Pesquisa-ação: o que é, como funciona e quando usar
Entenda o que é pesquisa-ação, sua diferença para outros métodos qualitativos, em quais áreas é mais usada e o que caracteriza esse tipo de investigação.
O que é pesquisa-ação, de verdade
Vamos lá. Pesquisa-ação é um dos métodos mais mal entendidos na academia brasileira. Uma parte dos estudantes acha que é qualquer pesquisa em que o pesquisador “age” ou faz alguma coisa durante a coleta. Outra parte confunde com pesquisa-intervenção. E uma terceira parte usa o nome sem entender o que define o método.
Pesquisa-ação não é simplesmente observar e depois escrever. Ela tem uma estrutura específica: o pesquisador faz parte do processo como agente de mudança, junto com o grupo pesquisado, num ciclo que alterna diagnóstico, planejamento, ação e reflexão.
Esse método tem raízes em Kurt Lewin, psicólogo social que nos anos 1940 argumentou que a melhor forma de compreender um sistema é tentando mudá-lo. Desde então, a pesquisa-ação se ramificou em várias vertentes, mas essa lógica central se mantém.
As características que definem o método
Para um estudo ser pesquisa-ação de fato, ele precisa ter alguns elementos que o distinguem de outros métodos qualitativos:
Participação colaborativa: O pesquisador não é um observador externo. Ele atua junto ao grupo, e idealmente o grupo participa das decisões sobre a pesquisa, não só como sujeitos passivos.
Foco na mudança: Há uma intenção de transformar alguma realidade, resolver um problema prático ou melhorar uma situação. A pesquisa não é neutra em relação ao contexto estudado.
Ciclos iterativos: Ação e reflexão se alternam. Você faz algo, observa o que acontece, reflete, ajusta, age novamente. Isso se repete até que o ciclo de pesquisa se complete.
Duplo produto: O resultado da pesquisa-ação é tanto a produção de conhecimento (a dissertação, o artigo) quanto a transformação que aconteceu no campo. Ambos são resultados válidos e esperados.
Em quais áreas a pesquisa-ação é mais usada?
A pesquisa-ação tem presença forte em algumas disciplinas e quase nenhuma em outras. Isso importa para você escolher o método adequado à sua área.
Educação: talvez a área com maior tradição em pesquisa-ação no Brasil. Professores pesquisando suas próprias práticas de sala de aula, pesquisadores trabalhando com escolas para implementar projetos pedagógicos, estudos sobre formação docente.
Saúde pública e enfermagem: especialmente em contextos comunitários, como programas de saúde da família, educação em saúde ou qualidade de vida em populações específicas.
Serviço social e trabalho comunitário: pesquisa com grupos vulneráveis, onde a participação ativa é um princípio ético, não só metodológico.
Gestão e organizações: menos comum, mas existe em estudos de mudança organizacional, desenvolvimento de equipes e implementação de inovações.
Engenharia de software e sistemas de informação: a Design Science Research tem sobreposição com pesquisa-ação em alguns aspectos, embora sejam métodos distintos.
Em ciências biomédicas básicas, física e química, pesquisa-ação é raramente aplicável. O método é para fenômenos sociais, institucionais ou educacionais onde a intervenção humana e a reflexão sobre ela fazem sentido.
O que não é pesquisa-ação
Isso é importante. Muitos trabalhos usam o nome incorretamente.
Um estudo em que você aplica um instrumento (questionário, teste, entrevista) e depois faz um relatório com propostas de melhoria não é pesquisa-ação. Você não agiu sobre o problema.
Uma pesquisa em que você observa uma prática educacional sem intervir não é pesquisa-ação. Pode ser etnografia, estudo de caso ou pesquisa participante.
Um estudo em que você desenvolve um produto ou material didático e avalia seu impacto pode ser pesquisa-ação ou pesquisa de desenvolvimento, dependendo de como o ciclo de reflexão está estruturado e do grau de participação do grupo.
A diferença está na intencionalidade da ação, no ciclo de reflexão e na participação ativa do grupo pesquisado como parceiro, não só como informante.
Os ciclos da pesquisa-ação
A estrutura clássica de um ciclo de pesquisa-ação envolve:
Diagnóstico: identificar o problema junto ao grupo, entender o contexto, mapear as necessidades.
