Parecer Técnico-Científico: Estrutura e Como Escrever
Parecer técnico-científico é um gênero acadêmico específico. Entenda o que diferencia um parecer bem construído e quais são suas seções essenciais.
Um gênero que nem todo mundo sabe que vai precisar escrever
Olha só. O parecer técnico-científico não costuma aparecer nas disciplinas de metodologia de pesquisa. Não tem capítulo sobre ele na maioria dos manuais de escrita acadêmica. E ainda assim, em algum momento da trajetória de qualquer pesquisador, vai aparecer a necessidade de escrever um.
Seja como avaliador de artigo para revista científica, seja como membro de comitê de ética, seja como especialista consultado por um órgão público, seja como analista de projeto em agência de fomento, o parecer é um gênero que aparece em contextos variados e que exige habilidades que a formação acadêmica muitas vezes não aborda explicitamente.
Esse post é sobre o que define o parecer técnico-científico como gênero, o que ele precisa ter e o que o diferencia de outros textos avaliativos que parecem similares mas não são a mesma coisa.
O que é um parecer e o que não é
Parecer é uma avaliação formal fundamentada, emitida por especialista, sobre um objeto específico. O objeto pode ser um artigo, um projeto, uma proposta, um produto, um método, uma política.
O que diferencia o parecer de outros tipos de avaliação:
É formal: tem estrutura definida, é assinado pelo parecerista identificado com sua qualificação, e gera um documento que pode ser citado, arquivado e utilizado como base para decisões.
É fundamentado: não é opinião pessoal. É análise baseada em critérios técnicos e científicos do campo, que o parecerista precisa explicitar ou que são estabelecidos pelo contexto (como os critérios de uma revista científica).
É especializado: o parecerista é alguém com competência reconhecida para avaliar aquele objeto específico. Um parecer técnico emitido por alguém sem qualificação na área tem validade questionável.
O que o parecer não é: resumo do que está sendo avaliado (esse é o primeiro movimento, mas não o fim), texto de opinião livre, nem relatório descritivo sem posicionamento.
Os contextos mais comuns em que o parecer aparece
Revisão por pares em revistas científicas. Quando você submete um artigo para uma revista e ele passa pela revisão cega, os revisores emitem pareceres. Se você já recebeu um parecer como autor, você viu esse gênero do lado de quem é avaliado. Em algum momento, a maioria dos pesquisadores é convidada a emitir pareceres como revisor.
Comitês de ética em pesquisa (CEP). Os CEPs avaliam projetos de pesquisa para aprovar a realização de estudos com seres humanos. Os membros do comitê emitem pareceres sobre cada projeto submetido. Esse contexto tem critérios bem estabelecidos (Resolução 510/2016 do CNS para pesquisa qualitativa, Resolução 466/2012 para pesquisa quantitativa com seres humanos), o que torna a escrita do parecer mais estruturada.
Agências de fomento. O CNPq, a CAPES, as FAPs estaduais e outros órgãos usam pareceristas para avaliar projetos submetidos em editais. Os pareceristas são pesquisadores da área convidados ou cadastrados.
Contextos jurídicos e governamentais. Em processos judiciais, laudos técnico-científicos (uma forma de parecer especializado) são pedidos a peritos. Em órgãos regulatórios, pareceres técnicos fundamentam decisões administrativas.
O que o parecer precisa conter
A estrutura varia com o contexto, mas há elementos que aparecem em praticamente qualquer parecer técnico-científico bem construído.
Identificação. Quem está emitindo o parecer, com que qualificação, sobre o quê, em que data. Em contextos onde o parecer é cego (como revisão de artigos), a identificação do parecerista fica oculta para o autor, mas o registro interno existe.
Síntese do objeto avaliado. Uma apresentação breve do que está sendo avaliado: o tema, o objetivo, a abordagem. Isso serve duas funções: demonstra que o parecerista leu e compreendeu o que estava avaliando, e situa o leitor do parecer no contexto antes da análise.
Análise fundamentada. O corpo do parecer. Aqui o parecerista examina aspectos específicos do objeto avaliado à luz dos critérios pertinentes. Em artigos científicos, isso geralmente inclui: relevância do tema, adequação metodológica, qualidade da argumentação, consistência entre dados e conclusões, clareza da escrita, relevância das referências. Em projetos de pesquisa, inclui a viabilidade metodológica, o cronograma, a justificativa, os objetivos.
A análise precisa ser específica. Dizer que “a metodologia é inadequada” sem explicar por quê e sem apontar o que seria adequado não é análise fundada. É julgamento sem suporte.
Conclusão com recomendação. O parecer termina com uma posição clara: aprovação, reprovação, aprovação com ressalvas, revisão obrigatória, revisão sugerida. Depende do contexto. A posição precisa ser coerente com a análise que veio antes. Um parecer que lista problemas sérios e conclui com aprovação sem restrições é internamente inconsistente.
O tom do parecer: rigor sem crueldade, crítica sem evasão
Existe uma tensão no parecer técnico que vale nomear: como ser crítico sem ser destrutivo, e como ser construtivo sem ser vago.
O parecer bem escrito é direto sobre os problemas que identifica. “A seção de metodologia não descreve como os participantes foram selecionados, o que dificulta avaliar a validade da amostra” é uma crítica precisa e útil. “A metodologia poderia ser melhorada” é vaga a ponto de não servir ao autor.
Ao mesmo tempo, o parecer não é espaço para julgamento da pessoa que produziu o trabalho. A análise recai sobre o trabalho, não sobre o autor. E quando o trabalho tem problemas sérios, nomeá-los com clareza e indicar o que precisaria mudar é mais respeitoso do que recusar sem explicação.
O tom acadêmico adequado para o parecer é técnico, objetivo e específico. Pode ser direto sobre limitações sem ser hostil. Pode reconhecer pontos fortes sem ser condescendente.
A questão dos conflitos de interesse
Antes de aceitar emitir um parecer, o especialista precisa verificar se há conflito de interesse com o objeto avaliado.
Conflito de interesse pode ser: conhecer a identidade do autor em revisão supostamente cega, ter colaboração recente com um dos autores, ter interesse direto no resultado da avaliação, ser concorrente direto em linha de pesquisa muito específica.
Se há conflito de interesse, o correto é declarar e recusar o convite para avaliar, ou declarar e aguardar decisão de quem solicitou o parecer sobre como proceder. Emitir parecer em situação de conflito de interesse não revelado compromete a validade do processo e a credibilidade do parecerista.
Por que saber escrever parecer importa além do ato de emiti-lo
Escrever bons pareceres é uma habilidade que retroalimenta a capacidade de escrever boa pesquisa.
Quando você aprende a identificar onde a metodologia de outro trabalho não sustenta suas conclusões, você passa a vigiar esse problema no seu próprio trabalho. Quando você pratica articular critérios técnicos para avaliar a qualidade de um argumento, você desenvolve o mesmo tipo de análise ao revisar seus próprios textos.
Nesse sentido, o parecer não é só um serviço prestado à comunidade científica. É um exercício de pensamento crítico aplicado que tem impacto na sua própria produção.
Para quem está desenvolvendo a escrita científica e quer entender como o pensamento crítico e a escrita se integram, o Método V.O.E. aborda essa relação de forma direta. Em recursos você encontra materiais adicionais sobre leitura e escrita acadêmica.