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Pesquisa em enfermagem: erros mais comuns

Descubra os erros mais comuns na pesquisa em enfermagem e como evitá-los para garantir rigor científico e aprovação na banca.

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O que ninguém te conta antes de começar

Olha só: a enfermagem tem uma das produções científicas mais ricas da área da saúde no Brasil. Mas também tem alguns padrões de erro que se repetem tanto que você começa a reconhecer à distância.

Não estou falando de deslize de principiante. Estou falando de equívocos que aparecem em pesquisas de estudantes avançados, em TCCs defendidos, às vezes em artigos submetidos. São erros estruturais, que nascem cedo no processo e crescem ao longo de todo o trabalho.

A boa notícia: a maioria deles tem solução simples, desde que você os identifique cedo o suficiente.

Erro 1: objetivo vago demais para ser testável

O objetivo de uma pesquisa em enfermagem precisa responder a uma pergunta operacionalizável. Parece óbvio, mas não é.

“Analisar a assistência de enfermagem aos pacientes cirúrgicos” não é um objetivo. É uma frase. Qual aspecto da assistência? Quais pacientes cirúrgicos? Em que contexto? Com que parâmetro de avaliação?

Um objetivo testável fica mais próximo de: “Identificar a prevalência de úlceras por pressão em pacientes no pós-operatório de cirurgia cardíaca em UTI adulto de hospital público de médio porte.”

Perceba que agora você sabe exatamente o que medir, onde medir e em quem. Isso guia cada decisão metodológica que vem depois.

O problema com objetivos vagos é que eles parecem seguros. São genéricos o suficiente para ninguém questionar de imediato. Mas na hora da defesa, a banca vai pedir especificidade, e você vai precisar improvisar.

Erro 2: escolher a abordagem antes de entender o problema

Tem muita pesquisa em enfermagem que começa assim: “Quero fazer um estudo qualitativo.” Depois vai procurar um problema que caiba nessa abordagem.

É ao contrário. A abordagem metodológica é uma resposta ao problema, não o ponto de partida.

Se você quer entender como enfermeiros vivenciam o atendimento a pacientes com COVID-19 em UTI, uma abordagem qualitativa faz sentido porque o objeto é a experiência subjetiva. Se você quer comparar taxas de infecção hospitalar entre dois protocolos de higienização, o caminho é quantitativo porque o objeto é mensurável e comparável.

Confundir isso gera trabalhos onde os dados não respondem à pergunta, ou onde a análise é superficial porque a metodologia não foi construída para capturar o que realmente importava.

Erro 3: coletar dados antes da aprovação do CEP

Esse é sério. E acontece mais do que deveria.

A Plataforma Brasil existe para garantir que toda pesquisa com seres humanos no Brasil passe por avaliação ética. Isso inclui pesquisa com enfermeiros, com pacientes, com prontuários, com profissionais de saúde em geral.

Coletar antes da aprovação invalida a pesquisa. Os dados não podem ser publicados. A banca pode reprovar o trabalho. E mais importante: há uma razão ética real por trás dessa exigência que vai além da burocracia.

O caminho é submeter o projeto ao CEP cedo, considerando que o prazo médio de aprovação no Brasil gira em torno de 30 a 90 dias, dependendo da plataforma e do comitê. Isso precisa entrar no seu cronograma desde o início.

Se você ainda não fez isso e já está coletando dados, pare. Converse com seu orientador agora.

Erro 4: revisão de literatura que não conversa com os dados

Um padrão que aparece bastante: a revisão de literatura está lá, bem escrita, com citações adequadas. Mas quando chegam os resultados e a discussão, parece que foram escritos por outra pessoa sobre outro tema.

A revisão precisa ser construída como um diálogo que vai continuar ao longo de todo o trabalho. Cada seção da discussão deve retomar autores e achados da revisão para confirmar, contrastar ou expandir o que você encontrou.

Quando isso não acontece, o trabalho tem uma coleção de textos soltos em vez de uma pesquisa coesa. A banca percebe. O avaliador do periódico percebe.

Se você está escrevendo a discussão e não está fazendo referência ao que escreveu na revisão, pare e releia a revisão. Se não encontrar o que precisa, é sinal de que a revisão precisava ter sido mais focada.

Erro 5: instrumento de coleta sem validação

Criar um questionário do zero e aplicar direto é um erro clássico. Um instrumento não validado coloca em xeque toda a validade dos dados coletados.

Na pesquisa em enfermagem, especialmente em estudos quantitativos, prefira instrumentos já validados para a população brasileira. Quando for adaptar ou criar um instrumento, o processo de validação precisa fazer parte da metodologia, com análise de conteúdo por experts, pré-teste e análise de fidedignidade.

Essa parte do processo leva tempo e é subestimada com frequência. Considere no cronograma.

