficiar pessoas que não têm acesso a periódicos científicos. A internet existe. As redes sociais existem. E o pesquisador fica quieto.
Esse silêncio raramente é falta de opinião. É uma escolha, às vezes consciente, às vezes não. E ela vem de um conjunto de medos que a academia nunca debateu com suficiente honestidade.
Vou nomear esses medos um por um, não para julgá-los, mas porque acredito que o primeiro passo para decidir se eles fazem sentido é nomeá-los com clareza.
Os medos que têm nome
O medo de ser julgado pelos pares
Este é o mais antigo e, talvez, o mais poderoso. A academia tem uma hierarquia implícita que coloca em polos opostos o “sério” e o “popular”. Quem escreve para periódicos de alto impacto é sério. Quem publica post no Instagram é suspeito.
Essa divisão não tem fundamento empírico, mas tem peso cultural enorme. Professores e orientadores que cresceram dentro dessa cultura a reproduzem, muitas vezes sem perceber. Um pesquisador jovem que começa a aparecer nas redes pode ser visto como alguém que está “desperdiçando tempo” ou “buscando visibilidade de forma inadequada”.
O medo do julgamento dos pares é suficientemente paralisante porque, no mundo acadêmico, seus pares são também seus avaliadores. São quem vota nas suas promoções, revisa seus artigos, participa das suas bancas.
O medo de simplificar demais
Pesquisadores passam anos aprendendo que o conhecimento é nuançado, que toda afirmação precisa de evidência, que generalizar é o maior pecado científico.
Então como dizer algo sobre um tema complexo em um post de 500 palavras sem trair essa complexidade?
Essa tensão é real. Não vou fingir que é fácil de resolver. Mas existe uma diferença entre simplificar (tornar acessível sem perder a essência) e distorcer (deformar para parecer mais palatável). Um não implica o outro, mas o medo de cair na segunda categoria faz muitos pesquisadores evitarem a primeira inteiramente.
O medo do erro público
Em um periódico, quando você erra, o processo de revisão por pares (teoricamente) pega o erro antes da publicação. Quando você erra em um post, o erro fica lá, público, passível de screenshot e repost.
Esse medo é compreensível. Mas ele é aplicado de forma desproporcional. A maioria dos posts de divulgação científica não contém afirmações que exijam o mesmo rigor metodológico de um artigo. Estamos falando de contextos diferentes, com exigências diferentes.
O pesquisador que paralisa por medo de errar nas redes frequentemente está aplicando o padrão errado para o contexto errado.
O medo de não ter audiência
“Quem vai ler?” é uma pergunta que aparece muito quando falo com pesquisadores sobre divulgação científica. O medo do post silencioso, sem engajamento, que parece confirmar que o esforço não valeu a pena.
Esse medo tem uma lógica, mas ignora como a presença digital funciona no tempo. Audiências não aparecem imediatamente. Consistência ao longo de meses é o que constrói uma presença que importa.
O medo de que não conte para a carreira
Em muitos sistemas de avaliação acadêmica, divulgação científica tem peso zero ou quase zero. O Lattes não pontua um perfil ativo nas redes da mesma forma que pontua um artigo em periódico Qualis A.
Esse é um problema real do sistema de avaliação acadêmica, não uma razão para não fazer divulgação. Mas entendo que, quando o tempo é escasso (e sempre é), as atividades que não pontuam competem desfavoravelmente com as que pontuam.
O que esse silêncio custa
Não estou dizendo que todo pesquisador precisa estar no Instagram ou no TikTok. Não estou dizendo que divulgação científica é obrigação.
Estou dizendo que o silêncio coletivo dos pesquisadores nas conversas públicas tem um custo que raramente é contabilizado.
Quem ocupa os espaços que os pesquisadores deixam vazios? Pessoas que também têm opiniões sobre saúde, economia, educação, ciência, mas que não têm o mesmo embasamento. Às vezes têm boas intenções e cometem erros. Às vezes têm interesses específicos e os disfarçam de expertise.
A desinformação não cresce no vácuo. Ela cresce nos espaços onde a informação qualificada está ausente.
Cada pesquisador que decide não aparecer é uma voz a menos numa conversa que precisa de mais vozes como a dele.
