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Pesquisa que Ninguém Lê: Para que Serve a Tese?

A maioria das teses e dissertações brasileiras raramente é lida. Isso é um problema? É um fracasso? Ou a pergunta sobre o propósito da pesquisa é mais complexa do que parece?

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A pergunta que ninguém quer responder diretamente

Olha só. Existe uma incômoda que paira sobre muitos pós-graduandos, especialmente no começo e no fim do processo. Para que serve tudo isso se a tese vai parar numa prateleira de biblioteca e ninguém vai ler?

Não é cinismo. É uma pergunta real, que merece uma resposta real, não um discurso sobre o valor do conhecimento em abstrato.

Vou tentar responder de forma direta, porque o assunto tem muitas camadas e simplificá-lo nos dois sentidos, seja catastrofizando seja romantizando, não ajuda ninguém que está no meio da pesquisa tentando entender o que está fazendo e por quê.

O que os dados mostram

Estudos de bibliometria, que é a área que mede a produção e o impacto científico, mostram de forma consistente que uma parte significativa da produção acadêmica tem baixa ou nenhuma citação por outros pesquisadores.

Isso vale para artigos publicados em periódicos avaliados, não apenas para teses. É um fenômeno estrutural do sistema científico, não uma peculiaridade brasileira.

A explicação não é que todo mundo está produzindo pesquisa irrelevante. É que a quantidade de pesquisa produzida mundialmente cresceu enormemente, e a capacidade de absorção e leitura não cresceu na mesma proporção. Há mais pesquisa sendo publicada do que qualquer campo consegue ler e citar.

O que “não ser lida” realmente significa

Quando dizemos que uma tese não foi lida, precisamos precisar o que isso significa.

Não ser citada por outros acadêmicos é uma coisa. Uma tese pode ter sido lida por profissionais de uma área específica, por gestores de política pública, por jornalistas, por pessoas que simplesmente acharam o tema relevante, sem que nenhuma dessas leituras apareça em indexações formais.

Não aparecer nos sistemas de busca de periódicos é outra coisa. As teses e dissertações brasileiras, em sua maioria, são depositadas na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, a BDTD, e ficam acessíveis online. “Ninguém lê” é diferente de “ninguém pode encontrar”.

Não ser adotada como referência em pesquisas posteriores é ainda outra coisa. Uma tese pode ter impacto na formação do próprio pesquisador e na maneira como ele pratica a profissão depois, sem deixar rastro bibliométrico.

Confundir essas diferentes formas de “não ser lida” leva a conclusões precipitadas.

O papel da tese na formação

Há um argumento que funciona e que muitas vezes não é dito com clareza suficiente: a tese forma o pesquisador, independentemente de quem vai lê-la depois.

O processo de fazer uma dissertação ou tese desenvolve capacidades específicas que não se desenvolvem de outra forma. Construir um problema de pesquisa que vale ser investigado. Escolher e justificar uma metodologia. Coletar e analisar dados de forma rigorosa. Defender um argumento com evidências. Receber crítica e revisar sem desistir.

Essas capacidades têm valor além do documento final. Elas mudam como a pessoa pensa, argumenta e toma decisões em qualquer contexto profissional posterior, seja na academia ou fora dela.

Se a única função da tese fosse ser lida por outros, o mestrado e o doutorado perderiam muito do seu valor. Mas se a função inclui a formação do pesquisador, a questão muda de figura.

O problema real: pesquisa desconectada de quem precisa dela

Dito isso, o problema existe. E é real.

Existe pesquisa que seria muito relevante para determinadas comunidades ou contextos práticos, mas que chega a essas comunidades com grande dificuldade. A linguagem é inacessível para quem não é pesquisador. Os canais de divulgação são restritos ao circuito acadêmico. A tradução do conhecimento para formatos mais acessíveis, o que chamamos de divulgação científica, não é valorizada como atividade acadêmica na mesma medida que publicar em periódicos.

Há também pesquisa que não foi bem dirigida desde o início. Um problema de pesquisa que ninguém estava esperando resposta, conduzido de forma academicamente competente mas sem conexão com perguntas reais. Isso acontece, e é um problema de orientação e de política científica, não necessariamente de má vontade dos pesquisadores envolvidos.

A crítica legítima não é que a tese “não vai ser lida”. É que os sistemas de produção e circulação do conhecimento científico têm problemas sérios de acesso e de relevância, e que resolver isso exige mudanças mais profundas do que orientar individualmente cada pesquisador.

