Jornada & Bastidores

Dúvidas comuns de pesquisadoras: o que tenho respondido

As perguntas mais frequentes que pesquisadoras me fazem sobre escrita, metodologia e carreira acadêmica, respondidas com franqueza.

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As perguntas que mais chegam

Existe uma lista de dúvidas que se repetem. Não importa se a pesquisadora está no início do mestrado ou ajustando a tese para a defesa: as mesmas questões voltam, com palavras diferentes.

Uma dúvida é uma dificuldade específica que aparece num momento específico do percurso acadêmico. Não é falta de inteligência nem de dedicação. É uma lacuna que ninguém teve tempo de preencher, porque a academia ensina a fazer pesquisa, não a navegar pelo processo de fazer pesquisa.

Decidi reunir aqui as que mais aparecem no meu dia a dia, nas mentorias, nas mensagens e nos comentários. Respostas diretas, sem romantizar nem minimizar.


”Meu texto está confuso, mas não sei onde”

Essa é a dúvida mais comum e também a mais difícil de responder sem ver o texto. Mas há um diagnóstico que funciona em boa parte dos casos.

Leia apenas as primeiras frases de cada parágrafo, em sequência. Se essa leitura não contar uma história coerente sobre o seu argumento, o problema não é estilo: é estrutura. Os parágrafos podem estar bem escritos individualmente e ainda assim não funcionar juntos.

A segunda possibilidade é que o texto esteja claro para você porque você sabe o que quis dizer, mas o leitor não tem esse contexto. Pedir para alguém de fora da sua área ler um parágrafo e te dizer o que entendeu é um dos testes mais úteis que existem. Se a pessoa entende algo diferente do que você pretendia, o problema não é o leitor.


”Quantas fontes preciso citar no referencial?”

Não existe número certo. O que existe é cobertura adequada.

O referencial teórico precisa sustentar as escolhas conceituais e metodológicas da pesquisa. Se você usa análise de conteúdo, precisa ter citado os autores canônicos do método e justificado por que essa abordagem serve à sua pergunta. Não existe “pelo menos 30 fontes” ou “no mínimo 50 artigos”.

O que bancas costumam questionar não é a quantidade de referências, mas a ausência de autores específicos que elas esperavam encontrar. Essa expectativa varia muito por área e por linha de pesquisa. A melhor estratégia é ler as referências das teses aprovadas no seu programa nos últimos três anos e identificar quem aparece com frequência. Esses nomes são, provavelmente, inegociáveis para a sua banca.


”Posso escrever em partes não lineares?”

Pode e às vezes é melhor assim. Escrever linearmente do capítulo 1 ao 5 funciona para algumas pessoas e é catastrófico para outras.

Quem tem facilidade para começar pela metodologia ou pelos resultados, e só depois escreve a introdução, está fazendo uma escolha válida. A introdução fica melhor quando o texto inteiro já existe. É difícil apresentar bem o que você ainda não terminou de descobrir.

O que não pode é deixar a estrutura fragmentada no texto final. Escrever em partes não lineares é um processo. O produto entregue à banca precisa ter fluidez e progressão. Isso é revisão, não escrita.


”Minha orientadora demorou dois meses para responder, o que faço?”

Essa é uma das perguntas que mais recebo, e também a que menos tem resposta simples.

Orientação lenta não é rara. Professoras orientadoras têm agendas muito cheias, outros orientandos, aulas, pesquisa própria, cargos administrativos. Isso não resolve o seu prazo, mas contextualiza.

O que costuma funcionar: um e-mail com objeto claro (“Retorno sobre texto enviado em [data] - cap. 2”) e uma pergunta específica (“Pode me dar uma previsão de quando posso esperar o retorno?”). Sem cobrança passivo-agressiva, sem email longo demais. Quanto mais fácil você torna a resposta, maior a chance de ela vir.

Se o prazo do programa estiver em risco, isso precisa ser dito explicitamente. Não presuma que a orientadora sabe qual é o seu prazo final.


”Como sei se estou pronta para a qualificação?”

Essa pergunta costuma aparecer com outra por baixo: “Será que vão me reprovar?”

Qualificação não é defesa. O objetivo não é apresentar uma pesquisa acabada, é apresentar uma pesquisa viável e com direção clara. A banca vai questionar, apontar lacunas, sugerir ajustes. Isso é o que a qualificação deve fazer.