Planejamento da ação: definir o que vai ser feito, quem faz o quê, quais os objetivos da intervenção.
Implementação da ação: executar o que foi planejado. Isso pode ser um projeto, uma capacitação, uma série de oficinas, uma mudança de processo.
Observação e coleta de dados: registrar o que acontece durante e depois da ação. Diário de campo, entrevistas, observação participante.
Reflexão: analisar o que funcionou e o que não funcionou. Quais foram os efeitos? Houve mudança? O que o grupo aprendeu? O que o pesquisador aprendeu?
E então o ciclo pode se repetir com ajustes.
Para um TCC, geralmente um ciclo é viável. Para uma dissertação, dois ciclos permitem mais profundidade. Para um doutorado, é possível acompanhar a situação por mais tempo, o que enriquece muito a análise.
Como escrever a metodologia de uma pesquisa-ação
A seção de metodologia de um trabalho com pesquisa-ação precisa explicar:
Que tipo de pesquisa-ação você está fazendo (há várias vertentes: a de Thiollent, a de Tripp, a de Kemmis e McTaggart, entre outras). O posicionamento teórico precisa estar claro.
Como o pesquisador se insere no campo. Qual é o seu papel? Você é professor pesquisando sua própria sala? É pesquisador externo parceiro de uma escola? Essa relação precisa ser explicitada.
Quantos ciclos foram realizados e como foram estruturados.
Quais instrumentos de coleta foram usados em cada fase (diário, entrevista, grupo focal, observação).
Como os dados foram analisados, e se a análise foi compartilhada com o grupo (o que a pesquisa-ação participante geralmente prevê).
A questão ética que muita gente ignora
Pesquisa-ação com grupos humanos exige aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) quando envolve intervenção. Isso inclui a maioria dos estudos em educação, saúde e ciências sociais.
Uma armadilha comum: achar que por ser “uma pesquisa de campo educacional” não precisa do CEP. Precisa. Principalmente se você está realizando intervenções com professores, alunos menores de idade, profissionais de saúde ou grupos vulneráveis.
Verifique os critérios da Resolução CNS 510/2016 para pesquisas nas ciências humanas e sociais, que tem especificidades em relação à Resolução 466/2012 (mais focada em saúde).
Pesquisa-ação e o problema da validade
Uma das críticas mais comuns à pesquisa-ação é sobre validade e rigor. Como você garante rigor científico quando o pesquisador está tão envolvido com o objeto de estudo?
A resposta não é fingir distância. É documentar tudo com rigor. Diário de campo detalhado, triangulação de fontes, devolutiva dos resultados ao grupo (member checking), clareza sobre os limites da pesquisa.
A pesquisa-ação não reivindica generalização estatística. Ela reivindica transferibilidade: o leitor pode entender o contexto suficientemente bem para avaliar se e como os resultados se aplicam à sua própria realidade. Isso exige uma descrição densa do campo, dos atores, das condições e das contradições do processo.
Uma palavra sobre postura do pesquisador
Pesquisa-ação coloca o pesquisador numa posição peculiar: ao mesmo tempo agente de mudança e observador crítico. Essa dupla posição é riquíssima metodologicamente, mas exige reflexividade.
Reflexividade significa reconhecer e explicitar como sua presença, suas crenças e seu papel ativo influenciam o que você observa. Em vez de fingir neutralidade, você documentar essa posição.
Isso fica na metodologia e às vezes permeia o texto todo, especialmente nos resultados e na discussão. “Como pesquisadora inserida no processo, observei que…” é uma frase completamente aceitável em pesquisa-ação. Em outros métodos, soaria inadequado.
O Método V.O.E. tem uma etapa de verificação que se aplica aqui de forma específica: antes de escrever os resultados, verificar se o que você está descrevendo é o que realmente aconteceu no campo, separado das suas expectativas como pesquisador-interventor. Essa distinção é difícil mas necessária.
Se quiser entender mais sobre como estruturar seu trabalho independente do método utilizado, passe pela página sobre o Método V.O.E. para ver como as etapas se aplicam a diferentes contextos de pesquisa.