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Pensei em desistir do mestrado (e o que me fez continuar)

Desistir do mestrado é mais comum do que parece. Entenda por que isso acontece e o que pode ajudar a tomar uma decisão consciente.

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O dia em que a pergunta apareceu

Vamos lá. Eu preciso contar uma coisa que não se conta muito na academia: eu pensei em desistir.

Não foi um pensamento de um segundo. Não foi um dia ruim que passou. Foi um período inteiro em que a ideia de trancar a matrícula e seguir em frente parecia mais sensata do que continuar.

E olha, se você está lendo isso e se identificou, saiba que você não está sozinho. Não estou dizendo isso como frase de motivação. Estou dizendo como fato: o número de pesquisadores que consideram abandonar a pós-graduação é alto. É tão alto que deveria ser parte da conversa sobre formação de pesquisadores, mas raramente é.

O que leva alguém a pensar em desistir

Quando a gente fala de desistência na pós-graduação, a tendência é apontar para o indivíduo: “faltou dedicação”, “não tinha perfil para pesquisa”, “não aguentou a pressão”. Essa narrativa é confortável para o sistema porque não exige nenhuma mudança. O problema é sempre de quem sai.

Mas quando você ouve as histórias de quem pensou em desistir, o padrão é diferente. O que aparece é uma combinação de fatores que não têm nada a ver com falta de capacidade.

Relação difícil com a orientação. Isso aparece com frequência. Orientadores ausentes, orientadores que desvalorizam o trabalho, orientadores que mudam as diretrizes no meio do caminho. A orientação é a relação mais determinante da pós-graduação, e quando ela não funciona, tudo fica mais pesado.

Isolamento. A pós-graduação pode ser um processo muito solitário. Você passa horas lendo, escrevendo, pensando, e muitas vezes não tem com quem dividir as dúvidas. Colegas de programa podem estar tão sobrecarregados quanto você. Amigos e família nem sempre entendem o que você está passando.

Dificuldades financeiras. A bolsa, quando existe, é insuficiente para viver com dignidade em muitas cidades. E quando não existe bolsa, o pesquisador precisa conciliar trabalho e pesquisa, o que consome uma energia que ninguém conta nos créditos do programa.

Perda de sentido. Em algum momento, a pergunta “para que eu estou fazendo isso?” começa a martelar. O tema que parecia interessante vira uma obrigação. O prazo aperta. A conexão com o propósito original da pesquisa se perde.

Problemas de saúde mental. Ansiedade, insônia, crises de choro, dificuldade de concentração. Esses sintomas são relatados com uma frequência que deveria assustar qualquer programa de pós-graduação. E muitas vezes, pedir ajuda é visto como fraqueza.

O que aconteceu comigo

Não vou entrar em todos os detalhes, porque essa história é pessoal e cada pessoa tem a sua. Mas posso dizer o seguinte: o que me fez pensar em parar não foi um momento de crise. Foi um acúmulo.

Um semestre particularmente difícil. Uma pesquisa que não estava dando os resultados esperados. A sensação de que eu estava dedicando a melhor parte do meu tempo a algo que talvez não valesse a pena. E a comparação, sempre a comparação, com colegas que pareciam estar avançando sem as mesmas dificuldades.

Eu olhava para o que faltava fazer e não conseguia ver como ia chegar lá.

O que me fez continuar (sem romantizar)

Seria fácil contar essa história com um final bonito: “encontrei motivação e tudo se resolveu”. Não foi assim.

O que me fez continuar foi uma combinação de coisas práticas e uma decisão consciente.

Primeiro, eu conversei com alguém. Parece simples, mas abrir a boca e dizer “estou pensando em parar” em voz alta para outra pessoa faz diferença. No meu caso, foi uma conversa honesta com alguém de confiança que não tentou me convencer a ficar nem a sair. Apenas escutou e me ajudou a organizar o que eu estava sentindo.

Segundo, eu tentei separar os problemas. A pergunta não era “quero continuar na pós-graduação?” mas sim “quais são os problemas específicos que estão tornando isso inviável?” Quando você tira o problema da abstração e coloca em termos concretos, fica mais fácil ver o que pode ser mudado.

Terceiro, eu ajustei o que dava para ajustar. Não vou dizer que resolvi tudo, porque não resolvi. Mas fiz mudanças possíveis: reorganizei minha rotina de escrita, conversei com minha orientação sobre expectativas, e baixei a barra do perfeccionismo que estava me paralisando.