O que eu aprendi sobre aparecer
Comecei a aparecer nas redes de forma mais intencional depois de perceber que estava fazendo exatamente o que descrevi acima: ficando quieta por medo de julgamento, por medo de simplificar, por medo de que não fosse suficientemente acadêmico.
Algumas coisas que aprendi no caminho:
Você não precisa ter uma posição sobre tudo. Falar sobre o processo da pesquisa, sobre como você pensa sobre um problema, sobre o que leu recentemente: isso não exige que você seja a autoridade definitiva no assunto.
O rigor e a acessibilidade não são opostos. Você pode ser preciso e ainda assim ser compreensível. O problema geralmente não é o tema, é a forma de apresentá-lo.
A audiência encontra quem aparece. As pessoas que precisam do que você sabe não vão encontrar seu artigo em um periódico de acesso restrito. Mas podem encontrar você no Instagram ou no LinkedIn.
O julgamento dos pares pesa menos do que parece. Isso é difícil de acreditar quando você está no início. Mas a maioria dos pesquisadores que fazem divulgação científica consistente fala a mesma coisa: o medo de julgamento dos pares era maior do que o julgamento em si.
A crença de que “ciência real” não se mistura com redes sociais
Existe um pressuposto cultural que precisa ser nomeado porque opera de forma quase invisível em muitos ambientes acadêmicos: a ideia de que ciência “de verdade” acontece nos laboratórios, nos congressos e nos periódicos, e que qualquer coisa que acontece nas redes é, por definição, de categoria inferior.
Essa crença é ao mesmo tempo compreensível e problemática.
Compreensível porque tem raiz histórica. Durante décadas, a comunicação científica foi (e ainda é) feita por vias formais: teses, artigos, livros, conferências. Essas vias têm critérios de qualidade, revisão por pares, accountability. Não são perfeitas, mas têm processos.
As redes sociais, por sua vez, não têm nenhum filtro institucional. Qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa e chamar de “ciência”. Então o receio de se misturar a esse ecossistema é, em parte, uma forma de proteger a integridade do campo.
Mas o raciocínio tem um problema: ele confunde o canal com o conteúdo. O fato de um canal não ter filtros de qualidade não significa que tudo que circula nele é de baixa qualidade. Depende de quem publica.
O pesquisador que aparece nas redes com rigor, com clareza sobre as limitações do que diz, com referências verificáveis, está elevando a qualidade média do que circula nesses espaços. Não a rebaixando.
O argumento que muda o enquadramento
Quando converso com pesquisadores sobre esse tema, uma pergunta costuma mudar o enquadramento:
“Quem deveria estar falando sobre [assunto da sua pesquisa] nas redes, se não você?”
Porque alguém vai falar. Sempre. A questão é quem vai ocupar esse espaço com mais precisão e responsabilidade.
Não é uma questão de vaidade ou de estratégia de carreira. É uma questão de responsabilidade intelectual. Se você tem conhecimento especializado sobre algo que afeta a vida das pessoas, e esse conhecimento pode ser comunicado de forma acessível, a ausência é uma escolha que tem consequências.
Posso estar sendo direta demais. Mas essa pergunta me ajudou quando eu mesma estava hesitando.
Uma distinção que me ajudou
Existe uma diferença entre visibilidade e vaidade.
Visibilidade é a decisão de que o conhecimento que você tem precisa circular além da bolha acadêmica. Que as pessoas fora da universidade têm direito a entender o que está sendo pesquisado com dinheiro público. Que a conversa sobre ciência precisa de pesquisadores reais, não só de intérpretes.
Vaidade é quando o objetivo é aparecer, não comunicar.
A academia às vezes confunde as duas coisas. E, por medo de parecer vaidoso, o pesquisador renuncia à visibilidade que seria, de fato, um serviço.
Se você quer desenvolver presença digital como pesquisador com consistência e sem perder seu estilo próprio, o post como construir presença digital como pesquisador tem algumas direções práticas.
O medo de aparecer é legítimo. A decisão de aparecer, mesmo com medo, também é.
Você não precisa resolver todos os medos antes de começar. Só precisa decidir que a conversa pública sobre ciência merece a sua participação.