Erro 6: amostra inadequada para o problema

Dois problemas frequentes aqui: amostras muito pequenas para estudos quantitativos e seleção de participantes por conveniência sem justificativa.

No estudo quantitativo, o tamanho amostral precisa ser calculado. Há fórmulas específicas dependendo do desenho do estudo, e o orientador ou um bioestatístico pode ajudar. Usar amostragem por conveniência é possível, mas precisa ser declarado como limitação e justificado.

No estudo qualitativo, o critério não é quantidade, mas saturação teórica. Você coleta até que novas entrevistas não acrescentem informações novas. Dez entrevistas bem analisadas valem mais do que cinquenta rasas.

O que não funciona: justificar o tamanho da amostra com “era o que estava disponível no período” sem nenhuma reflexão crítica sobre o que isso implica para os resultados.

Erro 7: discussão que descreve em vez de interpretar

Esse erro é quase universal nos primeiros trabalhos, e aparece bastante nos intermediários também.

A discussão não é para repetir o que está nos resultados com outras palavras. É para interpretar o que os resultados significam, à luz da literatura e do contexto.

“O estudo mostrou que 60% dos enfermeiros relataram sobrecarga de trabalho” é resultado. “Esses dados reforçam o que Souza et al. (2022) apontaram sobre o impacto do dimensionamento inadequado na qualidade do cuidado e na saúde do trabalhador, e indicam que as políticas de gestão de pessoas nas instituições estudadas ainda não incorporaram os critérios do COFEN para definição de quadro de pessoal” é discussão.

A diferença está na conexão entre o que você encontrou, o que a literatura sabe sobre isso e o que isso implica.

Erro 8: conclusão que não responde ao objetivo

Se o objetivo do seu trabalho era identificar fatores associados à não adesão ao protocolo de higienização de mãos, sua conclusão precisa dizer quais fatores você encontrou, com que força de associação, e o que isso indica.

Conclusões genéricas do tipo “a pesquisa mostrou que a higienização de mãos é importante para prevenir infecções hospitalares” não respondem ao objetivo. Elas poderiam ter sido escritas antes de qualquer coleta de dados.

A conclusão precisa ser específica e derivar diretamente dos seus achados. E precisa apontar para onde a prática ou a pesquisa futura devem ir com base no que você descobriu.

O que o Método V.O.E. tem a ver com tudo isso

Quando trabalhamos com o Método V.O.E., uma das primeiras etapas é mapear o que você quer dizer antes de começar a escrever. Isso se aplica tanto à escrita do trabalho quanto ao planejamento da pesquisa.

Muitos desses erros nasceram porque o pesquisador começou a escrever (ou a coletar) sem ter clareza sobre o que precisava dizer, provar ou entender. O resultado é um trabalho que vai sendo corrigido em camadas até virar um problema difícil de resolver.

A ordem importa. O rigor no começo protege o trabalho inteiro.

Antes de avançar, verifique

Se você está começando um projeto de pesquisa em enfermagem, vale fazer uma pausa e checar:

O seu objetivo está claro o suficiente para ser operacionalizado? Sua abordagem foi escolhida em função do problema, ou o contrário? O CEP já foi consultado e o cronograma inclui o prazo de aprovação? Seu instrumento tem base validada?

Se a resposta para alguma dessas perguntas for “não”, esse é o lugar para ajustar antes de avançar. Muito mais fácil corrigir aqui do que depois de meses de coleta.

Faz sentido? Esses são os erros que aparecem mais, mas cada contexto tem suas particularidades. Se você estiver travado em alguma dessas etapas, o caminho costuma ser conversar com o orientador com perguntas específicas, não esperar que o problema se resolva sozinho.

Perguntas frequentes

Quais são os erros mais comuns na pesquisa em enfermagem?
Os erros mais comuns incluem objetivo mal definido, confusão entre abordagem qualitativa e quantitativa, coleta de dados sem aprovação do CEP, e discussão que não diálogo com a literatura. Problemas na análise de dados e falta de rigor na definição da população também aparecem com frequência.
Como definir o problema de pesquisa em enfermagem?
O problema de pesquisa em enfermagem deve partir de uma lacuna observada na prática clínica ou na literatura. Deve ser formulado como pergunta clara, com população definida, intervenção ou fenômeno de interesse, e contexto específico. Evite problemas genéricos demais ou impossíveis de responder com os recursos disponíveis.
A pesquisa em enfermagem precisa de aprovação do CEP?
Sim. Toda pesquisa que envolve seres humanos, direta ou indiretamente, precisa ser submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e registrada na Plataforma Brasil. Isso inclui pesquisas com prontuários, entrevistas com pacientes ou profissionais de saúde e estudos observacionais. A ausência de aprovação invalida a pesquisa.
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