Quarto, e isso foi o mais difícil: eu aceitei que o processo ia ser desconfortável e que isso não significava que eu estava no caminho errado. A pós-graduação é, em grande parte, um exercício de tolerância à incerteza. E incerteza é desconfortável por natureza.

A decisão de ficar ou sair é legítima nos dois sentidos

Olha só, preciso dizer isso com clareza: desistir do mestrado não é fracasso.

Se depois de avaliar honestamente a situação você conclui que a pós-graduação não é mais o caminho, sair é uma decisão válida. Não é fraqueza. Não é incapacidade. É reconhecer que a vida tem caminhos diferentes e que insistir em algo que não faz mais sentido pode custar mais do que mudar de direção.

Muita gente fica na pós-graduação por medo de julgamento, por pressão familiar, pelo dinheiro investido, pelo tempo já dedicado. Nenhuma dessas é uma boa razão para continuar algo que está comprometendo sua saúde ou sua vida.

Ao mesmo tempo, se os problemas são específicos e podem ser resolvidos ou amenizados, vale investir em buscar soluções antes de tomar a decisão final. Trocar de orientador é possível em muitos programas. Negociar prazos acontece mais do que se imagina. Buscar apoio psicológico é acessível em muitas universidades.

A chave é tomar a decisão de forma consciente, e não reativa. Decidir no meio de uma crise emocional raramente produz a melhor decisão. Se possível, espere a crise passar, busque apoio, e depois avalie com mais clareza.

O que eu gostaria que alguém tivesse me dito

Se eu pudesse voltar no tempo e falar com a versão de mim que estava pensando em desistir, diria três coisas.

Primeiro: o que você está sentindo tem nome e tem causa. Não é frescura. Não é falta de vocação. É o resultado de um sistema que exige muito e oferece pouco suporte.

Segundo: você não precisa decidir agora. A urgência que você sente é parte do problema, não parte da solução. Pode dar um passo de cada vez.

Terceiro: pedir ajuda não é desvio do caminho. É parte do caminho. Nenhum pesquisador produz sozinho, mesmo que o sistema faça parecer que sim.

No Método V.O.E., uma das coisas que mais repetimos é que escrever não precisa ser sofrimento. E eu estendo isso para a pós-graduação como um todo: pesquisar não precisa ser sofrimento. Se está sendo, vale investigar por quê, e vale mudar o que puder ser mudado.

Para quem está nesse momento agora

Se você está pensando em desistir agora, não vou te dizer o que fazer. Essa decisão é sua e ninguém tem o direito de tomá-la por você.

O que posso dizer é: converse com alguém. Pode ser um colega, um familiar, um profissional de saúde mental. Se a sua universidade tem serviço de apoio psicológico para pós-graduandos, procure. Se não tem, existem serviços externos que podem ajudar.

Você merece tomar essa decisão com inf

Perguntas frequentes

É normal pensar em desistir do mestrado?
Sim. Pensar em desistir é mais comum do que se imagina na pós-graduação. Pesquisas com pós-graduandos mostram que uma parcela significativa considera abandonar o programa em algum momento. Isso não significa que você é fraco ou incapaz. Significa que a pós-graduação é um processo com dificuldades reais, e questionar se faz sentido continuar é uma reação legítima diante dessas dificuldades.
Desistir do mestrado prejudica minha carreira?
Depende do contexto e do que você quer fazer depois. Se você decide sair porque percebeu que a carreira acadêmica não é o que deseja, isso pode ser uma decisão saudável e estratégica. O mestrado incompleto não aparece de forma negativa no currículo, a menos que você o mencione. Por outro lado, se a desistência é motivada por problemas temporários que podem ser resolvidos, pode valer a pena buscar ajuda antes de tomar a decisão.
Como saber se devo continuar ou desistir?
Não existe uma fórmula, mas algumas perguntas ajudam: o problema é com a pós-graduação em si ou com a situação específica (orientação, tema, instituição)? Se fosse possível mudar essa situação específica, você continuaria? Você ainda se interessa pelo tema ou perdeu a conexão com a pesquisa? As dificuldades são temporárias ou estruturais? Conversar com alguém de confiança, seja um colega, familiar ou profissional de saúde mental, pode ajudar a organizar esses pensamentos.
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