Você está pronta para a qualificação quando consegue responder, com segurança, três perguntas:

  1. Qual é a minha pergunta de pesquisa e por que ela importa?
  2. Como vou responder essa pergunta (quais dados, qual método, por quê)?
  3. Que referencial teórico sustenta minhas escolhas?

Se as três respostas existem no texto e você consegue explicá-las sem depender do material escrito, você está pronta. Não precisa ter todos os resultados. Precisa ter um percurso plausível.


”IA pode ajudar na escrita da dissertação?”

Sim, com limites claros. E os limites importam porque a ética importa, não porque existe algum detector infalível de IA.

IA pode ajudar em: reformular frases para melhorar clareza, verificar coerência interna de um parágrafo, identificar palavras repetidas, sugerir variações de conectivos, organizar ideias que você jogou de forma desestruturada. São usos instrumentais, que preservam a autoria intelectual do texto.

IA não pode substituir: a leitura das fontes, a interpretação dos dados, a construção do argumento, a posição teórica da pesquisa. Quando esses elementos são gerados por IA, o texto pode passar pela revisão gramatical mas falha na banca porque a autora não sabe responder perguntas sobre o que escreveu. E isso aparece.

A pergunta certa não é “posso usar IA?” mas “o que eu mesmo preciso fazer para que este texto seja meu?”. A resposta a essa segunda pergunta é o limite.


”Preciso publicar artigo antes de defender?”

Depende do programa. Alguns programas de doutorado exigem publicação ou submissão em periódico como requisito de defesa. Para o mestrado, é menos comum.

Consulte o regimento do seu programa e pergunte diretamente para a coordenação. Não assuma nem pela prática dos colegas: regimentos mudam, e orientadoras às vezes comunicam critérios informais que não correspondem ao que está escrito.

Se o programa não exige, publicar antes da defesa pode ou não ser estratégico dependendo do seu momento de carreira. Para quem está entrando em seleção de doutorado em seguida, uma publicação ajuda no currículo. Para quem precisa defender dentro de 90 dias, o artigo pode esperar.


”Me sinto uma fraude toda vez que escrevo algo”

Isso tem nome: síndrome do impostor. E aparece com força particular na escrita acadêmica porque escrita é exposição.

Não vou dizer que vai passar automaticamente. Mas há uma distinção que ajuda: sentir-se fraude não é evidência de que você é fraude. É, com frequência, evidência de que você está num nível onde a exigência aumentou e o referencial de comparação mudou.

O que funciona melhor não é tentar eliminar o sentimento mas separar o que ele diz do que os fatos dizem. Você foi aceita no programa. Você passou pelo processo seletivo. Sua orientadora não vai perder tempo com uma pesquisa que não tem valor. Esses são fatos. O sentimento de fraude não é fato, é estado interno.

Escrever assim mesmo, sem esperar o sentimento ir embora, é o que produz texto. Esperar a confiança chegar antes de começar é esperar o que nunca aparece antes do processo.


Sobre o que falta responder

Essas são as perguntas mais frequentes. Mas a lista nunca está completa, porque cada percurso tem suas próprias dificuldades específicas.

O que une todas elas é que as respostas raramente estão nos manuais de metodologia. Estão na experiência de quem já passou pelo processo, cometeu os erros, corrigiu e continuou.

Se você tem uma dúvida que não apareceu aqui, pode ser que ela seja exatamente o próximo post.

Perguntas frequentes

Quanto tempo antes da qualificação devo entregar o texto para a banca?
O mínimo regimental varia por programa, mas como regra prática: nunca menos de 15 dias antes da data. Bancas que recebem o texto com menos de uma semana tendem a ler com pressa e questionar mais. Você não controla o que a banca pensa, mas pode controlar o tempo que ela tem para ler com calma.
Posso usar a primeira pessoa no texto acadêmico?
Depende da área e do programa. Na maioria das ciências humanas e sociais, o uso da primeira pessoa está mais aceito hoje do que há dez anos, especialmente em pesquisas qualitativas onde a posição da pesquisadora é parte do método. Consulte as normas do seu programa e veja como as teses aprovadas recentemente tratam essa questão.
Como saber se meu referencial teórico está bom o suficiente?
Um referencial teórico está funcional quando consegue sustentar as escolhas metodológicas e interpretar os resultados sem que você precise sair dele para buscar conceitos de fora. Se você continua voltando ao Google Acadêmico para preencher lacunas durante a escrita dos resultados, o referencial ainda não está fechado.

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