O que cada pesquisadora pode fazer

Não dá para resolver a estrutura do sistema científico sozinha. Mas é possível fazer algumas escolhas que aumentam as chances de que o trabalho chegue a quem pode se beneficiar dele.

Escrever com clareza. Não simplificar o rigor, mas trabalhar a comunicação para que o texto seja acessível a leitores além de especialistas da área específica.

Divulgar a pesquisa nos canais onde o público relevante está. Isso pode ser um blog, um perfil em rede social acadêmica, uma apresentação em evento profissional fora do circuito universitário, um artigo de divulgação em veículo que alcança o público-alvo da pesquisa.

Conectar o trabalho com pautas que importam. Uma dissertação sobre educação que não aparece nos debates sobre política educacional é uma oportunidade perdida. Às vezes a conexão existe mas não foi comunicada.

Pensar na tese como ponto de partida, não como destino. Os dados coletados, os achados, o argumento construído, tudo isso pode alimentar artigos, relatórios, intervenções práticas, muito além do documento depositado na biblioteca.

Quando a tese forma quem vai ensinar

Há um ângulo menos discutido: o impacto indireto. Muitos pesquisadores que fazem dissertação ou tese vão para a docência. E o rigor metodológico, o hábito de questionar pressupostos e a capacidade de construir argumento com evidências que eles desenvolveram na pós-graduação entram na sala de aula com eles.

Uma professora que fez mestrado sobre letramento digital e ensina língua portuguesa numa escola pública está carregando aquele conhecimento para dentro da sala de aula, mesmo que a dissertação nunca seja citada por outro acadêmico. O impacto existe, mas é invisível para os sistemas de medição formais.

O mesmo vale para o gestor que passou pela pós e agora toma decisões com mais capacidade analítica. Para o profissional de saúde que fez doutorado e aplica o raciocínio científico no diagnóstico clínico. Esses caminhos de impacto não aparecem em índices bibliométricos, mas são reais.

O que a academia cobra que não ajuda

A métrica de citações como indicador central de impacto é problemática e a academia já discute isso. Ela favorece pesquisa que é relevante dentro do circuito acadêmico e não captura bem o impacto em outros domínios.

Uma tese sobre saúde pública em comunidades rurais que informa a decisão de um secretário municipal de saúde tem impacto real, mas esse impacto não aparece no índice h da pesquisadora nem no fator de impacto do periódico.

Mudar essa lógica de avaliação é uma tarefa coletiva e institucional, não individual. Mas reconhecer que a métrica de citações não é o único indicador válido de impacto é um passo necessário para evitar que pesquisadoras sejam julgadas de forma injusta por um sistema que não foi projetado para medir o que elas estão produzindo.

Para terminar

A tese que “ninguém lê” é uma realidade do sistema científico. Mas a conclusão que se deve tirar não é que a pesquisa foi inútil, e sim que os sistemas de circulação e avaliação do conhecimento têm problemas que precisam ser nomeados e enfrentados.

Para quem está no meio da pós-graduação, a recomendação prática é simples: faça pesquisa que importe para alguém. Não porque isso vai garantir que seja lida por todo mundo, mas porque começa com uma pergunta real, e perguntas reais têm destinatários reais.

Se quiser conversar mais sobre carreira e produção acadêmica, dá uma olhada nos recursos disponíveis aqui no blog e na página sobre a Dra. Nathalia.

Perguntas frequentes

É verdade que a maioria das teses nunca é citada por outros pesquisadores?
Estudos bibliométricos mostram que uma parcela significativa da produção científica, incluindo artigos e teses, tem baixo ou nenhum índice de citação. Isso é amplamente documentado na literatura de cienciometria. Porém, a ausência de citações formais não é o único indicador de impacto de uma pesquisa, especialmente em contextos de formação, políticas públicas locais ou aplicações práticas que não passam necessariamente pelo circuito de publicações indexadas.
Qual é a diferença entre uma tese que ninguém lê e uma pesquisa sem relevância?
Relevância e visibilidade são coisas distintas. Uma tese pode ter alta relevância para uma comunidade específica, para uma política local ou para a formação do próprio pesquisador, sem ter visibilidade ampla no circuito acadêmico formal. A confusão entre as duas é um problema do sistema de avaliação da ciência, não necessariamente da pesquisa em si.
Para que serve fazer um mestrado ou doutorado se a tese não vai ser lida?
A formação em pós-graduação não se reduz ao documento final. Ela inclui o desenvolvimento de capacidade analítica, rigor metodológico, habilidade de construir argumentos com evidências e de navegar em complexidade. Esses atributos têm valor além da tese em si, tanto em carreiras acadêmicas quanto em outros contextos profissionais.
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